Perturbação Obsessivo-Compulsiva

Doentes recorrem a especialista ao fim de oito anos

Tratando-se de uma doença psiquiátrica caracterizada pela presença de obsessões ou compulsões, a Perturbação Obsessivo-Compulsiva afeta entre 2 a 5% da população. Um número com tendência a aumentar se se considerar o espectro de situações subsindrómicas. Os rituais de limpeza ou as obsessões sexuais são os sintomas mais frequentes de uma patologia ainda “difícil” de diagnosticar. Em média, passam oito anos desde os primeiros sintomas até início de tratamento.

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva é, de acordo com o especialista em Psiquiatria, António Ferreira de Macedo, uma doença psiquiátrica bastante frequente, caracterizada pela presença de obsessões e/ou compulsões que interferem não só com o bem-estar e quotidiano do doente mas também de quem o rodeia.

Sendo de difícil tratamento, quer pela sua complexidade, quer pelo facto do seu diagnóstico ser, na maioria das vezes, tardio, esta doença afeta entre 2 a 5% da população podendo surgir ainda na infância.

“A Perturbação Obsessivo-Compulsiva é uma perturbação que, para além da perturbação objetiva que pode determinar o funcionamento do indivíduo nas suas diversas áreas de vida, pelo tempo dispendido com os rituais compulsivos (que podem atingir várias horas por dia), causa ainda um enorme mal-estar subjetivo que, se não abordado de forma consistente e atempada, poderá levar a quadros depressivos graves”, começa por explicar o coordenador do manual “Perturbação Obsessivo-Compulsiva – O Insustentável peso da Dúvida”, publicado pela editora LIDEL.

As principais características da doença são a existência de obsessões – pensamentos, imagens, medos ou impulsos de carácter recorrente e intrusivo que provocam elevados níveis de ansiedade – e compulsões. “As compulsões são comportamentos ou atos mentais, repetitivos e estereotipados, realizados com o objetivo de reduzir a ansiedade gerada por aqueles pensamentos obsessivos”, esclarece o psiquiatra.

“As obsessões mais frequentes são as de contaminação e as compulsões mais frequentes são os rituais de verificação”, revela.

Relativamente à expressão sintomática da doença, o especialista adianta que “existem algumas evidências relacionadas com o género”: enquanto nos homens são relatadas mais obsessões de tipo sexual, nas mulheres surgem mais rituais de lavagem e limpeza.

Não obstante os sintomas nucleares – obsessão e compulsão -, esta doença “caracteriza-se igualmente pela existência de outros sintomas como o evitamento, ou pela presença de diversas ideias obsessivas que, apesar de não terem um carácter patognomónico, têm sido implicadas na etiopatogenia desta doença”.

“Acresce que sendo a POC per se uma doença grave, muitas vezes é acompanhada de outras perturbações psiquiátricas comórbidas que mais agravam o prognóstico e dificultam o tratamento”, acrescenta o Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC).

No que diz respeito às suas causas, o especialista refere que a sua etiologia ainda é pouco compreendida. “De acordo com o modelo proposto pelo Yale Study Center, a etiologia POC seria produto da interação entre fatores genéticos e ambientais”, presumindo-se assim que genes vulneráveis poderiam ser responsáveis pela formação e/ou atividade de circuitos neuronais específicos quando em contacto com determinados fatores ambientais.

“Os fatores ambientais explicam cerca de 1/2 e 2/3 dos casos de POC crónica no sexo masculino e feminino, respetivamente, o que revela a sua importância na probabilidade de manter a sintomatologia”, avança o especialista.

Por outro lado, Ana Telma Pereira, investigadora auxiliar do serviço de Psicologia Médica da FMUC, refere que o papel da educação merece especial atenção no que diz respeito a esta entidade clínica. “É frequente que os doentes com POC tenham sido criados em meios onde a limpeza exagera, a religião, a moral, a ordem ou a culpa sobressaiam como valores importantes”, revela admitindo que as vivências precoces com este estilo educativo desempenham um papel decisivo na estruturação da personalidade, podendo promover o desenvolvimento de traços obsessivos ou de uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva.

Primeiros sintomas na adolescência ou em início da idade adulta

Apesar de haver registo de casos de POC na infância, a sua grande maioria inicia-se antes da idade adulta.

“A idade de início da doença é um conceito complexo e pouco consensual entre os peritos. Para uns corresponde ao momento em que surgem os primeiros sintomas e para outros à idade de início da doença na sua forma «completa», altura em que se manifestam sintomas graves que causam prejuízo e incapacidade na vida do indivíduo”, refere António Ferreira de Macedo.

