Lesão Cerebral

Depois do AVC, o que fica?

Atualizado: 
29/03/2019 - 16:30
Os Acidentes Vasculares Cerebrais são um importante problema de saúde pública, estimando-se que afete três portugueses por hora. Dos que sobrevivem, metade fica com sequelas permanentes. António Conceição, presidente da Portugal AVC, revela que “o sobrevivente, muito frequentemente, encontra-se e sente-se sozinho”. O acesso aos cuidados médicos é difícil e a informação sobre o tema não chega a todos.

Depois de um AVC, as sequelas que ficam dependem, essencialmente, da área do cérebro afetada e da extensão desta lesão. “Naturalmente, as mais visíveis são as físicas, diminuindo a mobilidade. Mas há outras”, começa por explicar António Conceição acrescentando que nenhuma pode ser subestimada ou merecer menos atenção durante o processo de reabilitação.

A Afasia é uma das complicações mais frequentes e uma das menos conhecidas. Ela resulta de uma lesão no lado esquerdo do cérebro, afetando a fala e as competências linguísticas do doente. Ainda que a habilidade intelectual possa ser mantida, o paciente perde (total ou parcialmente) a sua capacidade de usar a linguagem, expressar os seus desejos através da fala, compreender a linguagem falada, ler e escrever.

O doente pode ainda perder a sensibilidade, apresentar dificuldades na deglutição, ter dificuldade em orientar-se no tempo e no espaço, ter dificuldades na concentração, perda de raciocínio ou memória e, até mesmo, ao nível do controlo das suas emoções. Depressão e ansiedade são ainda dos problemas mais comuns após um Acidente Vascular Cerebral.

O acesso aos cuidados médicos/terapêuticos e a falta de informação criam um fosso entre estes doentes e resto da sociedade.

De acordo com o presidente da Portugal AVC, também ele um sobrevivente, o acesso à informação é “frequentemente inadequada ou inexistente”.

“Depois, nem todos - famílias e cuidadores – são suficientemente sensíveis ao tema. O sobrevivente, muito frequentemente, encontra-se e sente-se sozinho”, diz chamando a atenção para o facto de que também, no que diz respeito aos cuidados de saúde, “tem que enfrentar algum desconhecimento, mesmo de alguns médicos”. Não basta por isso ter acesso aos cuidados necessários, é preciso que eles sejam diferenciados já que “nesta patologia, cada caso é único”.

Quanto aos apoios sociais, António Conceição revela que para além de existir um grande desconhecimento na área, estes “continuam a ser encarados como uma esmola, não permitindo uma vida condigna e potenciadora da igualdade nos mais diversos campos, a começar pelo laboral”.

Por outro lado, diz ser essencial que se crie, de uma vez por todas, um estatuto para o cuidador informal. “Defendemos que, sempre que possível, o sobrevivente fique no seu lar”, diz. “Para isso, é necessário que se criem condições, em particular para o cuidador informal: laborais, de direitos sociais como a sua pensão e reforma, e assegurando a formação e o descanso indispensável”, apela acrescentando que é impensável manter a atual situação em que ser cuidador é “estar ao serviço” 24 horas por dia, 365 dias por ano. “E ainda por cima sem qualquer medida que o possa proteger…”, acrescenta.

Para o presidente da Portugal AVC, a criação de um verdadeiro estatuto de cuidador informal permitiria poupar ao Estado muito dinheiro, face à alternativa que passa pela institucionalização destes doentes.

No âmbito do Dia Nacional do Doente com AVC, que todos os anos se assinala a 31 de março, António Conceição deixa uma mensagem importantíssima: há vida depois do AVC!

A aposta numa reabilitação multidisciplinar, “célere, sem tempos pré-estabelecidos, adequada a cada um” é, na sua opinião, um dos aspetos essenciais para melhorar a qualidade de vida destes sobreviventes. “A reabilitação não é um mero custo para o Serviço Nacional de Saúde, antes um investimento com retorno”, reforça enquanto apela para uma maior consciencialização dos fatores de risco, seja em que idade for: hipertensão, diabetes, colesterol, tabagismo e obesidade. 

Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
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