Pernas até podem estar escondidas, mas a Doença Venosa Crónica continua a progredir

Quando se fala no frio, existe a ideia de que este pode melhorar os sintomas da Doença Venosa Crónica. É verdade que as temperaturas baixas têm um efeito visível nas nossas pernas, e é aqui que mora a confusão. De acordo com o especialista, quando o corpo é exposto ao frio, ativa automaticamente o sistema nervoso autónomo, que funciona sem que tenhamos qualquer controlo sobre ele, e que diminui a circulação na periferia. “É mais evidente, como seria de esperar, na pele e nas pernas, nas veias mais superficiais.”
O que significa que as veias parecem menos inchadas. “Não esquecer que as veias, principalmente das pernas, funcionam um bocadinho como o nosso reservatório de sangue. E, se estamos expostos ao frio e há menos circulação para o reservatório, à partida as veias que tiverem tendência a estar mais inchadas por terem mais sangue vão ter menos sangue no seu interior e há uma espécie de aparência de menos inchaço.”
Mas, confirma o especialista, “a insuficiência, a incompetência das válvulas e das veias é mantida. Obviamente que há uma expressão menor por haver menos sangue nas pernas, mas a doença é exatamente a mesma e não há qualquer alteração. A manifestação sintomática, isto sim, é que pode mudar”.
A este facto junta-se outro que pode “dar uma perceção de melhoria”, levando a uma desvalorização dos sintomas pelos doentes que apresentam uma doença menos grave: no inverno, não costumamos andar com as pernas tão expostas. “Não usamos calções, não vamos à praia, não usamos saias, os vestidos são mais longos, tendemos a usar mais camadas de roupa e, portanto, a parte dita visível da doença acaba por estar ‘longe dos olhos, longe do coração’.” Perde-se, acrescenta, “o aporte que terceiros nos darão em relação à nossa doença. Tudo desaparece no inverno porque simplesmente não temos a exposição das pernas”.
Medidas para todo o ano
A mensagem é clara: independentemente da estação do ano, as recomendações médicas não mudam e não devem ser postas em pausa só porque o termómetro desceu. É o caso, por exemplo, da prática de atividade física, uma das recomendações que, segundo Luís Loureiro, é mais do que consensual. “Nós sabemos que a barriga das pernas é uma espécie de um “segundo coração”, que faz com que o sangue saia das pernas em direção ao tronco. Cada vez que caminhamos, cada vez que fazemos exercícios que utilizem a barriga das pernas, e o mais comum é, efetivamente, a caminhada, estamos a diminuir a quantidade de sangue que temos nas pernas”. Resultado? “Diminui a sintomatologia da doença.”
Mas no inverno, há uma redução da atividade física. “E se eu fico mais quieto, se eu estou mais pelo sofá, se faço menos exercício porque não me preocupo tanto em controlar o meu peso, tudo isto vai provocar agravamento da doença”, confirma o especialista.
Outro dos aspetos que tende a ser negligenciado no inverno é a hidratação da pele. “Uma das maiores complicações e com maior prevalência nos doentes com Doença Venosa em estadios mais iniciais é o prurido (comichão), que é altamente prevalente e, como tal, leva, muitas vezes, à desidratação da pele, ou seja, a pessoa coça, esfrega e aquelas zonas de pele que já de si estão fragilizadas acabam por ficar extremamente suscetíveis de fazer até algumas lesões. Daí que a hidratação seja importantíssima no inverno.”
No entanto, de acordo com o especialista, “principalmente as senhoras, enquanto no verão se preocupam em andar com as pernas mais cuidadas e colocam creme; no inverno, por menos exposição dessa parte do corpo, muitas vezes saltam alguns passos, como a hidratação das pernas após o banho. E isso é extremamente importante, porque o banho provoca sempre alguma perda da camada protetora seborreica da pele”.
Em relação às meias de compressão, Luís Loureiro não tem dúvidas. “A compressão elástica faz tão bem no inverno como no verão, é a base do tratamento da Doença Venosa Crónica.” E, claro, não esquecer os fármacos venoativos, “que não são para ser usados só quando olhamos para as pernas e quando vemos o edema, mas sim para usar durante todo o ano”.
É importante, por isso, não esquecer que “a doença é evolutiva. Infelizmente, estamos a falar de uma doença crónica, pelo que ninguém vai ficar magicamente curado e, se nada for feito, se não for tomada qualquer tipo de precaução, vai continuar a evoluir e, além disso, evoluem também os seus sintomas”. Pelo “que o aparecimento dos sinais de alarme merece uma avaliação especializada ou mais precoce para não termos as complicações da doença”.
