Doença Inflamatória intestinal: já sabemos que não é do stress — mas ignorá-lo é um erro

O intestino e o cérebro estão ligados. Não é uma metáfora. É um eixo biológico real — o eixo intestino-cérebro. Comunicam constantemente. Hormonas. Sistema nervoso. Sistema imunitário. Está tudo interligado. As mensagens seguem de baixo para cima e de cima para baixo.
Vemos isto na Doença Inflamatória intestinal mas não só. Nas doenças autoimunes, de forma geral, o stress tem um papel relevante. O lúpus, a psoríase, as tiroidites auto-imunes ou a aloécia areata contam-se entre os exemplos que podíamos enumerar noite dentro.
E porquê? - podiam perguntar. Porque o stress não é apenas uma sensação vaga — traz com ele uma resposta biológica real.
O stress tem má fama. Malfadado stress. Mas não nos enganemos — começa por ser muito útil. Sem ele, não reagíamos a tempo, não nos focávamos quando era preciso e não nos adaptávamos a nada.
Mas, o organismo adapta-se ao stress e, quando o stress se prolonga, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (mais conhecido como o eixo do stress), mantém-se activado de forma contínua. Cortisol, adrenalina e noradrenalina deixam de aparecer apenas em momentos pontuais e passam a circular como se fossem o novo normal. E isto tem um impacto directo no cérebro. Mas não só. Há também uma enorme desregulação do sistema imunitário.
E um sistema imunitário desregulado é, precisamente, o centro destas doenças que nos trazem aqui hoje. A inflamação aumenta e os sintomas agravam.
No caso da Doença Inflamatória Intestinal, isto é particularmente evidente. Quando o stress aumenta, o corpo responde. Os sintomas tornam-se mais frequentes, mais intensos, mais difíceis de controlar.
E isto vem com quê? Mais stress. A própria doença é um factor grande de stress. As crises são imprevisíveis, têm um enorme impacto na vida diária e há uma enorme necessidade constante de adaptação.
O ciclo fecha-se.
Dizer “é do stress” simplifica demais.
Mas tratar estas doença ignorando o stress mantém o ciclo.
A pergunta útil não é: “É físico ou emocional?”. É outra: “Como é que estes dois eixos se influenciam?”.
No Dia Mundial da Doença Inflamatória Intestinal, vale a pena ajustar o discurso: não é do stress. Mas o stress pode mudar o curso da doença.
E ignorar isto é perder uma parte essencial do tratamento.
