Artigo de Opinião

Reflexões a propósito do Dia Mundial da Saúde Sexual

O Dia Mundial da Saúde Sexual instituído, desde 2010, pela Associação Mundial para a Saúde Sexual (World Association for Sexual Health – WAS), assinalado anualmente a 4 de Setembro, tem como objetivo alertar para as questões da saúde sexual e dos direitos humanos no campo da sexualidade.

Várias questões podem ser levantadas nesta área tão sensível e em que muito falta fazer, destas começo por salientar os temas tabu na esfera sexual, os mitos e os preconceitos quer de ordem religiosa quer socio-culturais, sendo necessário e urgente mudar o paradigma.

Num passado muito recente, e exemplo destes preconceitos inaceitáveis, relembro a notícia divulgada nos vários meios de comunicação e que transcrevo a que foi publicada no Jornal Publico: “Portugal foi condenado pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem por causa da controversa sentença que reduziu a indemnização de uma vítima de negligência médica, com base no pressuposto de a atividade sexual depois dos 50 anos já não ser assim tão importante para as mulheres.”

O direito à educação sexual, a viver a sexualidade sem discriminação do sexo, orientação sexual, doença ou deficiência e sem “limite” de idade deve ser universal e transversal.

A correta informação e interação em torno da saúde e direitos sexuais deve passar pelo estreitamento da comunicação entre público em geral, media, sociedades científicas e profissionais de saúde provenientes das mais distintas áreas, de modo a sensibilizar para a persistência de vários fatores lesivos da saúde e cidadania sexual.

Outra questão prende-se com o acesso a cuidados de saúde na área da medicina sexual no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, quer nos cuidados primários (Centros de Saúde) quer nos Centros Hospitalares, os quais são escassos ou mesmo inexistentes, limitando e condicionando a procura.

A ausência de comparticipação na maioria das consultas, nos exames auxiliares de diagnóstico, nas terapêuticas (médicas ou cirúrgicas) é uma das causas da não procura de consultas ou aconselhamento, do abandono de terapêuticas ou mesmo do seu início, devido ao preço proibitivo para a maioria da população.

Uma última questão é a informação disponibilizada pela Internet, e que é, sem dúvida, inquietante, pois permite o anonimato, está disponível 24 horas por dia e não requer qualquer interação pessoal. A recolha de informação na rede não obriga a assumir um problema perante outro ser humano, seja ele parceiro sexual ou profissional de saúde, e ao não o assumir, não se torna real.

Na Internet não há vergonha ou exposição, mas também não há regulação, sendo estas revelações preocupantes, pois sabemos que os riscos que a navegação cibernética descontrolada pode trazer a (des)informação, assim como o acesso e consumo de  “medicamentos” contrafeitos  com elevado risco para a saúde.  

No momento atual compete-nos motivar as estruturas de saúde a melhorar as condições de acesso, promover a formação e especialização de profissionais na área da medicina sexual de modo a que esta não seja desvalorizada e criar as pontes necessárias entre os vários profissionais de saúde permitindo promover a saúde sexual como parte integrante da saúde global.

O próprio Estado, que deveria ter um papel protecionista, falha quando se esquece do real valor social e económico de uma boa saúde sexual e como consequência uma boa saúde global pelo que é urgente reverter esta situação.

Não podemos esquecer, nomeadamente num pais em crise, que a saúde é o motor da economia e que sem saúde não há economia que resista nem crescimento sustentado.

Dr. Augusto José Pepe Cardoso

Urologista - Andrologista
Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, EPE
Clinica de St.º António; SA (Grupo Lusíadas)
Presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução (SPA)
Membro do Conselho Consultivo da Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução (SPA)
Membro do Comité Executivo da Sociedade Europeia de Medicina Sexual (ESSM)
Membro do Conselho Consultivo da Associação Ibero-americana de Sociedades de Andrologia (ANDRO)

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.