Relatório revela

Portugueses vivem mais, mas com menos saúde

Durante décadas, vencer uma doença significava sobreviver. Hoje significa, muitas vezes, aprender a viver com ela durante 20, 30 ou até 40 anos.

A medicina está a tornar-se vítima do próprio sucesso, pois conseguiu aumentar a esperança de vida e reduzir significativamente a mortalidade de doenças como as cardiovasculares e alguns tipos de cancro. Mas esse progresso trouxe um novo desafio: milhões de pessoas vivem agora mais tempo com doenças crónicas que exigem acompanhamento contínuo, tratamentos prolongados e apoio permanente. O sucesso da medicina deixou de se medir apenas pelas vidas que salva. Mede-se também pela capacidade de garantir qualidade de vida durante os anos que conquistou.

Esta é a principal conclusão do relatório internacional The Value of Chronic Care, desenvolvido pelo Zurich Insurance Group, com base em dados da OCDE, que analisou a evolução de mais de 200 doenças crónicas e a resposta dos sistemas de saúde dos 38 países da OCDE entre 2014 e 2023.

O estudo identifica uma mudança silenciosa, mas profunda. O peso das doenças está a deslocar-se da mortalidade para a morbilidade. Em vez de morrerem prematuramente, cada vez mais pessoas vivem durante décadas com diabetes, doenças neurológicas, problemas de saúde mental ou doenças músculo-esqueléticas. O impacto destas patologias já não se mede apenas pelas mortes que provocam, mas sobretudo pelos anos vividos com incapacidade, perda de autonomia e necessidade continuada de cuidados.

Esta transformação obriga a repensar a própria organização dos sistemas de saúde. Concebidos para responder a episódios agudos, enfrentam agora uma realidade em que milhões de pessoas precisam de acompanhamento continuado ao longo de grande parte da vida. O desafio deixou de ser apenas tratar doenças, passou a ser acompanhar pessoas.

 

Portugal acompanha esta transformação.

O país destaca-se pela equidade no acesso aos cuidados de saúde, ocupando o 7.º lugar entre os 38 países da OCDE avaliados. Contudo, quando se analisa a capacidade dos sistemas para responder ao desafio das doenças crónicas ao longo do tempo, Portugal desce para a 32.ª posição no novo Chronic Care Index, que avalia simultaneamente a carga da doença e o desempenho dos sistemas de saúde.

O paradoxo ajuda a explicar a realidade portuguesa. O problema já não está apenas na capacidade de tratar uma doença quando ela surge, mas na dificuldade em assegurar cuidados coordenados, prevenção da progressão da doença, acompanhamento continuado e integração entre diferentes níveis de cuidados para pessoas que vivem décadas com a mesma condição clínica.

"Portugal é reconhecido pela equidade no acesso aos cuidados de saúde, mas o relatório The Value of Chronic Care mostra que o nosso desafio já não está apenas em chegar às pessoas quando a doença aparece. Está em conseguir acompanhá‑las ao longo de décadas de vida com uma condição crónica.", afirma Ana Paulo, Head of Life da Zurich Portugal, acrescentando, “Vivemos mais anos, mas muitos desses anos são vividos com doença e com limitações que afetam a autonomia, a capacidade de trabalhar e a estabilidade financeira das famílias. O que está em causa já não é só salvar vidas, é garantir qualidade de vida - e isso exige mais prevenção, diagnóstico precoce, coordenação de cuidados e continuidade de apoio ao longo do tempo”.

O estudo demonstra ainda que os países com melhor desempenho não são necessariamente aqueles que mais investem em saúde, mas aqueles que conseguem atuar mais cedo. A prevenção, o diagnóstico precoce, a monitorização contínua dos fatores de risco e a articulação entre cuidados primários, hospitais e comunidade revelam-se hoje mais determinantes do que o volume de recursos investidos isoladamente.

As consequências desta mudança ultrapassam largamente o setor da saúde. Viver mais anos com doença significa maior pressão sobre os sistemas de saúde e de proteção social, mas também sobre as famílias, os cuidadores informais, o mercado de trabalho e a economia. À medida que as doenças crónicas se prolongam durante décadas, aumentam os períodos de incapacidade, as necessidades de apoio continuado, a saída precoce da vida ativa e os custos associados aos cuidados de longa duração.

O relatório deixa, por isso, uma mensagem clara: o futuro da saúde não dependerá apenas da capacidade de tratar doenças, mas de prevenir o seu aparecimento, atrasar a sua progressão e garantir que as pessoas vivem mais anos com saúde.

Porque, numa sociedade onde a esperança de vida continua a aumentar, o verdadeiro indicador de sucesso deixará de ser apenas quantos anos vivemos. Passará a ser quantos desses anos conseguimos viver com qualidade de vida.

 

Fonte: 
Burson
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.