Aspetos Clínicos, Mitos, Fatos e Realidades

Suicídio: o ato suicida não tem limites culturais, étnicos, raciais ou socioeconómicos

Decerto poucos assuntos permanecem tão atuais e controversos na Psiquiatria como o suicídio. O suicídio é um tema associado a mitos e alvo de constante atenção por parte de alguns meios de comunicação social e presença assídua na literatura. Nesta breve revisão, vamos explorar aspetos epidemiológicos, causas, fatores de risco, fatores protetores e orientação clínica.

A própria definição de suicídio é controversa; pode considerar-se que o suicídio é o ato deliberado que resulta na morte, com conhecimento prévio ou expectativa de desenlace fatal.

Um termo relacionado, e que por vezes gera alguma confusão, é para-suicídio: em que a pessoa faz mal a si própria ou ingere, por ex., substâncias em excesso, mas em simultâneo deixa pistas para que a morte não aconteça, ou simula a vontade de terminar com a vida.

O suicídio é uma das 10 principais causas de morte a nível mundial (!); embora as estatísticas sejam consideradas (por motivos políticos, culturais, por cuidados de saúde/epidemiológicos deficitários, ou outros) pouco fiáveis, a própria Organização Mundial de Saúde (OMS), refere que num dado momento, em todo o mundo, ocorre em média, uma tentativa a cada 3 segundos, e uma morte a cada 40.

Assim, no tempo que o leitor demorou a ler este texto até agora, poderão ter ocorrido mais de vinte tentativas e ter falecido 1 a 2 pessoas. Por suicídio.

É a segunda causa de morte entre os 15 e os 29 anos.

Morrem mais pessoas por suicídio do que em guerras.

O local do mundo onde mais pessoas se suicidam é a Ponte Golden Gate em São Francisco — Califórnia, nos Estados Unidos da América.

Ainda segundo os dados mais recentes da OMS, o país onde mais pessoas se suicidam é a Guiana, com 30,6 mortes por 100 000 habitantes. Antígua e Barbuda não têm registo oficial de suicídios em 2015 (dados mais recentes disponíveis para comparação).

As taxas de suicídio são sempre mais elevadas em homens e aumentam com a idade, sendo que o suicídio é uma realidade particularmente grave em zonas remotas e isoladas.

Em Portugal, segundo dados citados pela Sociedade Portuguesa de Suicidologia, a tendência global tem sido de diminuição do número de suicídios
(de 9,9/100 000 habitantes para um mínimo de 5,1/100 000 hab. no ano 2000).

Naturalmente que em cada país existem assimetrias regionais muito marcadas nos números de suicídio; em determinadas zonas do Alentejo, por ex., por motivos genéticos, incidência elevada de doença psiquiátrica, isolamento, acesso limitado a cuidados de saúde mental, alcoolismo ou outros, as taxas são claramente superiores à média nacional. O mesmo se verifica em certas regiões da Ilha da Madeira ou em algumas Ilhas do Arquipélago dos Açores.

Acompanhando a tendência mundial, a taxa de suicídios é sempre muito maior nos homens e aumenta claramente com a idade, sobretudo a partir dos 74 anos.

Os homens podem usar métodos mais violentos como armas de fogo, enforcamento e defenestração, enquanto nas mulheres, as intoxicações voluntárias (medicamentosas ou outras) são relativamente frequentes.

Embora o número de suicídios consumados seja maior nos homens, as mulheres fazem mais tentativas.

Métodos como imolação pelo fogo são raros nos países ocidentais e em pessoas de religião cristã ou judaica.

Há muitos mitos associados ao Suicídio:

O mais frequente é o de que abordar o tema do suicídio com uma pessoa com ideias de morte, ou como vulgarmente referido, com “tendências suicidas” pode induzir o suicídio. É absolutamente falso. Se alguma coisa, a pessoa sente-se aliviada por poder partilhar uma experiência tão dolorosa e procurar ajuda. 

Um aspeto bem distinto é a divulgação, pelos meios de comunicação social, de atos isolados de suicídios e das circunstâncias em que estes ocorrem. Em Portugal e em vários outros países existe um acordo “oficioso” para a não divulgação destes casos, porque pode incitar ou levar a um efeito multiplicador da escolha de um determinado método (por ex., saltar de uma ponte).

O suicídio não é uma consequência natural ou expectável do stress. É uma reação anormal a fatores de stress.

O suicídio nem sempre é um ato impulsivo.

As pessoas que se suicidam são “egoístas e fracas” — outro mito comum. Em 90% dos casos, existe uma doença associada.

“As pessoas inteligentes e bem sucedidas nunca se suicidam” — na verdade, o ato suicida não tem limites culturais, étnicos, raciais ou socioeconómicos.

Entre os fatores protetores para o suicídio estão a ausência de doença mental, ter um emprego, filhos ou crianças no lar, a gravidez, fortes convicções religiosas, satisfação com a vida ou com a carreira, copingskills e uma rede de suporte adequadas e uma boa relação terapêutica com o médico assistente.

Fatores de risco incluem a idade avançada, o sexo masculino, história prévia de tentativas de suicídio, acesso ou conhecimento sobre meios letais (é referido por alguns autores anglo-saxónicos que a profissão em que maior número de pessoas se suicidam é a de médico veterinário, seguindo-se a de farmacêutico, anestesista, médico de medicina geral e familiar, ...)

Constituem também fatores de risco o isolamento, doença psiquiátrica grave e não tratada (depressões, substâncias de abuso, esquizofrenia, perturbações de personalidade), doença orgânica grave (insuficiência renal em diálise, infeção por VIH, neoplasias, algumas doenças reumatológicas). A baixa tolerância à frustração, muito particularmente associada a traços de personalidade rígidos, «desadaptativos», com um pensamento do tipo tudo ou nada, é talvez um dos mais importantes fatores de risco.

Para concluir, uma mensagem de esperança: a pessoa em risco de suicídio pode ser ajudada. Se existir risco claro de suicídio, deve ser referenciada de imediato a um Serviço de Urgência de Psiquiatria. No caso de a pessoa ter ideias de morte, sem intenção ou plano suicida mas com forte angústia associada, em articulação com outros profissionais de saúde, deve ser encaminhada para um Serviço de Saúde Mental. Existem tratamentos eficazes, com abordagens que incluem farmacoterapia, mas também intervenção psicoterapêutica e psicoeducação, implicando médicos, psicólogos, enfermeiros e eventualmente outros profissionais de um Serviço de Saúde Mental.

Autores: Dr. Pedro Cintra, Dra. Margarida Albuquerque, Dr. Miguel Costa, Dra. Constança Ruiz- Médicos do Departamento de Saúde Mental do Hospital de Cascais Dr. José de Almeida

Referências:

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs398/en/
http://www.who.int/gho/mental_health/suicide_rates_male_female/en/
www.spsuicidologia.pt
VVAA, Comportamentos Suicidários em Portugal, Sociedade Portuguesa de Suicidologia, 2006.
Kutcher S., Chehil S., Suicide Risk Management – A Manual for HealthProfessionals, LundbeckInstitute, 2007.
Cowen P, Harrison P, Burns T., ShorterOxforfTextbookofPsychiatry, vol 2, Oxford UniversityPress, 2012.
Sadock BJ, Sadock VA, KaplanandSadock’sSynopsisofPsychiatry, Lippincott, Williams &Wilkins, 2003.

Dr. Pedro Cintra - Psiquiatra Hospital de Cascais Dr. José de Almeida
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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