Pata D’Açúcar pretende alargar apoio a maior número de diabéticos

Associação portuguesa treina cães que preveem crises de hipoglicemia

Criada há cerca de dois anos, a Pata D’Açúcar tem como missão recuperar animais de abrigo, treinando-os com vista à detecção antecipada de crises de hipoglicemia em doentes diabéticos. Um projeto que pode salvar vidas e que espera chegar a um maior número de famílias.

O método não é novo. Desde 1999 que há diabéticos a usar cães treinados para prevenir crises de hipoglicemia, no entanto, em Portugal a Pata D’Açúcar foi pioneira numa atividade que pode e pretende ajudar a salvar muitas vidas. “A ideia da criação da Associação inicia-se num desafio lançado por uma pessoa com diabetes tipo1 a um treinador profissional de cães”, começa por recordar Nuno Benedito, presidente da associação.

“Após o desafio lançado, foi criada uma equipa multidisciplinar composta por biólogos e endocrinologistas que ajudaram na criação dos primeiros protocolos de treino que foram implementados no primeiro cão e que pertencia à pessoa com diabetes que me lançou o desafio”, acrescenta.

Os animais são sempre recolhidos de abrigos e «recuperados» com vista ao desenvolvimento desta atividade. Por isso, devem obedecer a determinados critérios. “São selecionados mediante a realização de testes específicos de apetência. E, posteriormente são submetidos a rigorosos exames médico-veterinários”. Depois de verificados todos os critérios necessários, estes animais entram num plano sanitário a cargo do departamento veterinário da Associação, que decide quando podem iniciar os protocolos de treino.

“Os cães devem possuir determinadas características. Embora existam raças tipificadas com maiores níveis de apetência para o efeito devido às suas capacidades olfativas, optamos por não especificar qualquer raça em concreto”, revela Nuno Benedito adiando que, deste modo, contribuem com duas linhas de apoio social. “Por um lado ajudamos pessoas com diabetes tipo1, por outro lado resgatamos dois animais por ano de abrigos e mostramos à sociedade que também eles têm capacidades que podem ser potenciadas e ser bastante úteis”, contribuindo assim para a diminuição do abandono animal em Portugal.

Os protocolos de treino aplicados pela Pata D’Açúcar estão tipificados para um ano, no entanto, ao fim de seis meses já é possível observar alguns resultados.

“O treino destes animais consiste no desenvolvimento das suas capacidades olfativas direcionadas para a percepção de terminados níveis de glicose”, começa por explicar o presidente da Pata D´Açúcar. Depois disso, os cães são treinados a sinalizar qualquer alteração.

Para ter acesso a um “cão-médico”, como são carinhosamente apelidados, o doente tem de se candidatar à sua atribuição e obedecer a dois critérios: ser portador de diabetes tipo1 e ser associado da Pata D’Açúcar. “Estando reunidas estas duas condições, a Associação, em data própria, difunde as candidaturas que após serem devidamente preenchidas e remetidas passam pelo escrutínio de uma comissão de seleção de onde dão apuradas quatro candidaturas (duas efetivas + duas reservas) ”, revela Nuno Benedito. Uma comissão de ética atestará depois a imparcialidade desta seleção, bem como o cumprimento integral dos critérios.

Terminado o processo, os tutores frequentam um plano de formação onde aprendem a lidar e a interpretar os sinais do animal, “bem como a fazer a necessária manutenção”.

A grande particularidade deste projeto é a cedência dos animais, por tempo indefinido permitindo que os tutores fiquem com o cão, que tem como principal objetivo a salvaguardar o seu bem-estar. “A razão pela qual se procede desta forma, é para garantir que o bem-estar dos animais é sempre assegurado e também para que, em caso de impossibilidade dos tutores manterem os animais, estes não representem uma sobrecarga”, justifica. A verdade é que quando algum destes princípios é posto em causa, o animal regressa à Associação que “em caso de necessidade, os requalifica e cede a outra pessoa com diabetes tipo1”.

A cedência dos animais do projeto é gratuita, sendo todas as despesas inerentes suportadas pelos parceiros da Associação até à data de cedência de tutela. “Após a cedência de tutela, os tutores apenas têm como custos a alimentação, os cuidados veterinários e o seguro de responsabilidade civil e de saúde dos animais”, acrescenta o treinador, sendo que a Pata D’Açúcar disponibiliza protocolos com diversas entidades onde os tutores podem recorrer para obter preços mais vantajosos.

Atualmente, o projeto apoia nove pessoas com diabetes em sete agregados familiares e espera-se que possa chegar a mais pessoas contribuindo, não só para o aumento da qualidade de vida dos doentes que assiste, como para o resgate e requalificação do maior número possível de animais.

Em paralelo, esta Associação leva a cabo ações de sensibilização e desmistificação sobre a temática da diabetes e do conceito de “Medical Dogs”. E desenvolve ainda, em parceria com uma investigadora portuguesa, um projeto de investigação que atesta as bases científicas da sua atividade. “O nosso projeto de investigação assenta em dois objetivos: em primeiro lugar pretendemos aferir com precisão a diferença temporal que vai da marcação do cão até à detecção feita pelos dispositivos electrónicos atualmente disponíveis para as pessoas com diabetes. Em segundo lugar, pretendemos dar o nosso contributo ao mundo científico na tentativa de descoberta da substância exata que os cães sinalizam”, revela explicando que para tal analisam e relacionam as substâncias emanadas pelas secreções corporais humanas e as alterações orgânicas dos animais.

A técnica de ter um cão-assistente para ajudar a prevenir as crises de hipoglicemia tem vindo a ser amplamente estudada pela ciência. Até agora, os estudos são ainda poucos mas os resultados são bastante promissores.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
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