Entrevista

Síndrome de Hunter: diagnóstico chega em média 7 anos após primeiros sintomas

É uma doença rara metabólica que atinge sobretudo o sexo masculino e que se caracteriza por uma deficiência ou ausência da enzima I2S, conduzindo ao declínio progressivo de várias funções do corpo. No âmbito do Dia Mundial das Mucopolissacaridoses, que se assinala a 15 de Maio, a especialista em Medicina Interna, Luísa Pereira, explica-nos tudo o que precisamos saber sobre a Síndrome de Hunter.

Em que consiste a Síndrome de Hunter e qual a sua incidência?

A Síndrome de Hunter é uma mucopolissacaridose (MPS tipo II), uma doença rara, genética que se caracteriza pela deficiência da idorunase-2-sulfatase (I2S), uma das enzimas necessárias à degradação de substâncias chamadas de glicosaminoglicanos (GAG). Na ausência de doença, estas enzimas degradam estas macromoléculas em componentes mais pequenos permitindo a sua assimilação pelo organismo. No entanto, quando o funcionamento destas enzimas se encontra comprometido, os GAG acumulam-se nos lisossomas das células, conduzindo às manifestações da doença.

A MPS II foi descrita pela primeira vez pelo médico canadiano Dr. Charles Hunter em 1917. É uma doença genética ligada ao cromossoma X, atingindo por isso, sobretudo, os homens e muito raramente as mulheres.

É uma doença de depósito lisossomal muito rara, sendo a sua incidência estimada em 1 para cada 162 mil nados vivos. Em Portugal, não dispomos de dados atualizados mas desde a década de 80 foram diagnosticados menos de 100 doentes com MPS.

Quais as principais manifestações clínicas da doença?

A Síndrome de Hunter é uma doença progressiva e multissistémica. Nem todas as pessoas com esta síndrome são afetadas da mesma forma, sendo as manifestações clínicas diversas: alterações faciais, cabeça com volume maior do que o habitual, abdómen aumentado, aumento do fígado e do baço, alterações da audição, comprometimento das válvulas cardíacas e da função cardíaca, obstrução das vias respiratórias, apneia do sono, hérnias, alterações da mobilidade por alterações articulares, alterações ósseas múltiplas e baixa estatura.

Na maioria dos casos (> 60%) há comprometimento do Sistema Nervoso Central (SNC), podendo a doença cursar com epilepsia, défice de atenção, alterações de comportamento, alterações do sono, atraso cognitivo, entre outros).

Conforme a existência ou não de atingimento do SNC, foram definidas duas formas de expressão da doença: uma forma atenuada (sem envolvimento do Sistema Nervoso Central) e uma forma grave, com envolvimento do Sistema Nervoso Central.

A partir de que idade pode ser diagnosticada?

Sendo uma doença genética, o seu diagnóstico pode ser realizado ainda in utero, através de biopsia das vilosidades coriónicas. O aconselhamento genético das famílias com diagnósticos de Síndrome de Hunter ou qualquer outra das MPS é imperativo.

As crianças com MPS II habitualmente não apresentam sinais ou sintomas de doença aquando do nascimento. Os primeiros sintomas mesmo na forma mais grave são habitualmente somáticos e surgem em média aos 1,5 anos de vida e são, habitualmente, inespecíficos (ex. otites de repetição, hérnias abdominais). Este facto, associado à raridade da doença, faz com que o diagnóstico não seja imediato. Estima-se que o tempo até ao diagnóstico a partir do aparecimento dos primeiros sinais e sintomas é de 7 anos.

Como é feito o seu diagnóstico?

A suspeita clínica é a melhor forma de iniciar o diagnóstico de todas as doenças. Após a integração de todos os sinais e sintomas, o teste de diagnóstico standard é a determinação da atividade enzimática da I2S.

Em Portugal, quando um médico suspeita desta Síndrome tem, atualmente, disponível uma fácil e acessível ferramenta de diagnóstico. Inserido no projeto FIND, que resulta de uma parceria entre a secção de Doenças Hereditárias do Metabolismo da Sociedade Portuguesa de Pediatria e o Instituto Ricardo Jorge, o diagnóstico pode ser efetuado através de determinação enzimática em sangue colhido em cartão (como no conhecido teste do pezinho). O kit de diagnóstico é gratuito e poderá ser solicitado pelo médico através do correio electrónico: projeto.find@gmail.com.

Os resultados devem posteriormente ser confirmados por teste genético. 

Tratando-se de uma doença progressiva, qual o seu prognóstico? E de que modo esta síndrome condiciona a vida do doente?

A acumulação dos GAG de forma multissistémica condiciona alterações virtualmente em todos os órgãos e sistemas, sendo os sintomas muito variados. Na forma mais grave apresenta um enorme impacto na redução da qualidade e esperança de vida (sobrevida média de aproximadamente 15 anos).

