Doenças hemato-oncológicas

Células estaminais: as “super-células” que combatem o cancro

Em Portugal são diagnosticados, todos os anos, cerca de 400 novos casos de cancro pediátrico, sendo as leucemias, os linfomas e neuroblastomas os tumores mais frequentes na infância. Com a capacidade de se autorrenovarem, as células estaminais têm vindo a ser apontadas como umas das nossas maiores aliadas no combate às doenças hemato-oncológicas e um importante objeto de estudo no âmbito da medicina regenerativa.

As células estaminais são células que se podem diferenciar em diversas linhagens celulares e que apresentam a capacidade de se autorrenovar e de se dividir indefinidamente. Este “super poder” permite que possam substituir células lesadas ou destruídas e participar na regeneração de tecidos danificados.

Podem ser classificadas, tendo em conta a sua origem e a sua capacidade de diferenciação, como embrionárias, dando origem a todos os tipos de células que constituem o nosso organismo, ou adultas, permitindo manter as funções dos tecidos e órgãos onde estão presentes.

Apesar terem diversas origens, as células estaminais que têm tido maior relevância quanto ao seu potencial terapêutico são as células estaminais da medula óssea, do sangue periférico e do sangue do cordão umbilical.

“As células estaminais presentes no sangue do cordão umbilical têm a capacidade de se autorrenovarem e diferenciar em células do sangue, muitas vezes apelidadas de progenitores hematopoiéticos, ou progenitores das células sanguíneas”, começa por explicar Marika Bini Antunes, especialista em Imuno-hemoterapia.

De acordo com a especialista, apesar da medula óssea ser “a fonte tradicional de células estaminais hematopoiéticas para o tratamento de doenças hemato-oncológicas (..) as células estaminais do sangue do cordão têm a vantagem de serem mais imaturas do que as células estaminais da medula óssea ou do sangue periférico, e por isso, estão associadas à menor incidência de doença de enxerto contra o hospedeiro no período pós-transplantes” (uma complicação bastante frequente). Contudo, acrescenta que a recuperação hematológica é mais lenta quando estas são utilizadas.


"A utilização de sangue de cordão tem limitações que se prendem essencialmente com o número de células na amostra, sendo restrita, basicamente, à população infantil", refere Marika Bini Antunes

Atualmente, são cerca de 80 as doenças que podem ser tratadas com recurso a este tipo de células.

Entre as doenças hemato-oncológicas suscetíveis de tratamento, Marika Bini, destaca as síndromes de insuficiência medular, síndromes mielodisplásicos, alguns tipos de leucemias, alguns distúbios hereditários do metabolismo e patologias hematológicas benignas e “alguns casos selecionados de linfomas”, acrescentando que “uma parte significativa destas doenças é tratada em primeira linha e com sucesso com recurso a quimioterapia e imunoterapia”.

O primeiro transplante de sangue do cordão umbilical realizou-se há 30 anos, com o objetivo de  tratar uma criança com Anemia de Fanconi.

Desde então, o sangue do cordão umbilical tem sido usado, em todo o mundo, como  alternativa à medula óssea no tratamento de um vasto leque de doenças do foro hemato-oncológico.

“Há muitos anos que são realizados transplantes hematopoiéticos alogénicos em doenças hemato-oncológicas, em Portugal, com sucesso”, refere a especialista adiantando que, embora a fonte priveligiada de células estaminais seja a medula óssea ou o sangue periférico “após mobilização”, a transplantação com sangue do cordão umbilical “está bem estabelecida e encontra-se rotinada na prática clínica”.

Os tratamentos para as patologias assinaladas podem ser feitos no IPO de Lisboa, Porto e Coimbra e em algumas unidades hospitalares de referência.

“No transplante hematopoiético deve existir compatibilidade entre o dador e o recetor. No caso de irmãos, essa compatibilidade é de 25%. Se não houver dador relacionado compatível, é possível recorrer aos registos nacionais e internacionais”, explica Marika Bini.

O fator eliminatório relacionado com a questão das compatibilidades é o que tem levado, sobretudo nos últimos anos, ao aumento da procura das técnicas de criopreservação. “A criopreservação do sangue e tecido do cordão umbilical é uma oportunidade única de guardar amostras de produtos biológicos, no momento do parto, que poderão ser úteis no futuro, nomeadamente para o tratamento de doenças com significativa prevalência e que estão atualmente em estudo”, justifica a especialista em Imuno-hemoterapia.

De modo a manter a sua viabilidade celular, as células estaminais, depois de isoladas, são conservadas em azoto líquido a temperaturas extremamente baixas, designadas de criogénicas.

Atualmente, encontram-se a decorrer inúmeros estudos e ensaios clínicos que visam “averiguar a eficácia e segurança de células estaminais mesenquimais e hematopoiéticas” no tratamento de outras doenças como a diabetes tipo 1, paralisia cerebral, autismo, doença de Parkinson ou AVC, com vista a alargar o seu universo de aplicações terapêuticas.  

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
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