9 em cada 10 pessoas desconhecem esta condição

Há mais de dois milhões de pré-diabéticos em Portugal

Em Portugal um quinto dos portugueses, entre os 25 e os 74 anos, apresenta níveis de glicose no sangue acima do recomendado e do que é considerado saudável, tendo um risco aumentado para o desenvolvimento de Diabetes. São pré-diabéticos e 9 em cada 10 desconhecem esta condição. Em vésperas de se assinalar o Dia Mundial da Diabetes, o Atlas da Saúde esteve à conversa com Rita Nortadas, internista do Hospital Garcia de Orta, para lhe dar a conhecer as causas, os sinais e os cuidados a ter para não ser um dos mais de dois milhões de portugueses em risco.

Estima-se que, em Portugal, mais de 2 milhões de pessoas sofrem de pré-diabetes. Como se caracteriza esta situação clínica e qual o seu impacto na sociedade (sobretudo a nível económico)?

A Diabetes foi considerada pela Organização Mundial de Saúde como a pandemia do século XXI, sendo Portugal considerado um dos países mais problemáticos a nível da Europa. A Diabetes é uma doença crónica e progressiva, cuja prevalência tende a aumentar com a idade e com o estilo de vida atual, e que graças às suas complicações, pode ter consequências graves quer a nível individual quer a nível de impacto socioeconómico.

A pré-diabetes é a condição clínica que antecede o diagnóstico de diabetes e que normalmente ao fim de algum tempo evolui para a diabetes, caso não sejam adotadas medidas que o evitem.

Quais as causas da pré-diabetes e quem apresenta maior risco de sofrer desta condição?

O risco de desenvolver pré-diabetes ou de progredir para a diabetes aumenta com a idade e com o excesso de peso; é mais prevalente nos indivíduos com antecedentes familiares de diabetes, hipertensão arterial e/ou dislipidemia. No caso das mulheres, têm maior risco as que têm ou tiveram história de diabetes gestacional, ou seja, durante a gravidez.

Tendo em conta estes aspetos, é de realçar a importância do controlo dos fatores de risco cardiovasculares na população geral como o sobrepeso ou a obesidade, a hipertensão e níveis elevados de colesterol, visto estarem associados a uma maior incidência de diabetes. Também as pessoas com história familiar conhecida de diabetes ou com diabetes durante a gravidez, devem ter um especial cuidado e fazer os rastreios necessários segundo aconselhamento do seu médico.

Uma vez que falamos de diagnóstico, quais os principais sinais ou sintomas desta situação clínica? Como podemos saber se somos pré-diabéticos?

Algumas pessoas com diabetes podem ter sintomas como sede, aumento da diurese, fome e perda de peso, que sobretudo acontece na diabetes tipo 1 e que é o tipo de diabetes mais frequente nas crianças e nos jovens. No entanto na maioria dos casos da população adulta, não existem sintomas, sendo a pré-diabetes e a diabetes diagnosticada nas análises de rotina, daí a importância de fazer exames médicos mesmo na ausência de sintomas sobretudo nas pessoas de maior risco.  

A pré-diabetes tem tratamento? Em que consiste?

Tratar a pré-diabetes diminui a evolução para a diabetes; passa maioritariamente por modificar o estilo de vida, nomeadamente alterando os cuidados ao nível da dieta e da atividade física; no entanto existem algumas situações em que pode estar indicado tratamento farmacológico.

No que diz respeito à sua prevenção, quais os principais cuidados a ter? Uma vez adquirida esta condição, quais as mudanças de vida mais importantes a fazer?

Podemos prevenir a diabetes prestando atenção ao estilo de vida, adotando hábitos de alimentação mais saudáveis, aumentando a prática do exercício físico regular e controlando os restantes fatores de risco como a obesidade, a hipertensão arterial e a dislipidemia. São modificações que devem ser feitas o mais precocemente possível na vida de qualquer individuo e hábitos que devem ser instituídos desde a infância, daí a relevância que este tema tem atualmente ao nível da saúde escolar.

Não obstante a sua importância, o que justifica o facto de 9 em cada 10 pessoas com pré-diabetes desconhecerem esta condição?

Só recentemente o conceito de diabetes entrou no léxico da população geral, como patologia que pode aparecer na idade adulta, que nem sempre está associada ao uso de insulina e que frequentemente conduz a complicações graves mas que podem ser evitadas. Neste contexto, a noção de pré-diabetes está ainda pouco divulgada. É fundamental o papel do médico como educador para, quer através dos meios de comunicação quer na própria consulta, dar a conhecer o que é a pré-diabetes junto da comunidade e o que pode ser feito para evitar a sua progressão.

Qual o papel do médico assistente no diagnóstico? Será que estamos todos – e quando digo todos, refiro-me não só ao cidadão comum, como também aos profissionais de saúde – devidamente sensibilizados para esta condição?

Tal como já referido, o papel do médico é fundamental, não apenas como profissional de saúde que pode ter um papel ativo para evitar o aparecimento da pré-diabetes como também como responsável de comunicar o seu diagnóstico, com a merecida sensibilização necessária de que em muitas destas situações é possível a regressão da doença caso se façam esforços nesse sentido.

Neste sentido, e uma vez que estamos a um dia de assinalar o Dia Mundial da Diabetes, que mensagem gostaria de deixar no âmbito desta temática?

O lema da IDF para o Dia Mundial da Diabetes deste ano é “a Diabetes e a Família” e isto reflete bem o papel da família na abordagem da pessoa com diabetes como também na prevenção da doença. Perante a importância desta mensagem, o Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna está a promover o “Dia Sem Açúcar” e estimular as famílias portuguesas a passar um dia sem consumir açúcar, como medida de chamada de atenção para a problemática da Diabetes. Esta educação deve ser feita desde a infância onde a obesidade tem vindo a adquirir grandes proporções, mas não deve ser descurada na idade adulta, sobretudo no adulto jovem e restante população ativa. Só se levarmos a cabo medidas de prevenção e estratégias de diagnóstico precoce, conseguimos parar o crescimento desta patologia na nossa população e evitar as complicações que dela advêm e o impacto socioeconómico consequente.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.