Sexualidade

Ainda há muitas mulheres que não conhecem o seu próprio corpo

Atualizado: 
04/09/2019 - 11:00
Problemas de autoestima ou de autoimagem estão muitas vezes associados aos tabus relacionados com a própria sexualidade. Neste artigo a psicoterapeuta Alexandra Pereira explica a importância da mulher conhecer e explorar o seu próprio corpo. Sem culpas.

De há 9 anos para cá que se assinala o Dia Mundial da Saúde Sexual, quase sempre numa perspetiva física e anatómica quer do homem, quer da mulher. E se me permitem irei dar particular atenção à Saúde Sexual da Mulher, não por o ser, mas por ser um tema ainda negligenciado pela sociedade.

Desde muito cedo que a mulher, ou quando menstrua, ou quando inicia a atividade sexual recorre a um ginecologista. Na maior parte das vezes estas consultas servem meramente para prescrever um anticoncecional e para alertar e bem, sobre as doenças sexualmente transmissíveis (DST). Raras são as vezes que o profissional de saúde aborda a mulher como um todo e apenas lhe dá “ferramentas” para evitar uma gravidez, ou até mesmo uma doença, mas ninguém lhe diz como tirar o maior proveito dela própria.

Tendo em conta que a Organização Mundial de Saúde (OMS) refere que a saúde sexual é amplamente entendida como um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade, então porque é que na maior parte das vezes abordar o tema da sexualidade é motivo de constrangimento, de risinhos e embaraços? Quando na sua génese a sexualidade é tida como uma energia que motiva na procura do amor, do contacto, da ternura e da intimidade (…) que se integra no modo como sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser sensual e sexual ao mesmo tempo, influenciando por isso a saúde física e mental.

Apesar de estarmos num século que se diz evoluído, questões há que ainda se arrastam e perduram no tempo. Muitas são as mulheres que nunca viram, ou tiveram curiosidade em saber como era a vagina/vulva, tantas outras que se recusam a explorá-la. Estando estes comportamentos presos a questões de carácter religioso e sociocultural. Desde cedo é dito às meninas “não mexas aí”, “vê lá como te sentas”, alimentando por isso a ideia de que não devemos mesmo tocar e/ou explorar o que de mais íntimo e nosso temos… O sexo é visto ainda por muitos como o maior pecado do ser humano, quando o corpo humano é feito também para isso. Havendo ainda, erradamente, uma definição de homem, e uma definição de mulher que ditam o comportamento sexual de cada um.

Ao longo da minha carreira profissional, quase que posso dizer que foram mais as mulheres que afirmaram não conhecer o corpo, ou que nunca tinham experienciado um orgasmo, do que as que sabiam do que se tratava. Quase que há um boicote na sensação de atração sexual. O corpo tem estímulos sexuais quando se excita, quando é tocado, quando prevê a possibilidade de usufruir de todo aquele conjunto de sensações… mas se a mulher não o conhece, rapidamente deixa de sentir todos esses estímulos e consequentemente a necessidade de sentir prazer, e obedece de imediato ao que a mente diz.

Mente e corpo têm necessidades distintas, sendo que é a primeira que controla o corpo. E o corpo precisa de ver as suas necessidades básicas satisfeitas: necessidade de comer, de beber, de dormir, de ter sexo. Todas são normais e facilmente satisfeitas. O problema reside quando a mente assume que essas não são necessidades prioritárias, tornando-se por isso mais difícil ainda de lidar com o corpo e com a sexualidade, sendo por isso urgente libertar o corpo da tirania da mente (Ruiz, 2014).

O primeiro passo consiste em desmistificar os comportamentos, quebrando a ideia do

certo e errado entre homens e mulheres. Quebrando o tabu da sexualidade, a fim de que possa ser abordado sem leviandade e com toda a atenção e respeito que merece. É importante que a mulher reconheça o seu corpo, como um centro de prazer, numa primeira instância para ela própria, quebrando as crenças de que tocar, de que se masturbar é um ato normal, livre do pecado; e que possa usufruir desse prazer com quem ela achar conveniente.

É urgente a educação sexual ser encarada com seriedade, uma vez que vivemos numa sociedade em constante evolução, em que somos confrontados com evolução tecnológica, com uma relação entre pares cada vez mais entre telas de computador e telemóvel, temos um crescente aumento de um comportamento social cada vez mais individualista que busca o prazer em relações instantâneas e desprovidas de afeto. Onde o mais importante é a imagem que é passada e vista pelos outros, independentemente se há uma consciência emocional sobre o próprio corpo. Resultando quase que no imediato em problemas de autoestima, de autoimagem que em muitas vezes caiem em transtornos emocionais graves.

Autor: 
Dra. Alexandra Pereira - Psicóloga e psicoterapeuta na Clínica da Mente
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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