Quando não diagnosticada e instituídas medidas terapêuticas de forma atempada, a Síndrome de Hunter torna-se progressiva e muito incapacitante. Para além das alterações físicas, as alterações de concentração e aprendizagem, bem como alterações psicológicas têm de ser monitorizadas de perto. É mandatório, em particular em doentes com formas graves, que sejam integrados em ambiente com estímulos enriquecedores desde idades precoces, por forma a atrasar a deterioração cognitiva.

Qual a esperança média de vida dos doentes?

A esperança média de vida nas formas mais graves é de 10 a 20 anos. Nas formas atenuadas também se encontra reduzida, mas habitualmente os doentes atingem a idade adulta e sem alterações cognitivas As doenças cardíacas e a obstrução das vias aéreas são as principias causas de mortalidade em ambas as formas. 

Em que consiste o seu tratamento?

Como ainda não há cura para a síndrome de Hunter, o tratamento centra-se na gestão de sinais, sintomas e possíveis complicações, de forma a proporcionar alívio sintomático e melhoria da qualidade de vida à medida que a doença progride.

Os tratamentos dirigidos, atualmente disponíveis, a terapêutica enzimática de substituição (TES) e o transplante de células hematopoiéticas têm demonstrado bons resultados retardando a progressão da doença e diminuindo a gravidade da sua expressão. No entanto, a TES não tem resultados nos sintomas neurológicos/cognitivos e o transplante tem um efeito muito limitado.

A eficácia destes tratamentos depende muito da precocidade do diagnóstico, que é bastante difícil. O atraso no diagnóstico impede uma intervenção atempada, que poderia evitar a rápida progressão da doença e prevenir a ocorrência de danos irreversíveis.

Qual a importância do diagnóstico pré-natal? A análise do gene I2S está incluída nos rastreios convencionais?

A análise do gene I2S não está incluída nos rastreios convencionais portugueses. Mas, sendo uma doença genética, o seu diagnóstico pode ser realizado ainda in utero, através de biopsia das vilosidades coriónicas ou logo à nascença de forma semelhante às doenças testadas no teste do pezinho.

Independentemente da altura em que se estabelece diagnóstico, o aconselhamento genético das famílias com diagnósticos de Síndrome de Hunter ou qualquer outra das MPS é sempre imprescindível.

Um diagnóstico atempado é sempre importante porque permite a rápida instituição da terapêutica.

Que apoios têm estes doentes e suas famílias, no nosso país?

A realidade das Doenças Raras no nosso país tem vindo a evoluir de uma forma significativa nos últimos anos. O Programa Nacional de Doenças Raras, a constituição de Centros de Referência de Doenças Hereditárias do Metabolismo e Doenças Lisossomais de Sobrecarga e da Comissão Coordenadora do Tratamento das Doenças Lisossomais de Sobrecarga, trouxeram maior apoio clínico, científico e terapêutico a estes doentes de norte a sul do país.

As Associações de doentes nacionais, como por exemplo a Associação Portuguesa das Doenças do Lisossoma e a Raríssimas, e redes internacionais como a de MPS, têm-se diferenciado e apostado no apoio personalizado às diferentes vertentes das necessidades dos seus associados, bem como à educação para a saúde e a promoção da literacia em saúde.

Mas apesar de todas estas alterações que se assumem como positivas, muito caminho há ainda a percorrer, para suprir as necessidades destes doentes e famílias.

Alguns projetos começam a surgir, como por exemplo a Casa dos Marcos, pensada para ser um centro de recursos capaz de dar uma resposta integrada aos doentes com Doença Rara. A Rede Nacional de Cuidados Continuados e Integrados (RNCCI) já contempla 10 camas em Unidade de Longa Duração e Manutenção (ULDM) para estes doentes.

Para terminar, qual o impacto socioeconómico desta síndrome?

As doenças raras não afetam apenas os doentes, mas também têm um grande impacto nas famílias, amigos, cuidadores e na sociedade em geral.

