Crises e tratamento

As crianças e a Epilepsia

Atualizado: 
12/02/2021 - 11:40
A epilepsia é uma disfunção do sistema nervoso associada a interrupções repetidas e imprevisíveis da atividade elétrica cerebral, conhecidas por crises epiléticas. A maior parte dos tipos de epilepsia, também chamadas de síndromes epiléticas, têm início na infância.

Estima-se que numa percentagem elevada dos casos, não é possível identificar o que está na origem da epilepsia, no entanto, esta é uma condição que atinge as crianças com bastante frequência.

Baixo peso, asfixia durante o parto, defeitos congénitos ou malformações e algumas infeções virais podem estar na origem desta disfunção. Por outro lado, a epilepsia pode esta associada a certas mutações genéticas. Isto significa que existe uma multiplicidade de situações ou condições que podem estar associadas ao seu desenvolvimento, podendo ser identificados diferentes tipos de síndromes epiléticas.

Sabendo que o diagnóstico de epilepsia pode provocar um grande impacto emocional na criança e sua família, é importante referir que, quando a epilepsia é bem gerida, é possível levar uma vida “praticamente” normal. Para isso, é essencial compreender e aceitar a doença.

Compreender a epilepsia

O que é uma crise epilética?

Uma crise é resultado de uma disfunção temporária na atividade elétrica do cérebro. Quando ocorre, as mensagens cerebrais são temporariamente interrompidas ou trocadas. O número de crises pode variar menos de uma por ano ou várias por dia, podendo ocorrer em qualquer momento. Geralmente, duram apenas alguns segundos ou minutos, após as quais as células do cérebro retomam a sua atividade normal.

As crises epiléticas podem ser classificadas em dois tipos:

Crises parciais, que envolvem uma parte limitada do cérebro. Estas podem ser simples ou complexas, sendo que algumas podem progredir para crises generalizadas que envolvem a totalidade ou quase totalidade do cérebro.

  • Crises parciais simples – estas crises não provocam a perda de contacto com o meio circundante, ou seja, a consciência não é afetada. Uma vez que o cérebro controla a maioria das funções corporais, quando ocorre uma crise, esta afeta geralmente o órgão controlado por essa parte do cérebro.
  • Deste modo, as crises podem atingir os músculos causando espasmos em certas partes do corpo; os órgão sensoriais, como olhos (a pessoa pode ver luzes, animais ou outras pessoas), ouvidos (pode levar a pessoa a ouvir vozes, ruídos ou melodias), nariz (na maioria das vezes, pode levar as pessoas a sentir odores difíceis de descrever) ou nervos (causando sensação de ardor ou formigueiro em determinadas partes do corpo); o sistema digestivo, provocando náuseas; a memória ou as emoções ou coração provocando uma aceleração do ritmo cardíaco, por exemplo.
  • Crises parciais complexas – As pessoas afetadas por este tipo de crise perdem o contacto com o meu circundante, ou seja, perdem a consciência. Podem permanecer imóveis, com o olhar fixo sendo incapazes de reagir. No entanto, geralmente, mastigam e engolem ou mexem as mãos como se estivessem conscientes, mas não conseguem interagir com as outras pessoas. As crises parciais complexas podem igualmente progredir para uma crise generalizada.

As Crises generalizadas, envolvem a totalidade ou quase totalidade do cérebro podendo ser classificadas como:

  • Crises tónico-Clónicas – capazes de provocar uma perda de consciência abrupta, ficando todo o corpo rijo numa primeira fase – a chamada fase tónica -, seguido de espasmos nos braços e pernas (a fase clónica). A pessoa pode morde a língua, urinar ou magoar-se na queda devido aos espasmos. Assim que a crise termina a pessoa volta gradualmente ao estado normal.
  • Crises de Ausência – estas crises são muito curtas, apresentando uma duração de apenas alguns segundos, mas podem ocorrer diversas vezes no mesmo dia. Quando a pessoa sofre este tipo de crise pode ficar imóvel e alheada, com o olhar fixo, mas recuperam imediatamente. Por vezes este tipo de crise pode passar despercebida devido à sua curta duração.
  • Este tipo de crise começa geralmente na infância ou na adolescência e pode provocar a perda de atenção e problemas de aprendizagem.
  • Crises mioclónicas – provocam espasmos no corpo ou membros que pode fazer com que a pessoa deixe cair objetos.
  • Crises atónicas – provocam uma perda súbita de força muscular e de consciência, fazendo com que a pessoa caia. A recuperação é imediata, mas a gravidade deriva do risco associada à própria queda.

Como se trata a epilepsia?

O objetivo do tratamento da epilepsia nas crianças e adolescentes é a ausência de crises sem os sintomas indesejados, designados de efeitos secundários, ou efeitos a longo prazo, de modo a restaurar ao máximo a qualidade de vida.

A maioria das pessoas com epilepsia são medicadas com antiepiléticos destinados a restabelecer o equilíbrio elétrico no cérebro. Atualmente estão disponíveis diversos medicamentos que são utilizados para controlar ou, no caso de alguns doentes, parar as crises.

A escolha de tratamento com um medicamento antiepilético não é uma decisão aleatória. Este deve ser baseado no tipo específico de crise, na idade da criança e a probabilidade de sofrer efeitos secundários importantes.

Tratar a epilepsia não é fácil. Apesar de diversas opções de tratamento, algumas crianças não conseguem atingir o objetivo de ter uma vida sem crises. No entanto, assim que identificado o medicamento e dosagem indicada para cada caso, é possível parar as crises. No entanto, este processo é por vezes longo.

O neuropediatra ou neurologista é o único que pode determinar o tipo de tratamento e a dosagem correta para o seu filho. É importante tomar os medicamentos conforme a prescrição médica.

É importante ainda que saiba que os medicamento antiepiléticos não curam a epilepsia e que a sua eficácia depende da sua correta utilização. Estes devem ser tomados todos os dias, à mesma hora, uma vez que este deve manter-se a um nível constante no organismo. Dependendo do tipo de medicação, podem ser tomados uma, duas ou três vezes ao dia.

Normalmente, o tratamento inicia-se com doses mais baixas, havendo um aumento gradual da dosagem para que o organismo se adapte, limitando os seus efeitos secundários.

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Fonte: 
Liga Portuguesa Contra a Epilepsia
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
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