Doença alérgica não pode ser desvalorizada. Doentes merecem cuidados diferenciados

“Apesar dos avanços alcançados nas últimas décadas, as doenças alérgicas continuam a ser subvalorizadas pela população, pelos decisores políticos e, inclusivamente, pelos próprios profissionais de saúde. Persiste ainda a ideia incorreta de que as alergias são uma condição menor, sem impacto clínico relevante”, explica Pedro Carreiro Martins.
Segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), embora a maioria das doenças alérgicas não seja fatal, algumas manifestações podem ser graves e potencialmente ameaçadoras à vida. Por isso, “a doença alérgica deve ser vista como uma condição médica que exige diagnóstico adequado, tratamento correto e seguimento apropriado”.
A World Allergy Organization (WHO) elegeu como tema da Semana Mundial da Alergia - que se assinala de 21 a 27 de junho - Allergy Care is Essential Care. O tema escolhido pela WHO chama a atenção para a necessidade de diagnóstico atempado, tratamento adequado, educação do doente e acesso a cuidados especializados.
Segundo Pedro Carreiro Martins, estima-se que, na Europa, cerca de uma em cada três pessoas tenha alguma forma de doença alérgica, num contexto global em que estas doenças continuam a aumentar e poderão afetar cerca de 4 mil milhões de pessoas até 2050. “As doenças alérgicas têm um impacto significativo na qualidade de vida, no sono, no rendimento escolar e profissional, e na produtividade”.
O aumento da prevalência das doenças alérgicas resulta de uma interação complexa entre predisposição genética e fatores ambientais.
Entre os fatores ambientais mais frequentemente associados a este tipo de doenças, o presidente da SPAIC destaca a alteração dos padrões alimentares, a redução da exposição precoce a microrganismos, as modificações da microbiota, o sedentarismo, a poluição atmosférica, o maior tempo passado em ambientes interiores e as alterações climáticas.
O aumento da doença alérgica não resulta de uma única causa, mas de um conjunto de alterações ambientais e sociais que influenciam a forma como o sistema imunitário se desenvolve e responde ao meio envolvente.
Entre as doenças alérgicas mais comuns estão a rinite alérgica, a asma alérgica, a dermatite atópica, a urticária, a alergia alimentar, a alergia a medicamentos e a alergia a venenos de abelhas e vespas.
No caso da rinite alérgica, estima-se que, em Portugal, afete cerca de um quarto da população. “Apesar de ser frequentemente desvalorizada, pode ter impacto importante na qualidade de vida, na qualidade do sono, na capacidade de concentração, no rendimento escolar e profissional”. Quanto à asma, calcula-se que 7% dos portugueses sofram desta condição que é uma das doenças crónicas mais prevalentes no nosso país. Rinite e asma estão frequentemente associadas. “Muitos doentes com asma têm rinite concomitante, e a presença de rinite não controlada pode agravar o controlo da asma e aumentar o risco de agudizações”, alerta o imunoalergologista.
Quanto à alergia alimentar e à alergia a medicamentos a sua prevalência tem também aumentado, constituído uma causa importante de consulta de Imunoalergologia.
Doenças alérgicas mais graves e com maior potencial de fatalidade
Algumas manifestações de doenças alérgicas podem ser graves e potencialmente fatais. “É o caso da anafilaxia, uma reação alérgica de instalação rápida, que exige reconhecimento imediato e tratamento adequado, com administração de adrenalina por via intramuscular. “A anafilaxia pode surgir no contexto de alergia alimentar, a medicamentos ou ao veneno de abelhas e vespas. O seu impacto não se limita ao risco clínico: envolve também ansiedade, restrições alimentares e limitações na vida social”.
Por outro lado, a asma não controlada continua a ser uma causa relevante de deslocações ao serviço de urgência, internamentos, absentismo escolar e laboral. Segundo Pedro Carreiro Martins, estas consequências podem ser reduzidas através de um diagnóstico correto, de um tratamento adequado e de uma boa adesão ao tratamento”.
Semana Mundial da Alergia
A Semana Mundial da Alergia constitui uma oportunidade para aumentar a literacia em saúde, combater mitos e promover o reconhecimento das doenças alérgicas como doenças crónicas frequentes, com impacto clínico, social e económico relevante.
Apesar da sua elevada prevalência, as doenças alérgicas continuam frequentemente subdiagnosticadas, subtratadas e desvalorizadas. Esta realidade traduz-se em pior qualidade de vida, absentismo escolar e laboral, maior recurso aos serviços de saúde e, em algumas situações, risco acrescido de complicações graves ou potencialmente fatais.
É também um momento para alertar para a necessidade de garantir acesso equitativo a cuidados especializados de Imunoalergologia, aos meios de diagnóstico e de tratamento adequados, incluindo imunoterapia específica e medicamentos biológicos quando indicados.
Consciencializar a população e os decisores políticos é essencial para que as doenças alérgicas sejam reconhecidas como uma prioridade de saúde pública. Investir no diagnóstico precoce, na prevenção, na educação dos doentes e no tratamento adequado é investir na qualidade de vida das pessoas e na sustentabilidade dos sistemas de saúde.
