Saúde feminina

Já ouviu falar em Síndrome de Congestão Pélvica?

Atualizado: 
28/05/2021 - 12:08
Trata-se de uma condição bastante comum, no entanto, são muitas as mulheres que, apesar dos sintomas, não a conhece. No dia em que se assinala o Dia Mundial da Saúde da Mulher, pedimos ao especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular, Rui Machado, que nos explicasse em que consiste e que a sinais devemos estar atentas.

A Síndrome de Congestão Pélvica (SCP) é uma causa comum de dor pélvica crónica. Segundo o especialista, Chefe de Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular do Centro Hospitalar Universitário do Porto, esta trata-se de uma patologia “multifatorial e mal definida” na qual podem estar envolvidas múltiplas condições, de forma isolada ou em conjunto,  como é o caso de “disfunção valvular das veias pélvicas de etiologia desconhecida, nomeadamente das veias ováricas e/ou as veias ilíacas internas ou dos seus ramos, que condicionam uma hipertensão venosa e consequente processo inflamatório nos órgãos pélvicos” ou “uma obstrução da drenagem venosa pélvica, conhecida como síndrome de Nutt-Cracker, em que a veia renal esquerda é comprimida entre a aorta e a coluna ou entre a artéria mesentérica superior e a aorta, e síndrome de May-Thurner, em que a veia ilíaca comum esquerda é comprimida pela artéria ilíaca comum direita”. Rui Machado acrescenta ainda que também as alterações hormonais, que podem condicionar a fragilidade da parede venosa, resultando nesta condição.

Podendo desenvolver-se em mulheres com idades compreendidas entre os 20 e os 50 anos, ou seja, antes da menopausa, apresenta-se como reconhecido fator de risco a multiparidade (gravidez múltipla). Isto porque, explica o especialista, ocorre um “aumento brutal da capacitância venosa das veias pélvica na gravidez, provocada pelo aumento do volume sanguíneo”. Por outro lado, também o “aumento hormonal da progesterona e estrogénios e a dilatação venosa condicionada pelo efeito compressivo do útero gravídico nas veias pélvicas” condicionam o desenvolvimento desta síndrome.

A dor – pélvica, sacroilíaca, perineal ou na raiz da coxa – que já se arrasta há mais de seis meses, juntamente com a dispareunia, ou seja, dor durante as relações sexuais, e desconforto vaginal após as mesmas são os principais sintomas a que todas devemos estar atentas.

No entanto, e uma vez que estes sintomas são comuns a outras patologias, Rui Machado chama a atenção para a necessidade de se excluírem outras doenças como “endometriose, adenomiose, miomatose uterina, doença urológica, doença oncológica retal, aderências intraperitoneais e a doença neurológica relacionada com a coluna lombo-sagrada”.

“O mais importante é o conhecimento da existência da SCP por parte da população em geral e pela comunidade médica no seu conjunto e, em particular, pelos Médicos Assistentes e Ginecologistas. Não se diagnostica aquilo que se desconhece”, sublinha o Chefe de Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular do Centro Hospitalar Universitário do Porto.

Assim, na presença destes sintomas e após a exclusão de outros diagnósticos, explica o médico, deve “realizar-se uma ecografia transvaginal pélvica, onde se vão observar varizes pélvicas, veias dilatadas e com fluxo sanguíneo invertido e lentificado. Posteriormente, um exame por tomografia computorizada ou ressonância magnética nuclear vai confirmar os achados e mostrar eventuais síndromes compressivos venosos (SMT ou SNC)”.

Confirmada a presença desta Síndrome, o tratamento médico inicia-se com “analgésicos, venotropicos e derivados da progesterona para suprimir a função ovárica”. “Contudo, quando este tratamento falha tem que se recorrer a tratamentos invasivos”, adianta o especialista em Cirurgia Vascular.

De acordo com Rui Machado, o tratamento de eleição, quando a terapêutica farmacológica não resulta, “consiste na realização de uma flebografia pélvica das veias ováricas e ilíacas internas para confirmação do diagnóstico e, simultaneamente, em proceder à embolização destas veias e das varizes pélvicas com coils e/ou agentes esclerosantes”. Embora já se tenham realizado outras técnicas, esta é menos agressiva e mais eficaz.

“Este tratamento, conhecido como cirurgia ou tratamento endovascular, é realizado sob anestesia local com ou sem sedação em regime ambulatório ou com internamento de 24 horas através de cateteres, sendo os riscos mínimos e tendo uma taxa de sucesso que varia entre os 80 e os 90%”, esclarece.

Não obstante, os sintomas podem ressurgir. Por isso, Rui Machado aconselha o seguimento por médico assistente ou ginecologista e, caso volte a apresentar algumas manifestações, deve ser referenciada “ao Cirurgião Vascular para que seja realizada uma nova observação e, se necessário, feito um novo tratamento complementar”.

Com um grande impacto na qualidade de vida das mulheres – sabe-se que “em fases tardias de diagnóstico da doença, é frequente as doentes irem a consultas de apoio psicológico ou psiquiátrico” -, o especialista reforça a mensagem: na presença de sintomas, fale com o seu médico!

As mulheres “devem falar abertamente com o seu Médico Assistente ou Ginecologista sobre a possibilidade de terem uma Síndrome de Congestão Pélvica perante: uma dor pélvica com duração superior a seis meses não cíclica de agravamento vespertino ou com o ortostatismo; quando se queixam de dor durante a relação sexual ou de um desconforto vaginal após uma relação sexual”.

“No caso de não ser encontrada uma causa justificativa, devem ser referenciadas para um Cirurgião Vascular para observação, confirmação do diagnóstico e tratamento. Não deixem, contudo, atrasar o diagnóstico, pois este atraso, além dos problemas físicos e emocionais que tem associados, está relacionado com piores resultados terapêuticos”, sublinha.

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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