Alterações da voz

Sabia que a perda de voz pode ter causas psicológicas?

Atualizado: 
17/04/2019 - 11:08
Gripes, alergias e resfriados estão muitas vezes na origem da rouquidão ou da perda de voz. No entanto, não raras as vezes, estas alterações surgem na sequência de transtornos ou choques emocionais.

Sendo o principal meio de comunicação humana, a voz merece a nossa melhor atenção, pelo que devemos prestar atenção à mínima alteração. Disfonia e afonia são alterações da voz bastante comuns.

“As alterações da voz têm um espectro que vai desde a afonia (perda completa de voz) à disfonia (alteração da qualidade da voz), esta vulgarmente designada de rouquidão. Tecnicamente, a rouquidão é a voz áspera e rouca, mas a disfonia também contempla perda da intensidade ou alteração da frequência (mais aguda ou mais grave) que seria de esperar para o género ou idade”, começa por explicar Eugénia Castro, Coordenadora da Unidade da Voz do Hospital Cuf Porto.

Entre as principais causas de disfonia aguda estão as síndromes gripais, faringite, laringite ou a alergia, assim como as lesões provocadas pelo uso intenso da voz. “Nas alterações da voz de carácter crónico, as causas mais frequentes são o uso vocal intenso e prolongado, que pode dar origem ao desenvolvimento de lesões nas cordas vocais (nódulos, pólipos, quistos, edema) ou apenas envolver tensão e fadiga excessiva dos músculos envolvidos na produção da voz”, descreve a especialista adiantando que, nestes casos, é frequente o doente ter uma sensação de aperto na garganta e apresentar dificuldade em engolir.

No entanto, sendo que a produção da voz envolve vários órgãos e sistemas podem existir outras patologias que condicionem o seu desenvolvimento. “Uma das patologias que tem aumentado muito nos últimos anos relaciona-se com o refluxo gastroesofágico para a faringe e laringe. Embora muitas vezes coexista com outros fatores, ela tem uma prevalência muito significativa nos pacientes com alterações da voz e está sobretudo relacionada com fatores alimentares, stresse e sedentarismo, tão comuns nos dias de hoje”, acrescenta Eugénia Castro.

Também o tabaco, considerado um importante fator de risco, se constitui com “fator major” para o desenvolvimento de lesões nas cordas vocais e, embora mais raras, as lesões resultantes de cirurgia (da tiroide) podem resultar em importantes alterações na qualidade da voz.

Sempre que a rouquidão persista por mais de 15 dias, ou esta seja acompanhada de outros sintomas, como dificuldade em respirar ou engolir, tumefação ou outro sintoma que provoque desconforto, deve procurar a ajuda de um especialista. Mais ainda se a perda de voz for súbita e sem motivo aparente. “Para um fumador estes sinais de alerta são ainda mais importantes”, assinala a especialista.

Quando a perda de voz surge depois de um choque emocional

De acordo com a Coordenadora da Unidade da Voz do Hospital Cuf Porto, passou a ser bastante frequente surgirem casos de afonia que não apresentam qualquer relação com as causas acima descritas, e “em que o exame da laringe não apresenta alterações orgânicas” mas que parecem estar associados a um evento emocional ou stresse intenso.

“O cérebro coordena toda a atividade neuromuscular envolvida na produção da voz, direta e indiretamente”, começa por justificar a especialista. A verdade é que, a voz reflete o nosso estado emocional. “Quando estamos ansiosos, triste, zangados, a voz tem características específicas, pelo que é comum dizermos que a voz reflete a nossa alma”, revela acrescentando que esta relação pode ser a causa de disfonia e afonia prolongadas, “sobretudo por gerar tensão muscular acentuada e bloquear o sistema mecânico da vibração das cordas vocais”.

Nestes casos, o tratamento da alteração da voz passa pelo controlo direto do fator emocional relacionado. No entanto, tal como explica Eugénia Castro, nem sempre esta relação é evidente “porque o paciente não a consegue estabelecer (ou admitir) e o quadro é orientado como funcional, com falência prolongada do tratamento”.

Estatisticamente são as mulheres que mais padecem deste problema, até porque, revela a especialista, têm mais hábitos “de uso vocal intenso e prolongado”. Por outro lado, também são as que mais procuram apoio médico dentro destes contextos.

Apesar dos desafios que o seu diagnóstico pode apresentar, atualmente é possível um diagnóstico mais preciso, sobretudo no que diz respeito à patologia crónica “e sem benefício com o tratamento convencional”.

Ainda que estes casos não sejam fáceis de prevenir, a especialista alerta para os cuidados a ter com a saúde vocal de um modo global. “A prevenção é a melhor estratégia e o diagnóstico precoce a melhor arma para preservar a voz e melhorar o prognóstico”, afirma deixando algumas das principais recomendações:

Evite o uso vocal intenso e prolongado, ou seja não fale muito alto ou durante períodos prolongados, principalmente em ambiente ruidoso.

Fale pausadamente e articule bem as palavras, permitindo-se fazer alguns momentos de repouso para descansar a voz. Outra medida preventiva importante é não fumar e evitar frequentar ambientes de fumo.

A redução da ingestão de álcool, café, chá e bebidas com gás traz ainda benefícios quanto à preservação da saúde vocal, devendo apostar numa alimentação saudável.

As mudanças bruscas de temperatura ou a utilização de espaços com pó, cheiros intensos ou ar condicionado também são de evitar se quer manter a voz saudável. 

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
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