Desmistificar a Endometriose

“É preciso desconstruir esse mito com que as mulheres vivem de que é normal sofrer na menstruação”

Atualizado: 
26/03/2021 - 12:53
Com uma média de diagnóstico que pode ir dos oito aos 12 anos após as primeiras queixas, a Endometriose continua a ser uma patologia “negligenciada”. A falta de conhecimento sobre esta doença ainda leva muitas mulheres a desvalorizarem o principal sintoma: a dor. Mas “ter dor intensa não é normal”, alerta Fátima Faustino, coordenadora da Unidade de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Lusíadas Lisboa.

Embora a Endometriose seja uma doença “muito complexa”, uma vez que as suas manifestações clínicas podem ser muito distintas – “há situações em que temos endometrioses ligeiras com sintomatologia exuberantíssima, sendo de difícil diagnóstico; e há formas de endometriose grave e profunda, às vezes com pouca sintomatologia, que vão evoluindo de forma silenciosa”, explica a especialista em ginecologia e obstetrícia, Fátima Faustino -, é essencial estarmos despertas para aquela que é a principal queixa associada à patologia: a dor. “As queixas mais frequentes são dores durante a menstruação que impedem a mulher de fazer a sua vida normal, dor pélvica crónica, dor nas relações sexuais e dor cíclica quando menstrua, quer a nível intestinal, quer a nível da bexiga. Há mulheres que passam uma vida inteira a tratar infeções urinárias ou síndrome de colon irritável que não o são e muitas vezes, já passaram por mais de cinco ou seis médicos, sem que nenhum tenha valorizado a sua dor”, sublinha a especialista, acrescentando que é essencial “despertar” para um problema de saúde que tem enorme um impacto não só na qualidade de vida como social e económico. “Se contabilizarmos o absentismo laboral destas mulheres, as várias idas às urgências, o impacto na qualidade de vida e na fertilidade, não é difícil perceber que esta doença tem repercussões físicas, psíquicas e socioeconómicas graves se não for devidamente tratada”, esclarece sublinhando que esta patologia é muito mais frequente do que se pode imaginar. “É uma doença do sexo feminino que afeta cerca de uma em cada 10 mulheres em idade reprodutiva. Portanto, cerca de 10% desta população pode vir a ter endometriose (o que corresponde a cerca de 228 000 mulheres em Portugal). Nas mulheres com história de dor crónica e/ou infertilidade esse valor pode chegar aos 30% (algumas estatísticas apontam para os 50%)”, afirma.

Não se conhece a causa específica da endometriose

A endometriose é uma doença crónica, benigna que se carateriza pela presença de tecido endometrial fora do seu local habitual, ou seja, fora da cavidade uterina. “Como tal, todos os meses, quando ocorre a menstruação, não só sangra dentro do útero, como também sangram esses focos, o que vai desencadear um processo inflamatório crónico que, por sua vez, vai condicionar fibrose e aderências”, explica Fátima Faustino acrescentando que o tecido endometrial pode instalar-se nos ovários, no intestino, na bexiga ou noutros órgãos.

Segundo a especialista, existem diferentes tipos de endometriose, cuja classificação depende não só da sua localização bem como da gravidade que apresenta.

“Há uma forma de endometriose superficial que é a chamada endometriose peritoneal. Carateriza-se por pequenos focos que se veem na laparoscopia e dificilmente são detetados por exames complementares de diagnóstico, o que é um dos grandes problemas nesta doença”, esclarece adiantando que, por outro lado, há uma forma de endometriose profunda, “em que os focos infiltram os tecidos por debaixo do peritoneu, dando origem aos referidos tumores e correspondendo à forma mais grave da doença”.

Embora as suas causas sejam desconhecidas, sabe-se que existem múltiplos fatores que podem estar implicados no seu desenvolvimento. De acordo com a coordenadora da Unidade de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Lusíadas Lisboa, admite-se, por exemplo, que “uma mulher que tenha uma mãe ou uma irmã com endometriose tem seis vezes maior probabilidade de vir a ter a doença, devido a um fator genético identificado”.

No entanto, chama a atenção que este fator genético pode ser potenciados outros tantos fatores como é o caso dos fatores hormonais, imunológicos e ambientais. “A vida atual das mulheres é marcada por stress, poluição, dioxinas, má alimentação e tudo isso conduz a um enfraquecimento do sistema imunitário, que pode condicionar o aparecimento da doença. No plano hormonal, sabemos que nas mulheres com menarca mais precoce e menopausa mais tardia, isto é, que estão sob a influência dos estrogénios durante um longo intervalo temporal, têm maior propensão para a doença, sobretudo no caso das mulheres com fluxos menstruais muito abundantes. Daí a pílula contracetiva ter um efeito benéfico neste contexto”, esclarece.

