Entrevista

«A Dermatite Atópica é habitualmente a primeira manifestação de doença alérgica»

Prurido intenso, sensação de ardor, perturbação do sono e irritabilidade são os principais sintomas e complicações da Dermatite Atópica – uma doença inflamatória de pele bastante comum e que, em casos mais graves, pode conduzir a sentimentos depressivos e de ansiedade. Para saber tudo o que importa sobre a patologia, o Atlas da Saúde esteve à conversa com a especialista Cristina Lopes Abreu, Coordenadora do Grupo de Interesse de Alergia Cutânea da Sociedade Portuguesa de Alergia e Imunoalergologia Clínica.

O que é a Dermatite Atópica e qual o seu impacto na vida dos doentes?

A Dermatite Atópica, também conhecida como Eczema Atópico, é a doença inflamatória crónica cutânea mais comum e é caracterizada por uma pele muito seca que apresenta frequentemente inflamação e um intenso prurido. Quando persiste no adulto tende a ser mais grave.

Quais as causas desta doença inflamatória? E qual a faixa etária mais afetada?

A dermatite atópica parece resultar da interação de fatores genéticos (muitos doentes quando nascem já estão predispostos para ter uma pele mais frágil e sensível, com tendência a desenvolver reações exageradas contra compostos inócuos do meio ambiente- a alergia) e ambientais (exposição a poluição atmosférica, fumo de tabaco, menos exposição aos microrganismos protetores que existem no solo das áreas verdes e rurais).

Pode afetar todas as idades, mas o início da doença é mais frequente no grupo etário abaixo dos 5 anos de idade. A prevalência da Dermatite Atópica na população em geral estima-se que seja de 2-5%, e cerca de 15% nas crianças e adolescentes.

Existe justificação para o facto de esta doença atingir sobretudo crianças?

Pensa-se que poderá estar relacionada com maior imaturidade da pele nesta faixa etária, produzindo menos substâncias que a impermeabilizam, permitindo um contacto precoce com alérgenos e bactérias invasoras que promovem a inflamação

Qual a sua relação com outras patologias como a asma?

A DA é habitualmente a primeira manifestação de doença alérgica precedendo o aparecimento de rinite ou asma alérgicas.

Quais os principais sintomas e complicações da Dermatite Atópica?

Prurido intenso, sensação de ardor, perturbação do sono, irritabilidade, perturbação da imagem social, perturbação da qualidade de vida podendo nos casos mais graves condicionar sentimentos depressivos e de ansiedade.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é essencialmente clinico-manifestações cutâneas sugestivas em localizações típicas e que variam de acordo com a idade: no lactente as lesões cutâneas atingem a face, tronco e abdómen, na criança e adolescente as pregas cutâneas nos braços e atrás dos joelhos, atrás das orelhas e dobra do pescoço, no adulto as mãos, nuca, também as pregas podendo ser generalizadas. A comprovação de atopia ou alergia com a realização de testes cutâneos alergológicos e outras manifestações como rinite, asma ou alergia alimentar também apoiam o diagnóstico. É importante fazer o diagnóstico diferencial com outras doenças de pele como a psoríase ou dermatite seborreica.

Qual o seu tratamento? Quais as opções terapêuticas disponíveis?

Em primeiro lugar fomentar a restauração da barreira cutânea com cremes específicos, em segundo lugar a utilização de cremes com corticoides e outros compostos semelhantes que têm por objetivo desinflamar a pele. Nos casos mais graves é necessária medicação mais abrangente (sistémica) sob a forma de comprimidos imunosupressores.

Recentemente têm surgido novos medicamentos de utilização apenas hospitalar que parecem ser promissores porque poderão atuar de forma mais específica na desregulação do sistema imunológico que caracteriza a dermatite atópica. 

A Dermatite Atópica pode ser prevenida?

Pensa-se que a aplicação de cremes protetores da barreira cutânea possa prevenir o desenvolvimento da dermatite atópica em crianças de risco (história familiar de doença alérgica significativa) mas é um conceito ainda em estudo. A menor exposição a poluição atmosférica, fumo de tabaco, e a maior exposição aos microrganismos protetores que existem no solo das áreas verdes e rurais parece se protetora para o desenvolvimento das doenças alérgicas em geral e também da dermatite atópica.

Por que motivo esta doença continua a ser subvalorizada?

Porque até há bem pouco a sua fisiopatologia era pouco conhecida, por outro lado era menos frequente e menos grave. Com o aumento significativo das doenças alérgicas nos países em vias de desenvolvimento a dermatite atópica passou a ser vista não apenas como uma doença cutânea, mas parte de uma processo mais abrangente conhecido como a marcha alérgica. 

Que mensagem importa reforçar quanto a esta matéria?

A Dermatite atópica pode ter um impacto significativo na qualidade dos doentes e suas famílias e por isso não deve ser subvalorizada. Devido à importância que a alergia pode desempenhar na Dermatite Atópica, é indispensável que seja feito um diagnóstico preciso e que haja seguimento por um médico especialista nesta área.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
Allergy & Asthma Associates of Allen