Em Portugal, a verdadeira dimensão do problema não é conhecida, dada a inexistência de um registo único adequado a estas doenças, bem como o reduzido número e a extensão dos estudos epidemiológicos realizados até à data.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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Resumo das Características do Medicamento: 1. NOME DO MEDICAMENTO Beacita 60 mg cápsulas. 2. COMPOSIÇÃO QUALITATIVA E QUANTITATIVA Cada cápsula contém 60 mg de orlistato. 3. FORMA FARMACÊUTICA Cápsula. 4. INFORMAÇÕES CLÍNICAS 4.1 INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS Beacita é indicado para perda de peso em adultos com excesso de peso (índice de massa corporal, IMC, ≥28 Kg/m2) e deve ser tomado em associação a uma dieta moderadamente hipocalórica e de baixo teor em gorduras. 4.2 POSOLOGIA E MODO DE ADMINISTRAÇÃO Adultos: A dose recomendada de Beacita é uma cápsula de 60 mg três vezes ao dia. Não devem ser tomadas mais do que três cápsulas de 60 mg em 24 horas. O tratamento não deve exceder 6 meses. Caso os doentes não consigam perder peso após 12 semanas de tratamento com Beacita, devem consultar o seu médico ou um farmacêutico. Pode ser necessário descontinuar o tratamento. A dieta e o exercício são partes importantes dum programa para perder peso. Recomenda-se que se inicie uma dieta e um programa de exercício antes de iniciar o tratamento com Beacita. Enquanto estiver a tomar Beacita, o doente deve fazer uma dieta equilibrada do ponto de vista nutricional, moderadamente hipocalórica e em que as gorduras contribuam aproximadamente em 30% para o valor calórico total (por exemplo, numa dieta de 2000 kcal/dia, isto equivale a <67 g de gordura). A ingestão diária de gorduras, de hidratos de carbono e de proteínas deve ser distribuída pelas três refeições principais. A dieta e o programa de exercício devem continuar a ser seguidos após interrupção do tratamento com Beacita. Populações especiais. População pediátrica: Beacita não deve ser utilizado em crianças e adolescentes com idade inferior a 18 anos devido a insuficiente informação sobre segurança e eficácia. Idosos (> 65 anos de idade): existem dados limitados sobre o uso do orlistato em idosos. No entanto, como o orlistato é minimamente absorvido, não é necessário ajustar a dose para idosos. Disfunção hepática e renal: não foram estudados os efeitos do orlistato em doentes com insuficiência hepática e/ou renal. Contudo, como o orlistato é absorvido em frações mínimas, não é necessário ajustar a dose nos doentes com compromisso hepático e/ou renal. Modo de administração: a cápsula deve ser tomada com água imediatamente antes, durante ou até 1 hora após cada refeição principal. Se for omitida uma refeição ou se esta não contiver gordura, a dose de Beacita deve ser omitida. 4.3 CONTRAINDICAÇÕES Hipersensibilidade à substância ativa ou a qualquer um dos excipientes, tratamento concomitante com ciclosporina, síndrome de mal absorção crónica, colestase, gravidez, amamentação, tratamento concomitante com varfarina ou outros anticoagulantes orais. 4.8 EFEITOS INDESEJÁVEIS As reações adversas ao orlistato são essencialmente de natureza gastrointestinal e relacionadas com o efeito farmacológico do fármaco na prevenção da absorção da gordura ingerida. Infeções e infestações: Muito frequentes: Influenza, Doenças do sangue e do sistema linfático: Frequência desconhecida: Diminuição do valor da protrombina e aumento de INR, Doenças do sistema imunitário, Frequência desconhecida: Reações de hipersensibilidade, incluindo, anafilaxia, broncospasmo, angioedema, prurido, erupção cutânea e urticária, Doenças do sistema imunitário: Frequência desconhecida: Reações de hipersensibilidade, incluindo anafilaxia, broncospasmo, angioedema, prurido, erupção cutânea e urticária, Doenças do metabolismo e da nutrição: Muito frequentes: Hipoglicémia, Perturbações do foro psiquiátrico, Frequentes: ansiedade, Doenças do sistema nervoso, Muito frequentes: cefaleias, Doenças respiratórias, toráxicas e do mediastino, Muito frequentes: Infeção respiratória superior, Frequentes, Infeção respiratória inferior, Doenças gastrointestinais, Muito frequentes, Eliminação de manchas oleosas pelo reto, Gases com descarga, Sensação de urgência em defecar, Fezes gordurosas/oleosas, Evacuação oleosa, Flatulência, Fezes moles; Frequentes: Dor abdominal, Incontinência fecal, Fezes líquidas, Aumento da defecação, Distensão abdominal, Afeção nos dentes, Afeção nas gengivas, Frequência desconhecida: Diverticulite, Pancreatite, Hemorragia retal ligeira; Afeções hepatobiliares: Frequência desconhecida: Hepatite que se pode tornar grave, Colelitíase, Aumento das transaminases e da fosfatase alcalina; Afeções dos tecidos cutâneos e subcutâneos: Frequência desconhecida: Erupções vesiculares; Doenças renais e urinárias: Frequência desconhecida: Nefropatia por oxalato; Perturbações gerais e alterações no local de administração: Frequentes: Fadiga. 5. TITULAR DA AUTORIZAÇÃO DE INTRODUÇÃO NO MERCADO Actavis Group PTC ehf., Reykjavikurvegur 76-78, IS-220, Hafnarfjordur, Islândia. 6. NÚMERO(S) DA AUTORIZAÇÃO DE INTRODUÇÃO NO MERCADO Registado no Infarmed I.P. com o nº 5474143, blister de 60 unidades. Registado no Infarmed I.P. com o nº 5474150, blister de 84 unidades. 7. DATA DA REVISÃO DO TEXTO 29 de outubro de 2012. Para mais informações deverá consultar o titular de autorização no mercado. Medicamento Não Sujeito a Receita Médica.