Quanto ao seu diagnóstico, embora se tenha a ideia de que este não é fácil, a especialista contradiz afirmando que “se estivermos atentos e perdermos um pouco de tempo a ouvir a doente”, não é difícil perceber que algo está errado. “E não é difícil conseguir detetar os nódulos se observarmos a doente a pensar na endometriose. Sobretudo o nódulo do septo retovaginal deteta-se com um simples exame ginecológico”, acrescenta Fátima Faustino.

No entanto, “se a clínica não nos dá elementos e pressupomos que estamos perante endometriose o primeiro exame a pedir é uma ecografia pélvica, de preferência por via transvaginal. Mas uma ecografia normal não exclui o diagnóstico de endometriose. A seguir, temos a ressonância magnética que nos permite o mapeamento das lesões e detetar o envolvimento dos órgãos vizinhos”, explica.

Não há cura definitiva para a doença

De acordo com Fátima Faustino, as terapêuticas médicas que existem para controlar a sintomatologia da doença são as que inibem a menstruação. “São as pílulas contracetivas tomadas de forma contínua, os progestativos tomados de forma contínua, como o dienogeste, um fármaco especificamente estudado para a endometriose”, revela a especialista adiantando que existem medicamentos mais agressivos e que devem ser utilizados durante um curto espaço de tempo devido aos efeitos secundários: são eles os agonistas da GnRH.

“Com estas terapêuticas hormonais conseguimos tirar a dor a estas doentes e elas permanecem assintomáticas, mas a doença pode continuar a evoluir de forma silenciosa. Porém, sendo uma terapêutica hormonal, não está indicada quando uma mulher quer engravidar e é precisamente nesta altura que a cirurgia é, muitas vezes, necessária”, esclarece.

Esta cirurgia, realizada por laparoscopia, tem como objetivo “conservar os órgãos reprodutores, restaurar a anatomia e excisar as lesões de endometriose”.

“Habitualmente são cirurgias muito complexas e não desprovidas de riscos”, por isso a especialista afirma que “é fundamental que estas mulheres percebam muito bem a complexidade desta doença e que a decisão de operar seja tomada em conjunto pelo médico e doente, tendo em conta os riscos e benefícios do procedimento”.

Por outro lado, é importante referir que “atendendo à própria definição da endometriose como doença crónica, sabemos que, mesmo após a cirurgia, esta doença pode recidivar”. Daí que seja aconselhado a estas mulheres engravidar o mais rapidamente possível. “E, se necessário temos que recorrer à Procriação Medicamente Assistida, outra área fundamental no tratamento da doença, quando o objetivo é a conceção”, adianta a coordenadora da Unidade de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Lusíadas Lisboa.

“Nas mulheres que já não desejam engravidar e/ou em situações em que falharam todas as outras alternativas terapêuticas poderá ser opção uma cirurgia mais radical, implicando retirar o útero, ovários e trompas, tendo como consequência uma menopausa de causa cirúrgica”, afirma.

O diagnóstico não implica a sentença “eu não vou conseguir engravidar”

Para Fátima Faustino há várias mensagens chave que as mulheres devem reter, no âmbito deste tema.

A primeira diz respeito a dois mitos que ainda persistem e que devem ser desconstruídos. Em primeiro lugar é preciso saber que “ter dor intensa não é normal! Pode ser normal ter algum desconforto/dor que cede com um analgésico ou anti-inflamatório… Não é normal ter, todos os meses, uma dor intensa e muitas vezes incapacitante, progressiva, que não cede às terapêuticas que referi e que vai piorando”.

Por outro lado, a especialista refere que “a pílula contracetiva não interfere com a fertilidade feminina, mesmo que tomada de forma contínua”.

Em terceiro lugar, importa reforçar que “nem todas as mulheres têm de ser operadas, sobretudo as adolescentes e as mulheres jovens podem beneficiar de terapêutica médica durante muitos anos, mas cada caso deverá ser analisado individualmente de acordo com a gravidade da doença”.

E por fim, “só cerca de 30% das mulheres com endometriose virão a ter problemas de infertilidade, portanto o diagnóstico não implica a sentença “eu não vou conseguir engravidar”.

 

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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