Impacto na saúde pública

Doenças cardiovasculares

O conjunto de doenças que afectam o aparelho cardiovascular - o coração e os vasos sanguíneos – designam-se de doenças cardiovasculares. Em Portugal estão entre as principais causas de morbilidade e invalidez, mas também são responsáveis por cerca de 40 por cento dos óbitos.

As doenças cardiovasculares (DCV) incluem um grupo muito vasto de doenças que afectam o coração e os grandes vasos - as artérias e veias que constituem a rede de distribuição de sangue no organismo. Apesar desta definição genérica, a expressão é geralmente utilizada para designar as doenças especificamente relacionadas com a aterosclerose, um processo inflamatório crónico que afecta, de forma progressiva e silenciosa, a parede das artérias, promovendo a deposição de placas complexas de gordura no seu interior. Estas placas de gordura - os ateromas - vão endurecendo, deformando e até rompendo a parede das artérias, o que condiciona um estreitamento do lúmen deste canal que compromete ou pode mesmo obstruir totalmente o fluxo de sangue com os coágulos entretanto formados.

A isquémia que daí resulta faz sofrer os tecidos afectados, podendo, em última análise, levar à perda completa da sua função. As formas mais comuns de manifestação de doença - o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e o acidente vascular cerebral (AVC) - são acontecimentos súbitos e devastadores, um primeiro sinal tardio de uma doença grave que é então impossível prevenir.

A nível mundial, as DCV são motivo de grande preocupação e segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), continuam a ser a principal causa de mortalidade a nível mundial, particularmente no sexo feminino. Efectivamente, segundo os dados disponíveis de 2008, as DCV são responsáveis por 32 por cento do total de mortes no sexo feminino e 27 por cento no sexo masculino, em todo o mundo.

Prevê-se que no ano 2030 as DCV sejam a primeira causa de morte em todo o mundo. As previsões apontam para que ocorra, no período de 2004 a 2030, um ligeiro aumento do número de mortes por causa cardiovascular nos países de rendimento intermédio e elevado, prevendo-se também um aumento significativo das mesmas nos países de baixo rendimento.

No entanto, o número de mortes por DCV projectadas para o período 2004-2030 deve-se apenas ao crescimento e ao envelhecimento populacional, sendo contrabalançado no sentido positivo por alterações epidemiológicas resultantes da implementação de campanhas de prevenção primária e secundária das DCV.

A nível europeu as DCV causam anualmente mais de 4,8 milhões de mortes (48 por cento do total de mortes) e mais de 2 milhões na União Europeia a 27 (42 por cento do total de mortes). São a primeira causa de morte nas mulheres em todos os países da Europa, e nos homens também, com excepção neste caso para a França, a Holanda e a Espanha (European Heart Network , 2008).

Em Portugal, as doenças do aparelho circulatório, nomeadamente os acidentes vasculares cerebrais (AVC) e a doença isquémica cardíaca (DIC), continuam a ser a primeira causa de morte também em Portugal.

Também é de referir que a mortalidade precoce diminuiu muito: a grande maioria (73 por cento) morre depois dos 75 anos, e muitos só depois dos 100 anos, estando neste momento as doenças cardiocerebrovasculares associadas ao envelhecimento de uma forma notória.

Ao contrário do que acontece na maioria dos países da Europa, a taxa de mortalidade por AVC é em Portugal superior à taxa de mortalidade por DIC, representando cerca de metade dos óbitos de origem cardiovascular.

Também a morbilidade associada às DCV é uma enorme preocupação em termos de saúde pública, dado que está na origem de situações de incapacidade que afectam a nível pessoal, familiar e social, e que culmina em elevados custos socioeconómicos.

Morbilidade
Diversos indicadores podem ser utilizados para avaliar o impacto de morbilidade de uma etiologia específica na Saúde Pública de uma comunidade, ou para proceder a análises comparativas entre diferentes comunidades, nomeadamente a prevalência, a incidência, os anos de vida ajustados à incapacidade (DALYs - disability ajusted life years) ou ainda índices que agregam a informação de vários indicadores como a Carga de Doença (Burden of Disease). A OMS preconiza a utilização preferencial deste índice para avaliar e comparar a morbilidade por patologias específicas.