De acordo com alguns autores, cerca de 65% dos casos tem início antes dos 25 anos de idade, sendo apontada como idade média os 19.5 anos, “com um início mais precoce no sexo masculino”.

Apenas um quarto dos indivíduos do sexo masculino tinha menos de 10 anos quando a doença surgiu. “Em contraste, os novos casos de POC nos indivíduos do sexo feminino surgiram maioritariamente depois dos 10 anos, com maior expressão durante a adolescência”, acrescenta Joana Andrade, assistente hospitalar de Psiquiatria do Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra.

Considerada como uma doença crónica, a POC pode ser dividida em três categorias consoante a gravidade: crónico sem remissão, fásico com períodos de completa remissão e episódico com remissão parcial.

“Num estudo que efetuámos, na decada de 90, no Hospital de Dia da Clínica Psiquiátrica dos Hospitais da Universidade de Coimbra, em que era analisada a evolução da POC, desde o seu início até à data do internamento, verificámos que em 87.1%  dos doentes o curso foi crónico, encontrando-se mais raramente um curso fásico com períodos de remissão completa (12.9%). Por outro lado, os estudos mostram que mesmo no caso de doentes adequadamente tratados, a taxa de recaída é superior a 50%”, revela António Ferreira de Macedo.

10% dos doentes desenvolve forma grave e incapacitante da doença

De acordo com a psiquiatra Joana Andrade, a Perturbação Obsessivo-Compulsiva é uma doença de difícil tratamento e para a qual existem várias modalidades terapêuticas com vista o controlo dos sintomas.

“Em psiquiatria, as terapias multimodais são mais a regra do que a excepção. No caso da POC as evidências mostram que as estratégias psicoterapêuticas não são uma alternativa aos fármacos, mas sim um complemento necessário às medicações, de modo que a combinação tenha um efeito sinérgico/multiplicativo e não apenas aditivo”, explica.

“A investigação a longo prazo sugere uma maior eficácia para a combinação da terapia cognitivo-comportamental e medicação, do que qualquer um deles isoladamente”, justifica.

Não obstante, sabe-se que cerca de 10% dos doentes desenvolve uma forma grave, incapacitante e refratária da doença. Casos esses, que podem necessitar de intervenções terapêuticas mais intensivas.

“Estas intervenções baseiam-se na interrupção das ligações recíprocas entre os lobos frontais e determinadas estruturas subcorticais”, com benefícios em 35 a 50% dos casos.

No entanto, outras técnicas menos invasivas, como a estimulação magnética transcraniana e a estimulação cerebral profunda, têm vindo a revelar-se como alternativas promissoras aos procedimentos psicocirúrgicos.

Sentimento de vergonha e falta de informação dificultam diagnóstico

“Frequentemente o doente com POC experiencia um sentimento de vergonha associado às suas obsessões e compulsões, precisamente por ter crítica para o seu exagero e irrazoabilidade”, afirma a também coordenadora do manual “Perturbação Obsessivo- Compulsiva – O Insustentável peso da Dúvida”.

Na realidade, este sentimento leva não só a que o doente não procure ajuda especializada, como faz com que viva, muitas vezes, durante anos, com as suas dificuldades em segredo. O receio de ser julgado leva o doente a esconder a sua condição.

A verdade é que, e de acordo com os especialistas, “pode existir um lapso de tempo entre o aparecimento dos sintomas obsessivo-compulsivo e a procura de ajuda médica por parte do doente”. Estimando-se, em média, que o diagnóstico chegue ao fim de 8.9 anos.

“É, efetivamente, uma doença mal conhecida o público e, neste campo, também existe todo um trabalho de divulgação e esclarecimento por fazer. É na generalidade um problema crónico, de muito difícil tratamento, com elevadas taxas de recaída e com grave incapacidade informal”, afirma o psiquiatra.

E foi pela necessidade de desmistificar esta doença psiquiátrica, que nasceu o manual da editora LIDEL, dedicado ao tema.

Dirigido a todos os profissionais de saúde que lidam diretamente com questões de saúde mental, este livro foi escrito com a colaboração de 20 especialistas nacionais e internacionais, com o objetivo de facilitar a compreensão e interpretação das discussões mais profundas sobre todas as nuances desta doença.

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva “constitui uma perturbação que muitas vezes se coloca no mesmo patamar de gravidade e prejuízo funcional como as doenças psiquiátricas cujo prognóstico nefasto é mais conhecido, como por exemplo a esquizofrenia e outras perturbações psicóticas”. 

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
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