Opinião

Doença Inflamatória intestinal: já sabemos que não é do stress — mas ignorá-lo é um erro

Atualizado: 
14/05/2026 - 07:44
“Dra., as alturas em que tenho mais stress são sempre quando fico pior.” Esta não é uma frase incomum. A Doença Inflamatória Intestinal — como a doença de Crohn ou a colite ulcerosa — é uma doença orgânica. Há inflamação real. Há alterações estruturais. Há um impacto físico evidente. Não é causada por stress. Mas a minha prática clínica não me deixa mentir: o stress importa. E muito.

O intestino e o cérebro estão ligados. Não é uma metáfora. É um eixo biológico real — o eixo intestino-cérebro. Comunicam constantemente. Hormonas. Sistema nervoso. Sistema imunitário. Está tudo interligado. As mensagens seguem de baixo para cima e de cima para baixo.

Vemos isto na Doença Inflamatória intestinal mas não só. Nas doenças autoimunes, de forma geral, o stress tem um papel relevante. O lúpus, a psoríase, as tiroidites auto-imunes ou a aloécia areata contam-se entre os exemplos que podíamos enumerar noite dentro.

E porquê? - podiam perguntar. Porque o stress não é apenas uma sensação vaga — traz com ele uma resposta biológica real.

O stress tem má fama.  Malfadado stress. Mas não nos enganemos — começa por ser muito útil. Sem ele, não reagíamos a tempo, não nos focávamos quando era preciso e não nos adaptávamos a nada.

Mas, o organismo adapta-se ao stress e, quando o stress se prolonga, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (mais conhecido como o eixo do stress), mantém-se activado de forma contínua. Cortisol, adrenalina e noradrenalina deixam de aparecer apenas em momentos pontuais e passam a circular como se fossem o novo normal. E isto tem um impacto directo no cérebro. Mas não só. Há também uma enorme desregulação do sistema imunitário.

E um sistema imunitário desregulado é, precisamente, o centro destas doenças que nos trazem aqui hoje. A inflamação aumenta e os sintomas agravam.

No caso da Doença Inflamatória Intestinal, isto é particularmente evidente. Quando o stress aumenta, o corpo responde. Os sintomas tornam-se mais frequentes, mais intensos, mais difíceis de controlar.

E isto vem com quê? Mais stress. A própria doença é um factor grande de stress. As crises são imprevisíveis, têm um enorme impacto na vida diária e há uma enorme necessidade constante de adaptação.

O ciclo fecha-se.

Dizer “é do stress” simplifica demais.

Mas tratar estas doença ignorando o stress mantém o ciclo.

A pergunta útil não é: “É físico ou emocional?”. É outra: “Como é que estes dois eixos se influenciam?”.

No Dia Mundial da Doença Inflamatória Intestinal, vale a pena ajustar o discurso: não é do stress. Mas o stress pode mudar o curso da doença.

E ignorar isto é perder uma parte essencial do tratamento.

 

Autor: 
Maria Moreno - médica psiquiatra @mariamoreno.medicapsiquiatra
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.