Dia Mundial da Surdez – 25 de Setembro

Os cuidados audiológicos

Atualizado: 
26/09/2016 - 11:43
Para assinalar o dia Mundial da Surdez, Luísa Monteiro, especialista em Otorrinolaringologia, escreve sobre a importância dos rastreios auditivos e dos cuidados audiológicos em todas as idades.

25 de Setembro, sala de espera da consulta. Crianças brincam ruidosamente no playground, um adolescente ouve música do iphone, um casal já idoso, ela invisual, chegam acompanhados da netinha de 3 anos. Nada de especial, mais um dia de rotina…

Felizmente, atualmente, este cenário é comum em consultas de Otorrinolaringologia especializadas, então o que torna este digno de relato?

É que as crianças, o adolescente e a idosa são surdos. Não se percebe se não estivermos atentos, comunicam entre si e com o mundo à sua volta através da fala, estão integrados no maravilhoso mundo dos sons, da oralidade e, alguns, da música e hoje é dia mundial dos surdos, para que eles sejam ouvidos.

No nosso país existem meios técnicos e recursos humanos que nos permitem estender o rastreio auditivo a todos os cerca de 80 000 cidadãos recém-nascidos que anualmente vêm enriquecer as nossas famílias e a nossa sociedade. Porque nos preocupamos com o rastreio iniciado na primeira semana de vida? Sabemos que 2 em cada 1000 recém-nascidos vão ter algum grau de deficiência auditiva sem que haja nenhum sinal de alarme reconhecido, que entre 1 a 4 em cada 100 bebés com fatores de risco (família onde há surdez, grande prematuridade, muito baixo peso ou que sobreviveram a infeções graves) vão também precisar de ajuda.

Quanto mais cedo diagnosticarmos e caracterizarmos a surdez e iniciarmos a estimulação auditiva com ajudas técnicas adequadas (próteses auditivas convencionais ou implantes cocleares) e terapia da fala, mais cedo o cérebro é exposto aos complexos sinais da fala, maior será o progresso cognitivo e comunicativo desta criança.

O rastreio de recém-nascidos é apenas o primeiro meio. No entanto, a surdez pode surgir mais tarde durante a infância, ou por motivos genéticos, doenças infeciosas, sobretudo a meningite, ou até por traumatismos cranianos.

Antes de iniciar a escolaridade, há necessidade de rastrear dificuldades auditivas, geralmente menos intensas, que possam ter passado despercebidas e que irão influenciar negativamente a normal progressão académica.

Em alguns jovens e adultos podem manifestar-se quadros de surdez tardia e progressiva que dificultam o dia a dia. 

Por vezes a amplificação com próteses auditivas não é suficiente e terá de se propor uma solução cirúrgica adequada a cada caso e a cada patologia, envolvendo cirurgia do ouvido médio (otosclerose, sequelas de otites crónicas), ou do ouvido interno, com utilização de próteses implantáveis, implantes osteointegrados ou implantes cocleares).

Quase sempre excluídos desta reabilitação cirúrgica são as pessoas idosas. Erradamente é aceite pela comunidade e pelas famílias que a perda auditiva que surge com a idade é uma fatalidade e que o idoso se terá de conformar. Temos ao nosso dispor opções protéticas que muitas vezes melhoram a audição, permitem a conversação, ouvir música e ver e ouvir televisão e o telefone. Quando estas soluções se tornam manifestamente insuficientes, os séniores deverão ser encaminhados para programas de implante cocleares, a idade não é e não deverá ser uma contraindicação.

O envelhecimento saudável e ativo pressupõe boas capacidades comunicativas, boa visão, boa mobilidade e o controlo de eventuais doenças crónicas.

Numa sociedade em que a esperança de vida aumenta, preocupa-nos a qualidade de vida que os idosos têm.

Sabemos hoje que a deficiência auditiva não compensada é um fator importante que contribui para precoces abandonos de atividades produtivas e mais bem remuneradas, isolamento familiar e social, depressão e demência.

Temos necessidade de estender os cuidados audiológicos a toda a população, rastreio das crianças, vacinação contra a meningite, despiste de doenças infeciosas na gravidez, aconselhamento e acompanhamento (eficaz) dos profissionais sujeitos a ruído traumático e claramente definido na legislação laboral.

Ajudar os jovens e os adolescentes a fazer boas escolhas, moderando a exposição a sons muito intensos e prolongados nas suas atividades recreativas.

Temos de dotar as nossas escolas de meios humanos e técnicos para acolher com sucesso as crianças surdas que todos os anos ingressam na escolaridade obrigatória e progressivamente vão atingindo os graus superiores de ensino. O mundo do trabalho será enriquecido por estes futuros profissionais, integrados, preparados e combativos.

Os cuidados auditivos terão também que ser integrados na abordagem holística do indivíduo sénior, muitos sintomas de isolamento e depressão poderão ser prevenidos e tratados cuidando das suas capacidades comunicativas e de interação familiar e social.

Os locais públicos, serviços da administração pública, empresas com atendimento ao público, escolas, transportes e salas de espetáculos deverão ser providas de ajudas técnicas que permitam à pessoa com dificuldades auditivas comunicar nas melhores condições; a acessibilidade não pode ser apenas física, terá de ser também sensorial.

Alguns destes passos já foram dados, muito trabalho de preparação técnica dos profissionais e divulgação entre a sociedade foi já feito; há necessidade de investimento público em infraestruturas, apoio financeiro na aquisição e manutenção de ajudas técnicas indispensáveis para os portadores de deficiência auditiva, nomeadamente de próteses auditivas e implantes.

Ouvir melhor não é um luxo, as ajudas técnicas à audição não são um acessório de moda; são um investimento inacessível a famílias com menos proventos e ou não são comparticipadas ou o são de uma forma insuficiente, sem este tipo de apoio, os pacientes típicos das nossa salas de espera não teriam o comportamento “banal” e integrado que atualmente apresentam.

A surdez é silenciosa, vamos dar-lhe voz!

Autor: 
Luísa Monteiro - Coordenadora da Unidade de Otorrinolaringologia Hospital Lusíadas Lisboa
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
ShutterStock