A Utilização de Plataformas Digitais e a Saúde Mental da Mulher em Período Perinatal

As estimativas indicam que entre 15% e 25% das mulheres em período perinatal têm um problema de saúde mental, sendo que as perturbações depressivas e de ansiedade são as mais comuns (Ordem dos Enfermeiros, 2023a). Por esse motivo, os cuidados na área da Saúde Mental tornam-se importantes para a promoção da saúde mental destas mulheres.
Como podemos verificar em 2020, a utilização de tecnologias digitais foi impulsionada pela pandemia de COVID-19 (De’ et al., 2020). As plataformas digitais transformaram-se ferramentas de comunicação predominantes, considerando-se como um benefício, durante o período perinatal, por permitir acesso a redes de apoio, pela oportunidade de partilha de experiências e pelo acesso rápido a informações sobre a maternidade. No entanto, também têm sido associadas a efeitos negativos do bem-estar psicológico, da imagem corporal e da comparação social (Kılıç et al., 2024; Hernández et al., 2025).
De acordo com a evidência científica, as mulheres em período perinatal utilizam várias plataformas digitais. As mais utilizadas é o Facebook e o Instagram, mas as comunidades online/blogs também são comuns nesta fase de vida.
A utilização destas plataformas digitais têm resultados bidirecionais, visto que os efeitos podem ser tanto benéficos como prejudiciais. Os benefícios estão associados à obtenção de apoio social (Jiang & Zhu, 2022), em comunidades online, e às comparações sociais descendentes nas redes sociais (Wenhold et al., 2025), enquanto os efeitos prejudiciais surgem sobretudo quando existe comparação social ascendente (Wang et al., 2023; Wenhold et al., 2025), utilização excessiva ou dependência das redes sociais (Muskens et al., 2023; Huddleston et al., 2025).
Os benefícios identificados contribuem para maior satisfação da imagem corporal (Wenhold et al., 2025), diminuição de sintomas depressivos (Guevara et al., 2023) e diminuição de depressão pré e pós-natal (Jiang & Zhu, 2022). Alguns estudos sugerem ainda que a melhoria da saúde mental materna pode associar-se a resultados neonatais mais favoráveis (Jiang & Zhu, 2022; Samra & Dryer, 2024).
Por outro lado, os malefícios encontram-se relacionados ao aumento da ansiedade (Wenhold et al., 2025; Huddleston et al., 2025), do stress (Huddleston et al., 2025), dos sintomas depressivos (Muskens et al., 2023), da depressão pré-natal (Wang et al., 2023), das perceções negativas da imagem corporal (Dığrak et al., 2025) e da menor satisfação corporal (Wenhold et al., 2025).
Apesar da evidência científica não descrever os motivos de utilização das redes sociais, é notório que os efeitos dependem dos padrões de utilização adotados pelas mulheres em período perinatal, dos conteúdos consumidos e das interações estabelecidas nos ambientes digitais.
Os resultados permitem concluir que existe uma relação significativa entre a utilização das plataformas digitais e a saúde mental da mulher em período perinatal, uma vez que estas tecnologias podem constituir simultaneamente um recurso de apoio e um fator de risco para a saúde mental das mulheres neste período.
No nosso quotidiano, o contexto digital é cada vez mais influenciado por conteúdos editados ou gerados por Inteligência Artificial (IA) que reforça padrões idealizados, podendo transmitir representações pouco realistas da gravidez e da maternidade, favorecendo comparações sociais ascendentes e expetativas difíceis de alcançar.
Por estes motivos, é essencial a promoção da literacia digital e da saúde mental, bem como da capacitação das mulheres para uma utilização crítica, consciente e equilibrada das plataformas digitais durante a gravidez e o pós-parto.
Além disso, é também importante a realização de mais investigação nesta área em Portugal, devido à sua escassez de investigação centrada nas mulheres portuguesas em período perinatal.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Hernández, E. R., Sánchez-Aguadero, N., Palmero, M. J., & Recio-Rodríguez, J. I. (2025). Influence of social networks on self-image and lifestyle in postpartum women: a systematic scoping review. BMC Pregnancy and Childbirth, 25(753). https://doi.org/10.1186/s12884-025-07847-y
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Samra, A., & Dryer, R. (2024). Problematic social media use and psychological distress in pregnancy: The mediating role of social comparisons and body dissatisfaction. Journal of Affective Disorders, 361, 702-711. https://doi.org/10.1016/j.jad.2024.06.057
Wenhold, H., Bue, A. C., & Kirkpatrick, C. E. (2025). #Bopo or Bounce Back?: Investigating the Impact of Social Media Videos on Postpartum Mothers. Health Communication, 40(12), 2674–2685. https://doi.org/10.1080/10410236.2025.2475856
Autores: Enfermeiras Carla Sofia Marques e Marina Pereira em colaboração com a Estudante Daniela Silva, do 4.º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem, da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC), que se encontra a realizar Ensino Clínico na Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) de Pombal.
