Autismo e PHDA: quando duas formas diferentes de funcionar coexistem na mesma pessoa

É precisamente essa coexistência que torna esta combinação tão desafiante. Enquanto o autismo tende a procurar previsibilidade, estrutura e estabilidade, a PHDA procura novidade, estimulação e variedade. Uma parte da pessoa deseja que tudo permaneça igual; outra aborrece-se rapidamente quando tudo permanece igual.
Este conflito interno pode ser fonte de enorme desgaste psicológico. A pessoa cria rotinas rigorosas, mas tem dificuldade em mantê-las. Organiza agendas detalhadas, mas esquece-se de as consultar. Planeia antecipadamente todas as tarefas, mas a procrastinação impede, frequentemente, que o plano seja executado.
Também as relações interpessoais podem tornar-se mais complexas. A impulsividade associada à PHDA pode levar a interrupções frequentes, mudanças abruptas de assunto ou dificuldade em regular a comunicação. Simultaneamente, o autismo pode dificultar a interpretação de sinais sociais subtis, aumentando o risco de mal-entendidos e de conflitos interpessoais.
As funções executivas representam outro desafio importante. Ambas as condições podem afetar a organização, a gestão do tempo, a flexibilidade cognitiva, a memória de trabalho e o controlo inibitório. O impacto conjunto pode traduzir-se em dificuldades significativas na vida profissional, académica e familiar.
As alterações sensoriais também podem tornar-se particularmente difíceis de gerir. A distração típica da PHDA pode coexistir com uma hipersensibilidade intensa a estímulos específicos, tornando determinados ambientes extremamente exigentes. Escritórios em open space, centros comerciais ou transportes públicos podem representar verdadeiros desafios de autorregulação.
Perante esta realidade, o objetivo da intervenção não deve ser tentar eliminar uma condição para favorecer a outra. Pelo contrário, importa compreender como ambas interagem e desenvolver estratégias que respeitem esse funcionamento neurodesenvolvimental.
Criar rotinas suficientemente estruturadas, mas flexíveis, constitui uma estratégia fundamental. A utilização de agendas visuais, listas curtas, lembretes digitais, temporizadores e divisão das tarefas em pequenos objetivos facilita a gestão das funções executivas sem aumentar excessivamente a carga cognitiva.
A gestão sensorial deve fazer parte do plano terapêutico. Identificar ambientes sobre-estimulantes, utilizar auscultadores com redução de ruído quando necessário, planear pausas de recuperação e respeitar os próprios limites reduz significativamente o risco de sobrecarga e burnout.
É igualmente essencial desenvolver competências de autocompaixão. Muitos adultos passaram décadas a ouvir que eram preguiçosos, desorganizados, distraídos ou excessivamente sensíveis. Compreender que muitas destas dificuldades resultam da interação entre duas condições neurodesenvolvimentais permite substituir a culpa por conhecimento e adaptar expetativas de forma mais realista.
Sempre que indicado, uma intervenção multidisciplinar pode integrar psicoterapia adaptada ao autismo, estratégias específicas para PHDA, intervenção ocupacional, psicoeducação e, em alguns casos, tratamento farmacológico cuidadosamente monitorizado.
Viver com autismo e PHDA não significa viver permanentemente em conflito. Significa aprender a conhecer duas formas diferentes de processar o mundo, identificar os seus pontos fortes, antecipar as suas vulnerabilidades e construir estratégias que promovam uma vida mais autónoma, saudável e coerente com a identidade de cada pessoa.
Este tema é aprofundado no livro Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas (PACTOR Editora), onde são apresentadas estratégias clínicas baseadas na evidência para a avaliação e intervenção em adultos com a dupla condição PEA e PHDA.
