Entrevista

EKUI: para uma educação verdadeiramente inclusiva

Atualizado: 
01/04/2019 - 16:22
Trata-se de uma nova metodologia de ensino que nasceu com o objetivo de ensinar e integrar crianças com dificuldades de aprendizagem. O EKUI, desenvolvido por Celmira Macedo, Presidente da Associação Leque, foi o grande vencedor do Prémio Maria José Nogueira Pinto, em 2018, na área da responsabilidade social. Em entrevista ao Atlas da Saúde, a professora revela que este projeto já chegou a mais de 3500 crianças “de forma direta, com resultados muito positivos a vários níveis, sobretudo na promoção do sucesso escolar e terapêutico, tornando a intervenção de professores e terapeutas da fala mais eficiente”.

A EKUI foi distinguida, na área da responsabilidade social, com o Prémio Maria José Nogueira Pinto em 2018. O que representou ver reconhecido este projeto?

Receber o Prémio Maria José Nogueira Pinto foi para nós um merecido reconhecimento de que a EKUI começa a ser vista e reconhecida como uma metodologia de ensino inovadora, capaz de mudar a forma como aprendemos a ler, a escrever ou a falar.

Por outro lado, vencer este prémio promoveu um marketing muito positivo da EKUI, dando-lhe visibilidade a nível nacional, tornando-a conhecido por entidades da sociedade civil, investidores sociais e famílias.

Para quem ainda não conhece, em que consiste a metodologia EKUI?

A EKUI (www.ekui.pt) é uma nova forma de aprender e ensinar a ler, a escrever e a falar. É uma metodologia inovadora. Diferente das metodologias tradicionais de ensino, mais inclusiva e acessível e todos, pois conjuga quatro formas de comunicação: a grafia do português, o alfabeto fonético, o alfabeto da Língua Gestual Portuguesa (LGP) e o código Braille.

Para concretizar a metodologia, utilizamos um KIT (caixa) com um conjunto de 26 cartas com as letras do alfabeto em versão física e app. Na mesma carta encontram-se soluções para responder aos diferentes desafios da comunicação. Cada carta tem as letras manuscritas com o respetivo grafema e ainda:

  • A letra em braille tátil e visual;
  • o alfabeto da língua gestual portuguesa;
  • e o alfabeto fonético

Como é que nasceu a EKUI? Partiu da sua experiência pessoal?

A ideia da EKUI surgiu-me em 2003 quando eu trabalhava como professora de crianças com autismo e limitações cognitivas, em Vinhais (distrito de Bragança). Na altura, percebi que as crianças identificavam com muito mais facilidade as letras do alfabeto quando eu lhes associava um gesto da LGP e produzia ao mesmo tempo o som dessas letras.

Como estava a fazer o meu doutoramento, comecei a investigar para perceber como é que as crianças aprendem a ler, a escrever e a falar. Cheguei à conclusão que a aprendizagem do alfabeto pode ser bastante abstrata para algumas crianças e que as pistas visuais e concretas, como as mãos da LGP, podem ajudar a concretizar essa aprendizagem, encurtando o período de memorização.

As crianças têm desde cedo de perceber que a um som da fala corresponde um som da escrita, chama-se a isto desenvolver a consciência fonológica, e as metodologias de desenho universal, como a EKUI, têm-se mostrado mais eficientes nesta matéria, pois usam diferentes estratégias e formas de expressão e de representação, que incluem todos os alunos, tenham eles deficiências ou não. E é este o caminho para uma educação verdadeiramente inclusiva.

Há quanto tem este projeto começou a ser implementado nas escolas?

A metodologia EKUI está a ser implementada nas escolas desde setembro de 2015, com resultados muito positivos na aprendizagem e na comunicação.

E em quantas escolas está disponível?

A metodologia EKUI tem vindo a ser dinamizada em 229 turmas do pré-escolar e 1º Ciclo em 40 concelhos de norte a sul do país.

Para que uma escola tenha acesso ao EKUI, o que precisa fazer? Que tipo de acompanhamento recebem?

Para que uma escola tenha acesso à metodologia EKUI basta que entre em contacto connosco ([email protected]) e manifeste o interesse em conhecer o projeto. Após esse contacto, a equipa EKUI está disponível para ir à escola dar formação aos professores, terapeutas a famílias. Quando o professor ou educador decide implementar a metodologia na sua turma, é acompanhado no primeiro ano letivo por terapeutas da fala, intérpretes de LGP ou professores de braille, consoante a necessidade dos alunos.

Nos jardins-de-infância, o projeto começa com a exploração de uma história multissensorial sobre o EKUI, um “duende da inclusão que luta contra o monstro das barreiras”, seguido da dinamização de diversas atividades de educação para a diversidade. No primeiro ciclo, esta história está associada à aprendizagem das letras e as atividades desenvolvidas pretendem facilitar o processo de aprendizagem.

Ainda nas escolas, a equipa EKUI faz rastreios, identificando e ajudando os educadores e professores a identificar precocemente problemas de fonética, cognitivos ou dificuldades de aprendizagem como a dislexia.


Para além do Kit com 26 cartas com as letras do alfabeto, o EKUI está disponivel em app gratuita 
 

O que já foi possível alcançar com este projeto?

O projeto chegou a 3555 crianças de forma direta, com resultados muito positivos a vários níveis, sobretudo na promoção do sucesso escolar e terapêutico, tornando a intervenção de professores e terapeutas da fala mais eficiente.

Estamos a falar de uma metodologia que, além de criar valor social, pode poupar milhões de euros às famílias e ao estado social, visto que o custo de intervenção por criança, com esta metodologia, estima-se abaixo de 1€, um valor manifestamente inferior à média nacional.

Sei que, para além da caixa com as letras do alfabeto, que integra as quatro formas de comunicação, também já existe uma aplicação. Para que serve? Apresenta outras funcionalidades?

A caixa com as letras do alfabeto é a materialização de uma metodologia com princípios científicos e valores como a equidade no acesso a bens e serviços para uma maior acessibilidade na comunicação. A app, disponível de forma gratuita na Play Store, além de ter as mesmas funcionalidades do material físico, tem também um jogo. As aplicações para ios iOS e android Android estão disponíveis para download gratuito através do site da EKUI.

Paralelamente, está a ser desenvolvido um conjunto de tutoriais EKUI para YouTube, com dicas de utilização sobre a metodologia EKUI para pais, técnicos e professores.

Até onde espera levar a metodologia EKUI?

Atualmente, mais de 1,7 milhão de portugueses têm alguma dificuldade em comunicar. Ou porque nasceram com deficiência (630 mil) ou porque a adquiriram (600 mil) ou porque saíram da escola analfabetos (520 mil). Segundo o PISA (2016), 10% dos alunos reprova no final do 1º Ciclo por não terem conseguido aprender a ler ou escrever. As metodologias tradicionais de ensino não estão preparadas para atender à diversidade em contexto educativo. Este é um problema grave, importante e que tem vindo a ser negligenciado pela sociedade. Este é o problema que queremos ajudar a resolver.

Assim sendo, esperamos levar a metodologia a todas as escolas deste país. E quem sabe até internacionalizar o projeto. Já temos o interesse de alguns países, falta-nos mesmo só um investidor social. A EKUI é neste momento uma Associação (Associação Verd`EKUI), sem fins lucrativos, mas com muita vontade de mudar o mundo.

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.