Alternativa à biopsia

Elastografia baseada em ultrassons no estadiamento da doença hepática crónica

Atualizado: 
05/11/2019 - 09:52
A doença hepática crónica integra várias patologias comuns em Portugal, resultando na fibrose progressiva do fígado e sendo uma importante causa de morbilidade e mortalidade. Na sua abordagem clínica é fundamental determinar com precisão a fase da doença (estádio de fibrose). Nos últimos anos, surgiram várias técnicas não invasivas de elastografia, que, ao determinarem a elasticidade hepática, permitem inferir qual a fase da doença. Muitas destas técnicas poderão ser realizadas durante a ecografia abdominal, tendo, pela sua simplicidade, comodidade e relevância clínica, assumido um papel central em Hepatologia.

A doença hepática crónica é atualmente a sétima causa de morte na Europa e é responsável por cerca de 2500 mortes por ano em Portugal. Integra diferentes patologias, como a doença hepática alcoólica, as hepatites B e C, e o fígado gordo não alcoólico. Destaca-se o aumento significativo da prevalência do fígado gordo não alcoólico nos últimos anos, muitas vezes associado ao excesso de peso e à obesidade, afectando atualmente cerca de 25% da população. A fibrose progressiva do fígado é o denominador comum em diferentes tipos de lesão hepática crónica. Os doentes com fibrose avançada e cirrose apresentam um risco significativo de desenvolver complicações, como o carcinoma hepatocelular e descompensação da doença. Assim, a determinação da fase da doença (estadio de fibrose) é fundamental para a decisão terapêutica e seguimento destes doentes.

Na última década, temos assistido à expansão de diferentes métodos de determinar o estádio de fibrose hepática de forma não invasiva, em alternativa à biopsia hepática percutânea, tradicionalmente considerada o método de referência no estadiamento da doença hepática crónica. A biopsia hepática é um procedimento invasivo, não isento de complicações graves e sujeito a erros de amostragem. Uma vez que a fibrose do fígado resulta na redução da sua elasticidade (aumento de rigidez), foram desenvolvidos nos últimos 15 anos diferentes métodos de quantificar a elasticidade hepática (elastografia), tendo sido demonstrada a sua correlação com o grau de fibrose em diferentes etiologias de doença hepática crónica.

A elastografia integra várias modalidades baseadas nas propriedades dos ultrassons, sendo a mais estudada e difundida na prática clínica a elastografia transitória (também conhecida por Fibroscan). Outras modalidades de elastografia, como a elastografia em tempo real (RTE) e a elastografia point shear-wave (SWE) estão integradas num processador de ecografia convencional e podem ser realizadas facilmente durante a ecografia abdominal, complementando a avaliação imagiológica do fígado. A segurança, o conforto e a elevada acuidade diagnóstica das diferentes modalidades de elastografia baseada em ultrassons têm conduzido à sua rápida expansão na prática clínica, assumindo atualmente um papel central na avaliação da doença hepática crónica. A versatilidade e disponibilidade imediata das técnicas acopladas à ecografia convencional (RTE e SWE) constituem uma mais-valia e um estímulo para a sua aprendizagem.

O Grupo Português de Ultrassons em Gastrenterologia (GRUPUGE), secção especializada da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, organizou este mês, em colaboração com o Centro Clínico da Fundação Champalimaud em Lisboa, um curso de elastografia baseada em ultrassons, com um carácter essencialmente prático, centrado no treino hands-on. O GRUPUGE sublinha o relevante papel da ultrassonografia na Gastrenterologia atual e valoriza a importante evolução tecnológica na área da elastografia, considerando relevante desenvolver cursos de formação teórico-prática, com componente hands-on, a integrar os vários equipamentos e modalidades de elastografia disponíveis.

Autores:
Dra. Susana Marques
Secretária-Geral do Grupo Português de Ultrassons em Gastrenterologia

Dr. Miguel Bispo
Presidente do Grupo Português de Ultrassons em Gastrenterologia
Gastrenterologistas da Fundação Champalimaud, Lisboa

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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