A nível mundial, e no ranking das dez principais causas de Carga de Doença, para todas as faixas etárias aparece em quarto lugar a doença isquémica cardíaca (responsável a nível mundial por 62,6 anos de vida perdidos ajustados à incapacidade (DALY's) e em sexto a doença cerebrovascular.

Quando os dados são analisados agrupando os países por níveis de rendimento, verifica-se que nos grupos de rendimento intermédio e elevado, a doença isquémica cardíaca e a doença cerebrovascular aparecem respectivamente em segundo e terceiro lugar na lista das principais causas de carga de doença. Mesmo nos países pertencentes ao grupo de rendimento baixo, a doença isquémica cardíaca aparece entre as 10 primeiras causas de anos de vida perdidos ajustados à incapacidade.

As projecções da OMS neste domínio também não são animadoras. Os dados projectados para o período de 2004 a 2030 apontam para que a doença isquémica cardíaca e a doença cerebrovascular, que em 2004 se encontravam a nível mundial em termos de principais causas de anos de vida perdidos, no 4º e 6º lugar respectivamente, passarão a ocupar o 2º e 4º lugar.

Analisando os dados, a nível europeu, as DCV são não só a principal causa de morte, mas também a principal causa de anos de vida ajustados à incapacidade, representando 23 por cento do total - mais de 34 milhões de DALY's (WHO, 2008).

Em Portugal as DCV estão entre as principais causas de morbilidade e invalidez. No ranking das 10 principais causas de incapacidade, em percentagem do total de anos de vida ajustados à incapacidade (DALY's) em ambos os sexos, as DCV aparecem em segundo lugar, tanto no sexo masculino como no feminino. Com base em informação disponibilizada pelo Instituto Nacional de Estatística, relativamente ao período 1999-2001, a doença isquémica cardíaca (DIC) constitui a terceira causa de Anos de Vida Potencialmente Perdidos (AVPP) e as doenças cerebrovasculares a quinta causa de AVPP.

Segundo a mesma entidade, a doença isquémica cardíaca foi a situação que sofreu uma pior evolução em termos de AVPP (morre-se mais ou mais cedo), tanto nos homens como nas mulheres, entre os períodos de 1999-2001 e 2003-2005, embora mais marcadamente no sexo masculino. Também as doenças cerebrovasculares sofreram uma evolução negativa neste intervalo, relativamente à média de AVPP, embora numa escala muito menor, e de forma semelhante nos dois sexos. Ainda de acordo com Inquérito Nacional de Saúde de 2005/2006, 1,6 por cento da população portuguesa de ambos os sexos inquirida reportou já ter tido um AVC, e 1,3 por cento um enfarte do miocárdio.

Com base nestes dados, as DCV têm vindo a ser apelidadas a nível nacional como as "novas epidemias", no entanto são escassas as informações publicadas que permitem estimar a sua incidência, nomeadamente dos AVC e dos enfartes do miocárdio. Os acidentes vasculares cerebrais são a principal causa de incapacidade nas pessoas idosas. Alguns autores consideram que a incidência do AVC em Portugal é de 1 a 2 por 1.000 habitantes por ano, considerando que o maior factor de risco é a idade. Com efeito 85 por cento dos doentes tinha mais de 65 anos, e acima dos 85 anos a incidência encontrada foi de 20/1.000 por ano.

É por demais sabido que as sequelas dos AVC's são frequentes, sendo o seu impacto social, económico e familiar muito grande. Se considerarmos as tendências demográficas actuais, é fácil constatar e prever que esta doença vai absorver uma considerável parte do orçamente destinado à saúde e exigir cuidados de saúde acrescidos, pelo menos em termos de quantidade.

Com base nos dados apresentados relativos à morbilidade cardiovascular em Portugal, torna-se evidente que as DCV são e continuarão a ser uma fonte de custos de grande dimensão. Nestes custos terão de ser contabilizados os custos directos, relacionados com a utilização dos serviços de saúde (consultas, internamentos, medicamentos, por exemplo), mas também os indirectos, relacionados com a perda de produtividade dos doentes e seus familiares. É assim necessário que as DCV sejam uma prioridade para os decisores das políticas de saúde a nível nacional, aquando da formulação das mesmas.

Fonte: 
Manual de Avaliação do Risco Cardiovascular Global e dos seus Determinantes.
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde de A-Z não substituem o parecer/opinião do seu Médico e/ou Farmacêutico.
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