Perturbações do ritmo cardíaco

Fibrilhação Auricular e o risco de AVC

O Acidente Vascular Cerebral é uma das principais causas de morte em Portugal. Responsável por incapacidade permanente em metade dos sobreviventes, tem associados alguns fatores de risco, como a hipertensão, diabetes ou hipercolesterolemia. No entanto, sabe-se que a Fibrilhação Auricular – uma arritmia, muito frequente em idades mais avançadas - aumenta cinco vezes o risco de AVC e duplica o número de mortes.

“O Acidente Vascular Cerebral, também conhecido por «trombose» é um grave problema de saúde pública em Portugal, atingindo taxas que colocam o país nos lugares cimeiros da Europa”, começa por dizer Victor Gil, coordenador do serviço de Cardiologia do Hospital Lusíadas, em Lisboa.

De acordo com os dados disponíveis, a taxa de mortalidade em Portugal situa-se nas 200 mortes por cada cem mil habitantes. E  estima-se que, em todo o mundo, afete cerca de seis milhões de pessoas.

“Além disso, (o AVC) é responsável pelo internamento de mais de 25 mil doentes por ano e por provocar incapacidade permanente em 50 por cento dos sobreviventes”, acrescenta o especialista.

Perda de fala, visão, de coordenação ou de compreensão, bem como diminuição da força ou paralisia muscular dos membros (inferiores ou superiores) são algumas das suas consequências mais graves, e que dependem do tipo de AVC, da localização da artéria afetada, da área cerebral lesionada, do estado de saúde e de atividade antes do Acidente Vascular Cerebral.

“Embora se possa dever a uma hemorragia, na maior parte dos casos o AVC deve-se a uma oclusão duma artéria responsável pela irrigação duma determinada zona do cérebro, quer pela formação dum coágulo local – “trombo”, daí a designação trombose – quer pelo deslocamento de um coágulo formado nas carótidas, localizadas no pescoço, ou mesmo no coração – êmbolo”, explica Victor Gil.

“Privadas de circulação que assegura o oxigénio e nutrientes necessários para se manterem vivas, as células cerebrais irrigadas pela artéria que ocluiu morrem, com correspondente perda da função que comandavam. Por exemplo, se eram relacionadas com o controlo da fala, o doente perde essa função”, justifica o cardiologista.

Hipertensão, diabetes, hipercolesterolemia, tabagismo, obesidade estão entre os principais fatores de risco.

“É do conhecimento geral, a associação entre alguns fatores como a hipertensão, a diabetes mas também o colesterol elevado e o tabaco ao risco de AVC. E, de facto, a elevada prevalência de hipertensão no país, bem como o seu incompleto controlo, na maior parte dos casos, é um problema de maior importância”, afirma o coordenador do serviço de Cardiologia do Hospital Lusíadas, que apela para a mobilização dos profissionais de saúde e da sociedade, em geral, para esta matéria, através da promoção de hábitos de vida saudável “com destaque para a diminuição do consumo de sal”, por exemplo.

“Do mesmo modo, o tratamento do colesterol elevado com dieta e fármacos, a abstenção de fumar e a prática regular de exercício físico são recomendações que nunca são demais lembrar”, acrescenta.

Muito embora, sabe-se que um em cada cinco AVC têm outra causa “dita tromboembólica , a partir de coágulos que se formam no coração e que se deslocam pela corrente sanguínea até entupir uma artéria do cérebro”.

“Embora possa relacionar-se com determinadas doenças cardíacas das válvulas ou mesmo do músculo cardíaco, a causa mais frequente é a ocorrência de uma arritmia, que se designa por Fibrilhação Auricular”, revela o especialista.

A fibrilhação auricular é uma das perturbações do ritmo cardíaco mais frequentes que afeta quatro em cada 100 indíviduos, com mais de 65 anos.

Tratando-se de um distúrbio da frequência e do ritmo cardíaco, caracterizada pela contração rápida e descoordenada das câmaras superiores (aurículas) e inferiores (ventrículos) do coração, pode gerar a descompensação do funcionamento de alguns orgãos importantes, bem como facilitar a formação de coágulos.

“O que se passa nessa arritmia é que as aurículas (câmaras cardíacas que recebem o sangue do corpo e dos pulmões para o injetarem nos ventrículos que depois bombeiam para pulmões e corpo) perdem a sua capacidade de contrair e ficam a «tremer» anarquicamente e com muita rapidez, ao passo que os ventrículos contraem de forma arrítmica, ou desencontrada, e geralmente rápida. O sangue fica «parado» nas aurículas o que pode facilitar a formação de coágulos”, explica o Professor Victor Gil.

Apesar de poder atingir tanto homens como mulheres, e ocorrer em qualquer idade, atinge, com maior frequência, as pessoas mais idosas.

Estima-se, aliás, que afete entre 1 a 2 por cento de toda a população, podendo esta percentagem aumentar para os 10 por cento aos 80 anos.

“A Fibrilhação Auricular aumenta cinco vezes o risco de AVC e nos doentes com fibrilhação auricular que sofrem AVC o risco de morte duplica”, revela o cardiologista.

Os sintomas mais comuns são a sensação de batimentos cardíacos descoordenados, vulgamente conhecidos por palpitações, e pulsação rápida e irregular, como períodos de aceleração e desaceleração do seu ritmo.

Esta arritmia está ainda muitas vezes associada a falta de ar, desmaios, cansaço, confusão ou sensação de aperto no peito.

“A fibrilhação auricular pode aparecer só ocasionalmente ou ser permanente, sendo o risco de AVC igual em ambas. Não obstante, este risco pode ser minimizado se o doente for tratado com fármacos que contrariam a formação de coágulos”, adianta Victor Gil.

No entanto, nem todos os casos necessitam de terapêutica com anticoagulantes e os restantes sintomas  podem também ser tratados.

“Existem fármacos que conseguem evitar o seu aparecimento nalguns casos, e outras técnicas que podem estar indicadas em casos refractários. Entre elas, a «ablação» é efetuada em centros especializados e consiste em «queimar», com aplicação localizada de energia através de catéteres introduzidos na virilha, zonas das veias pulmonares geralmente relacionadas com os circuitos elétricos que dão origem à arritmia”,  explica o cardiologista.

“Existem também dispositivos também introduzidos sem cirurgia, por picada na virilha, que podem encerrar o “apêndice auricular”, que é uma espécie de pequeno saco ligado à aurícula esquerda, onde se formam preferencialmente coágulos”, acrescenta.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.