Entrevista

Cuidar bem da microbiota intestinal é fundamental para manter a saúde do organismo

Atualizado: 
30/12/2021 - 10:58
Apresentando um papel determinante na manutenção da saúde do nosso organismo, a microbiota intestinal é considerada a derradeira barreira no que diz respeito às nossas defesas. Constituída por cerca de 100 mil milhões de bactérias, cada microbiota é única e merece toda a nossa atenção. Em entrevista ao Atlas da Saúde, Ana Célia Caetano, gastroenterologista e Presidente do Núcleo de Neurogastrenterologia e Motilidade Digestiva (NMD), explica como podemos mantê-la saudável.

Para além do papel de efeito barreira e de estimulação do sistema imunitário, vários estudos têm apontado outras funções para a microbiota intestinal, nomeadamente que terá um efeito protetivo contra doenças inflamatórias e metabólicas ou até problemas do foro neurológico e comportamental. Deste modo, começo por lhe perguntar, qual a importância da Microbiota intestinal para a saúde humana?

A microbiota intestinal é essencial para a saúde humana. O desequilíbrio desse sistema delicado que habita cada um de nós parece estar na base de diversas patologias - desde as doenças digestivas, a diversas patologias não digestivas muito comuns como a obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares, doenças do foro neurológico, etc. Existe mesmo a teoria do ser holobionte defendida por diversos cientistas - o holobionte é definido como a soma do organismo hospedeiro (o ser humano, no nosso caso) e toda a sua microbiota simbiótica. Este ser funciona como uma unidade biológica evolutiva e inseparável mais capaz de se adaptar ao meio e perpetuar a espécie. Isto significa que os microrganismos são tão importantes que podemos considerá-los como uma parte integrante de nós mesmos.

Afinal, que microrganismos compõem a microbiota intestinal? Destas, quais as espécies dominantes e as mais raras? Quais as que podem pôr em risco a nossa saúde e quais as mais benéficas?

Existem cerca de 10 triliões de microrganismos no corpo humano, dos quais 95% estão presentes no trato digestivo, desde o estômago até ao cólon. Incluem bactérias, fungos, vírus e parasitas. A maioria das estirpes do intestino são do grupo dos Firmicutes ou Bacteroidetes. Desequilíbrios nestas colónias podem causar disbiose. Espécies como Campylobacter jejuni, Salmonella enterica, Vibrio cholera, Escherichia coli e Bacteroides fragilis, que sendo raros (<0,1%da microbiota intestinal) podem ser causar infeção.

Neste sentido, o que pode causar o desequilíbrio da microbiota intestinal? Sendo os hábitos alimentares responsáveis pela multiplicação de bactérias nocivas, que alimentos devemos evitar? E quais devemos privilegiar?

A exposição alimentar do nosso trato digestivo a uma dieta ocidental, algumas patologias, o uso de fármacos como por exemplo a toma frequente e repetida de antibióticos pode provocar disbiose. Privilegiar o consumo de produtos naturais, sazonais e de proximidade são boas práticas. Beber bastante água também. E um aspeto fundamental é o uso racional e justificado de antibióticos.

Sabendo que a nossa microbiota intestinal evolui de acordo com a idade, e que algumas alterações fisiológicas podem contribuir para o empobrecimento da mesma, que cuidados devemos ter?

Evitar o uso de antibióticos desnecessário, evitar o excesso de açucares e conservantes artificiais presentes numa grande quantidade de produtos que ingerimos diariamente, mesmo os que nós consideramos menos nocivos.

Prebióticos, probióticos, simbióticos: em que consiste e para que servem?

Os prebióticos são os nutrientes que melhoraram a composição e a atividade da nossa microbiota. Os probióticos são os microrganismos vivos que quando administrados em adequada quantidade terão um efeito benéfico para a nossa microbiota intestinal. Os simbióticos são uma combinação desses probióticos e prebióticos. Servem para reequilibrar a nossa microbiota intestinal após algum evento condicionador de disbiose como por exemplo uma infeção com necessidade de toma de antibiótico. Os simbióticos (combinação de probióticos e prebióticos) parecem ser a opção mais eficaz embora as espécies ou estirpes mais eficazes não estejam identificadas.

De que forma o consumo de determinados medicamentos pode contribuir para o desequilíbrio da microbiota intestinal? Que cuidados devemos ter, por exemplo, com a toma de antibióticos?

Os antibióticos, falando genericamente, podem condicionar um desequilíbrio no rácio dos vários grupos de bactérias do nosso organismo, perdendo a diversidade e composição relativa de cada grupo de microrganismos.

E todos os antibióticos são iguais e têm este efeito? Ou há exceções, por exemplo, em relação aos antibióticos intestinais com pouca absorção sistémica?

Os antibióticos não têm todos o mesmo efeito na nossa microbiota intestinal. No caso dos antibióticos intestinais com pouca absorção sistémica como é o caso da rifaximina, estudos demonstram o seu benefício na reposição do equilíbrio da nossa microbiota intestinal, combatendo a disbiose e com mínimos efeitos sistémicos, isto é, sem dano para os outros órgãos e sistemas do corpo humano.

Na área da gastrenterologia, que doenças podem estar associadas ao desequilíbrio da microbiota intestinal?

A esteato-hepatite metabólica, a que chamamos vulgarmente o “fígado gordo inflamado”, as patologias do eixo cérebro-intestino denominadas habitualmente de doenças funcionais como por exemplo a dispepsia, a síndrome do intestino irritável.

No âmbito deste tema, que mensagens-chave gostaria de deixar?

Cuidem da vossa microbiota intestinal porque a nossa microbiota intestinal também cuida de nós.

 

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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