O que são?

Interacções medicamentosas

O problema das interacções farmacológicas é, hoje, e será cada vez mais, uma importante questão para quem, tem de prescrever medicamentos e/ou para aqueles que fazem determinada medicação.

Define-se por interacção medicamentosa o evento clínico em que os efeitos de um fármaco são alterados pela presença de outro fármaco, alimento, bebida ou algum agente químico ambiental. Trata-se de uma forma/causa comum do aparecimento de efeitos adversos e o resultado pode ser o aumento ou a diminuição do efeito de um ou de ambos os fármacos ou, até, o aparecimento de um novo efeito que nenhum dos fármacos sozinho era capaz de produzir. Por exemplo, quando dois medicamentos são administrados, concomitantemente, a um doente, eles podem agir de forma independente ou interagirem entre si, com aumento ou diminuição de efeito terapêutico ou tóxico de um ou de outro.

Assim, o desfecho de uma interacção medicamentosa pode ser perigoso quando promove aumento da toxicidade de um fármaco. Por exemplo, os doentes que fazem uso de varfarina (anticoagulante) podem ter hemorragias sanguíneas se passarem a usar um anti-inflamatório não-esteróide (AINE) sem reduzir a dose do anticoagulante.

A incidência de problemas é, habitualmente, mais alta nos idosos porque a idade afecta o funcionamento dos rins e fígado, de modo que, muitos fármacos são eliminados muito mais lentamente do organismo, mas também porque é uma população multimedicada para diferentes doenças.

Algumas vezes, a interacção medicamentosa reduz a eficácia de um fármaco, podendo ser tão nociva quanto o aumento. Por exemplo, a tetraciclina (um antibiótico) sofre um efeito quelante por antiácidos e alimentos lácteos, sendo excretada nas fezes, sem produzir o efeito antimicrobiano desejado. Por outro lado, há interacções que podem ser benéficas e muito úteis, como na co-prescrição deliberada de anti-hipertensivos e diuréticos, em que esses aumentam o efeito dos primeiros por diminuírem a pseudotolerância dos primeiros.

Classificação das interacções medicamentosas
As interacções farmacocinéticas são aquelas em que um fármaco altera a velocidade ou a extensão de absorção, distribuição, biotransformação ou excreção de outro fármaco. Isto é mais comummente medido através da mudança em um ou mais parâmetros como a concentração sérica máxima, a concentração-tempo, a quantidade total do fármaco excretado na urina etc.

Contudo dentro de um mesmo grupo farmacológico, os medicamentos possuem perfis farmacocinéticos diferentes, logo as interacções podem ocorrer com um fármaco e não obrigatoriamente com outro congénere.

As interacções farmacocinéticas podem ocorrer pelos mecanismos:

Na absorção

• Alteração no pH gastrointestinal.

• Alteração na motilidade gastrointestinal.

• Má absorção causada por fármacos.

Na distribuição

• Competição na ligação a proteínas plasmáticas.

• Hemodiluição com diminuição de proteínas plasmáticas.

Na biotransformação

• Indução enzimática (elevação dos níveis de enzimas)

• Inibição enzimática (quando a actividade enzimática se altera)

Na excreção

• Alteração no pH urinário.

• Alteração na excreção activa tubular renal.

. Alteração no fluxo sanguíneo renal.

• Alteração na excreção biliar e ciclo êntero-hepático.

Interpretação e intervenção
É frequentemente difícil detectar uma interacção medicamentosa, sobretudo pela variabilidade observada entre doentes. Não se sabe muito sobre os factores de predisposição e de protecção que determinam se uma interacção ocorre ou não, mas na prática ainda é muito difícil predizer o que acontecerá quando um doente individual faz uso de dois fármacos que potencialmente interagem entre si.

