Estudo AGING POSITIVE

Envelhecer com Infeção VIH em Portugal

A Infeção VIH/SIDA está a aumentar na população de adultos mais velhos e idosos.

Este aumento deve-se, fundamentalmente, a duas circunstâncias. Em primeiro lugar, a terapia antirretroviral aumentou a esperança de vida dos doentes, permitindo que pessoas que se infetaram mais jovens, tenham uma expectativa de longevidade quase comparável à da população em geral. Por outro lado, as novas infeções adquiridas em idades mais avançadas estão também a aumentar, correspondendo a 18,5% dos novos diagnósticos na Europa em 2016. Em Portugal, esta tendência é ainda mais acentuada, constituindo 25% dos novos diagnósticos em 2016. Nesse ano, foram notificados 1.030 novos casos de infeção VIH, correspondendo a uma taxa de 10/100.000 habitantes, uma das mais elevadas da Europa Ocidental, de acordo com o relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) e da OMS publicado em novembro de 2017.

A infeção VIH é, atualmente, considerada uma doença crónica: com um tratamento adequado as pessoas podem viver mais tempo e com qualidade de vida. Contudo, algumas doenças associadas ao envelhecimento, como sejam as doenças cardiovasculares, dislipidémia, doença renal, demência e algumas neoplasias têm uma maior preponderância nos doentes com infeção VIH. O tratamento destas condições e a possibilidade do seu agravamento com a infeção e/ou os fármacos antirretrovirais, bem como a gestão das frequentes interações medicamentosas determinam a necessidade de uma vigilância médica regular destes doentes em unidades de saúde especializadas e veio trazer novos desafios aos profissionais de saúde.

De modo a podermos conhecer com maior profundidade a realidade portuguesa, realizou-se, em 2016, um estudo de âmbito nacional, em 7 hospitais especializados, de norte a sul do país. O estudo AGING POSITIVE é, assim, o primeiro estudo realizado a nível nacional, multicêntrico e observacional, junto da população adulta com 50 ou mais anos infetada por VIH, que veio permitir caracterizar a população que envelhece com VIH em Portugal. Foram incluídos 401 doentes, com uma idade media de 59,4 anos, maioritariamente do sexo masculino (72,6%), todos sob tratamento antiretroviral e com supressão viral mantida. O tempo médio de duração da infeção VIH foi de 12 anos. Os resultados, que foram apresentados na conferência da Sociedade Clínica Europeia de Sida, (EACS) em outubro de 2017, revelaram uma prevalência muito elevada de co-morbilidades, nomeadamente hipercolesterolémia (60,8%), hipertensão arterial (39,7%) e depressão/ansiedade (23,9%). Outras co-morbilidades com prevalência elevada foram também a diabetes mellitus (13.5%), a insuficiência renal (8%) e as neoplasias (8%), entre outras. Os fármacos antilipídicos e os anti-hipertensores foram os medicamentos mais frequentemente prescritos. Em 56% dos casos, para além do seguimento hospitalar, os doentes tinham também seguimento nos cuidados de saúde primários.

Este estudo confirmou a elevada prevalência de co-morbilidades e medicações concomitantes nos doentes mais velhos que vivem com VIH em Portugal. Um dos riscos mais importantes que este estudo permite antever é a possibilidade de interações medicamentosas, potenciado pela gestão partilhada do doente com médicos não especialistas e pela necessidade de tratamentos para outras co-morbilidades. A escolha de tratamentos antirretrovirais com menor risco de interações medicamentosas torna-se assim de extrema importância nesta faixa etária.

Dra. Patrícia Pacheco - Diretora de Serviço de Infecciologia do Hospital Professor Dr. Fernando Fonseca
Nota: 
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