Opinião

O tratamento do AVC: onde estamos e para onde vamos?

Abordar a temática do tratamento do AVC impõe que antecipadamente se clarifiquem conceitos. Assim, vigiar e tratar os fatores de risco vascular em indivíduos sem patologia vascular cerebral conhecida (hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia, fibrilhação auricular, entre outros) são medidas que se inscrevem no que tradicionalmente se designa prevenção primária; vigiar e tratar os mesmos fatores de risco vascular após ter ocorrido o AVC fazem parte das regras de atuação que classicamente se assume designar de prevenção secundária. Entre ambos se situa o tratamento do AVC na sua fase aguda, que nos anos mais recentes sofreu felizmente uma melhoria muito relevante sendo, por isso, o principal enfoque deste breve texto.

Tratar o doente com AVC agudo impõe dois pressupostos que se complementam: o do tratamento propriamente dito - que no caso do AVC isquémico inclui as terapêuticas de reperfusão química, disponível em grande parte dos hospitais que tratam doentes com AVC, e a mecânica, apenas assegurada pelos hospitais mais diferenciados – e o de um modelo organizacional que o suporte. Em Portugal foi instituída em boa hora a Via Verde do AVC, de particular relevância dado que permite, uma vez contactado o 112, orientar o doente o mais rapidamente possível para o hospital que o possa tratar adequadamente.

Tempo é cérebro é uma frase que nunca é de mais repetir uma vez que quanto mais precocemente for possível recanalizar o vaso ocluído, maior será a probabilidade de o doente recuperar das graves limitações com que potencialmente pode ficar.

Aqui estamos. E para onde vamos? Não é fácil dizer. Contudo, várias outras modalidades de atuação terapêutica têm vindo a tentar demonstrar o seu benefício clínico. Elencarei as que julgo terem maior probabilidade de virem a revelar-se úteis, apesar de ambiciosas: a implementação de uma rede de ambulâncias com TAC incorporada e equipas médicas diferenciadas, o que permitiria antecipar o diagnóstico e definir a melhor estratégia de tratamento (que passaria a ter início na própria ambulância) e orientação do doente; a institucionalização da telemedicina como ferramenta indispensável para colocar em diálogo os profissionais dos diferentes hospitais que avaliam o doente com suspeita de AVC e, de igual modo, os profissionais do pré e intra-hospitalar. E é possível que outros medicamentos possam surgir para proteger o cérebro em sofrimento e evitar o seu edema potencialmente fatal.

Face aos avanços da medicina, neste como noutros domínios, cada vez mais se exige organização e o recurso às novas tecnologias no apoio à decisão.

Mas, como em tudo na vida, a palavra que antecipa o tratamento emerge como a mais importante. E essa chama-se prevenção.

Dr. Gustavo Santo - médico neurologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e membro da Sociedade Portuguesa do AVC

Nota: 
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