Uma solução para esse problema prático é seleccionar um fármaco que não produza interacção (ex: substituição de cimetidina por outro antagonista H2), contudo, se não houver esta alternativa, é frequentemente possível administrar os medicamentos que interagem entre si sob cuidados apropriados. Se os efeitos são bem monitorizados, muitas vezes a associação pode ser viabilizada pelo simples ajuste de doses. É que muitas interacções são dependentes de dose, nesses casos, a dose do medicamento indutor da interacção poderá ser reduzida para que o efeito sobre o outro medicamento seja minimizado.

A incidência de reacções adversas causadas por interacções medicamentosas é desconhecida. Em muitas situações, em que são administrados medicamentos que interagem entre si, os doentes necessitam apenas de serem monitorizados com o conhecimento dos potenciais problemas causados pela interacção. O médico deve estar informado sobre combinações potencialmente perigosas de medicamentos (clinicamente significativas) e o doente pode ser alertado para observar sinais e sintomas que denotem um efeito adverso.

É que não é possível distinguir claramente quem irá ou não apresentar uma interacção medicamentosa adversa. Possivelmente, doentes com múltiplas doenças, com disfunção renal ou hepática e aqueles que fazem uso de muitos medicamentos são os mais susceptíveis. A população idosa, frequentemente, enquadra-se nesta descrição, portanto, muitos dos casos relatados envolvem indivíduos idosos a tomar vários medicamentos. Por outro lado, as alterações fisiológicas individuais causadas por factores como idade e género, também influenciam a predisposição a reacções adversas a medicamentos, resultantes de interacções medicamentosas. Por isso, uma interacção conhecida não necessariamente ocorrerá na mesma intensidade em todos os indivíduos.

Efeito dos alimentos sobre a absorção de medicamentos
Existem alguns alimentos que atrasam o esvaziamento gástrico e reduzem a taxa de absorção de muitos fármacos. Contudo, alguns fármacos são preferencialmente administrados com alimentos, seja para aumentar a absorção ou para diminuir o efeito irritante sobre o estômago.

Por outro lado, também existem alimentos que alteram, anulam ou intensificam o efeito dos medicamentos. Segundo vários estudos, o número de fármacos que podem ter graves efeitos adversos devido à sua interacção com a toranja está a aumentar. Contudo, muitos médicos poderão ainda não estar conscientes destes efeitos, revela um estudo publicado no Canadian Medical Association Journal.

O investigador do Lawson Health Research Institute, no Reino Unido, acrescentou que entre 2008 e 2012 o número de fármacos que interagiu com a toranja e que poderão causar efeitos adversos graves aumentou de 17 para 43, o que representa, em média, uma taxa de aumento de seis fármacos por ano.

O estudo refere que os efeitos adversos incluem morte súbita, insuficiência renal e respiratória, hemorragia gastrointestinal, supressão da medula óssea nos indivíduos imunodeprimidos, toxicidade renal, entre outros.

Os investigadores revelaram que há mais de 85 fármacos que podem interagir com a toranja e 43 podem ter efeitos secundários graves. Outros citrinos como o marmelo ou a lima também têm compostos activos, as furanocumarinas. Estes compostos causam interacção através da inibição irreversível da enzima CYP3A4 que metaboliza os fármacos e que habitualmente desactiva os efeitos de cerca de 50% dos medicamentos.

Os fármacos que interagem com estes produtos químicos apresentam três características: são administrados por via oral, têm uma biodisponibilidade baixa a intermédia e são metabolizados no trato gastrointestinal pela enzima CYP3A4.

O estudo refere ainda que para os fármacos com baixa biodisponibilidade, a ingestão de toranja pode ser o equivalente ao consumo de múltiplas doses de fármaco. Esta interacção pode ocorrer mesmo que a toranja seja consumida várias horas antes da toma do fármaco.

Os indivíduos com mais de 45 anos são os que habitualmente consomem mais toranjas e o que tomam mais medicamentos, o que, nestes casos, torna a interacção bastante provável de ocorrer. Adicionalmente, os adultos podem apresentar uma menor capacidade de tolerar excessivas concentrações sistémicas de fármacos. Desta forma, os idosos são especialmente vulneráveis a estas interacções.

Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico e/ou Farmacêutico.
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