23 de maio | Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade

"É urgente humanizar a obesidade e garantir acesso à inovação", defendem especialistas

Iniciativa "Stories Can't Wait" dá voz à obesidade e estará patente no MAAT Central de 21 de maio até 4 de junho.

“A obesidade é a doença mais visível e, ao mesmo tempo, a mais ignorada em Portugal”. O alerta foi deixado por Carlos Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO), num evento que antecipou o Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade (23 de maio), no MAAT Central, em Lisboa. 

Sob o tema “Obesidade: Uma Doença Invisível?”, representantes da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), da Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas (SPCO) e da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), uniram-se no dia 20 de maio para exigir uma mudança de paradigma na abordagem a esta doença. Esta iniciativa vem reforçar o apelo do “Manifesto pela Ação Urgente na Obesidade”, lançado em março por estas mesmas entidades e pela Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, que exige uma resposta contínua, integrada e humanista para a doença. 

Para Carlos Oliveira, presidente da ADEXO, "por trás dos números, há uma batalha pessoal e silenciosa contra a biologia e contra um estigma social que insiste em culpar o doente, quando a ciência já provou que a obesidade não é uma escolha”. 

"A nossa exigência é clara: precisamos de uma estratégia nacional para a obesidade que seja mais do que uma intenção no papel", destacou o presidente da ADEXO, deixando um repto: "Isto significa comparticipar os medicamentos de forma efetiva e reduzir drasticamente as listas de espera para cirurgia. Tratar a obesidade não é uma despesa, é um investimento com um retorno de seis euros para cada euro investido. É tempo de o Governo passar das promessas à ação."  

“Esta invisibilidade política, que ignora os custos humanos e económicos da inação, é uma discriminação que já não podemos aceitar”, reivindicou Carlos Oliveira, lembrando que, apesar de 22 anos de campanhas de informação que alteraram significativamente a visão sobre a doença em Portugal, mantém-se o estigma da culpa, ouvindo-se recorrentemente que a culpa é do doente. 

O alerta foi reforçado por um painel de especialistas que detalhou a complexidade da doença. José Silva Nunes, presidente da SPEO, sublinhou que "a obesidade tem de ser tratada com a mesma seriedade e urgência com que são tratadas outras doenças crónicas como a diabetes e a hipertensão. A ciência é clara quanto à sua base biológica e aos seus riscos devastadores. A inação ou o tratamento inadequado não são opções. É imperativo que o percurso do doente seja apoiado por ciência, equipas dedicadas e acesso a terapêuticas inovadoras." 

Essa base científica, que contraria o estigma da "falta de vontade", foi detalhada por Nuno Vicente, secretário-adjunto da SPEDM. "É fundamental desmistificar a ideia de 'falta de força de vontade'. Do ponto de vista endócrino, o corpo de uma pessoa com obesidade está programado para resistir à perda de peso através de complexos mecanismos hormonais. Não estamos a falar de uma falha de carácter, mas de uma batalha biológica real que exige uma intervenção médica e científica." 

A urgência de uma intervenção adequada ao longo de todo o percurso do doente torna-se evidente. Leonor Manaças, vice-presidente da SPCO, abordou a importância de agir atempadamente, mesmo antes de serem necessárias soluções como a cirurgia. "A cirurgia metabólica é uma ferramenta altamente eficaz para a obesidade grave, mas muitos doentes chegam até nós após anos de sofrimento e com comorbilidades já instaladas. É crucial que se intervenha mais cedo, com acesso a todas as opções terapêuticas validadas, para que a cirurgia seja parte de um percurso de tratamento integrado e não apenas o último recurso." 

As consequências desta batalha biológica manifestam-se em todo o organismo, apontou Catarina Lucas, coordenadora adjunta do Núcleo de Estudos da Obesidade da SPMI, que partilhou o testemunho de quem convive diariamente de perto com estes doentes: "Na Medicina Interna, vemos diariamente o 'efeito dominó' da obesidade. Esta doença é a porta de entrada para mais de 200 outras patologias, desde a diabetes a doenças cardiovasculares e oncológicas. Tratar a obesidade de forma eficaz não é apenas tratar uma doença, é a forma mais poderosa de prevenir centenas de outras, aliviando a pressão sobre os doentes e o próprio Serviço Nacional de Saúde." 

Para dar um rosto a esta realidade, na sequência do evento, foi inaugurada a iniciativa "Stories Can't Wait", promovida pela Lilly Portugal. "As estatísticas não contam a história toda. Não descrevem a luta diária contra um corpo que resiste à perda de peso, nem o fardo do estigma. Com esta iniciativa, queremos dar um rosto a esta realidade e reforçar que a obesidade é uma doença, não uma escolha. A ciência permite-nos compreender a obesidade como uma condição médica complexa, e o nosso compromisso é partilhar esse conhecimento, substituindo o julgamento pela empatia, para que estas histórias possam ter um novo capítulo, baseado no apoio e no respeito", explicou Maria Rita Dionísio, diretora médica da Lilly Portugal.

 

A iniciativa "Stories Can't Wait" estará aberta ao público no MAAT Central entre 21 de maio e 4 de junho.

O Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade é assinalado no penúltimo sábado do mês de maio, tendo sido criado em 2004 com o intuito de sensibilizar a população para o problema da obesidade, as suas implicações na saúde e as doenças associadas. 

Fonte: 
Burson
Nota: 
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