Perturbação psiquiátrica

A pessoa com esquizofrenia e a família

Uma em cada quatro pessoas poderá ser afetada ao longo do seu percurso de vida por um problema de saúde mental, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (2001).

Estudos realizados nos últimos 15 anos provam que as perturbações psiquiátricas tornaram-se a principal causa de incapacidade e uma das principais causas de morbilidade nas sociedades atuais. Das 10 principais causas de incapacidade, cinco são perturbações psiquiátricas (Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental, 2007).

Entre as doenças mentais que provocam maior deterioração da personalidade, das capacidades e funcionamento encontra-se a esquizofrenia.

A esquizofrenia é uma doença mental crónica, de alta prevalência, afetando 1% da população ao longo da vida. Compromete enormemente a capacidade produtiva e social dos indivíduos e causa enorme impacto nas suas famílias. É uma doença mental muito incapacitante, porque tem o seu início normalmente no final da adolescência ou início da idade adulta, caracterizando-se por alterações relevantes no pensamento e comportamento da pessoa doente.

O delírio, de diversas formas
Um doente com esquizofrenia pode apresentar vários sintomas da doença, em que alguns se caracterizam por perda da noção da realidade. O doente pode criar uma realidade fantasiosa, na qual acredita plenamente a ponto de duvidar da realidade do mundo e das pessoas ao seu redor. É o que chamamos de delíio. O delírio pode ter diversas temáticas. As mais comuns são a idéia de estar a ser perseguido por alguém, de ser observado ou de que as pessoas falam dele ou sabem de tudo que se passa na sua vida. Outras idéias fantasiosas, como religiosas, de culpa, de ciúme ou de grandeza também podem ocorrer.

Outro sintoma igualmente importante é a alucinação. A pessoa pode ouvir ou ver coisas que não existem ou não estão presentes, como escutar vozes dialogando entre si ou se referindo à própria pessoa, insultando-a ou ordenando que faça algo.

Assim como no delírio, o doente não tem nenhum controle sobre as alucinações.

Também na esquizofrenia o doente pode apresentar falta de vontade e de iniciativa em iniciar algumas atividades da vida quotidiana, o que não deve ser visto pelos familiares como sinal de preguiça ou má vontade.

Familiares devem procurar entender o doente
É importante que os familiares procurem compreender o doente, com as suas diferenças e limitações e estejam informados em que consiste esta doença que se chama esquizofrenia, porque as orientações políticas e de saúde vão no sentido de se manterem os doentes mentais na comunidade, o que realça a importância da família no cuidar do doente no domicílio.

Contudo, verifica-se que as necessidades das famílias associadas à tarefa do cuidar continuam a merecer pouca atenção por parte dos profissionais de saúde. Neste contexto, o enfermeiro tem um papel primordial na intervenção com a família, podendo começar logo no internamento reunindo o familiar para saber quais as suas dificuldades no ato de cuidar e que informação tem acerca da doença. Para dar resposta às dificuldades e necessidades da família os enfermeiros estão a desenvolver intervenções familiares, nomeadamente sessões de psicoeducação, que têm como principal objetivo: informar a família acerca da doença e da forma como lidar com o doente; reduzir os níveis de stress do ambiente familiar e melhorar os padrões de comunicação na família e as estratégias de coping (Organização Mundial de Saúde, 2002).

O enfermeiro desta forma capacita a família de competências para oferecer bons cuidados ao seu familiar no domicílio, ficando a conhecer a vivência com a pessoa de quem cuida.

Falta informação à família sobre a doença
Como enfermeira trabalho na área da psiquiatria no internamento, e verifiquei que os cuidadores informais/família têm falta de informação acerca da doença do seu familiar e dificuldades na forma como lidar com ele. Para colmatar essas dificuldades desenvolvo atividades com a família, nomeadamente as sessões de psicoeducação.

Estas sessões desenvolvidas com a família são realizadas também com o propósito de esta perceber que assume um papel primordial na prestação de cuidados à pessoa com esquizofrenia e que o processo de cuidar é muito mais do que a alimentação, a higiene, a mobilidade e a administração da medicação. É também estar alerta acerca dos sinais de recaída do doente (alterações no comportamento e pensamento do doente). Para evitar as recaídas a família deve saber lidar com o comportamento do doente e reconhecer quando o está a precisar da sua ajuda e da dos profissionais, conhecendo possíveis fatores desencadeantes de anteriores recaídas e também informações acerca da doença.

Estudos têm demonstrado que os cuidadores informais muitas vezes não sabem como resolver os problemas por desconhecerem a doença mental. Torna-se fundamental que as famílias sejam perspetivadas nas suas singularidades e, como tal, necessitam de ser ouvidas para receberem o apoio adequado.

Apesar do contexto socioeconómico em que vivemos é importante que não haja a destruturação da família, porque segundo estudos ainda são na maioria dos casos os familiares diretos que apoiam estes doentes, assumindo desta forma o papel de cuidadores informais (cuidador não profissional de saúde).

Cuidadores informais pouco valorizados pelos profissionais de saúde
Os cuidadores informais destes doentes passam por várias dificuldades que muitas vezes não são valorizadas pelos profissionais de saúde. Cuidar de um doente mental é algumas vezes dificultado pelas características da esquizofrenia, que em muitos casos o doente recusa admiti-la, tem uma postura negativa face ao seu tratamento, abandonando-o.

O tratamento principal da esquizofrenia passa pela toma da medicação, contudo a adesão ao tratamento é um das principais obstáculos e está intimamente ligado às recaídas. A questão dos efeitos secundários é uma dificuldade para muitos doentes com esquizofrenia e demarca muitas vezes a não adesão ao tratamento.

O empenhamento apropriado das famílias é de facto de extrema importância para a evolução mais favorável da doença. O ambiente social e emocional dentro da família está claramente correlacionado com as recaídas na esquizofrenia.

Marisa Rodrigues, Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Referências Bibliográficas
COMISSÃO NACIONAL PARA A REESTRUTURAÇÃO DOS SERVIÇOS DE SAÚDE MENTAL – Relatório, proposta de plano de ação para a reestruturação e desenvolvimento dos serviços de saúde mental em Portugal 2007/2016. Ministério da Saúde, 2007. p. 84-85.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE - Relatório mundial da saúde 2001- saúde mental: nova compreensão, nova esperança. Lisboa:1ª ed. Direção Geral de Saúde. 2002. ISBN 972-675-082-2.

Nota: 
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