Entrevista

Como preparar os doentes crónicos para o frio

Atualizado: 
03/11/2017 - 10:29
Tempo frio é sinónimo de infeções respiratórias, sobretudo, quando falham as medidas de prevenção. Os doentes crónicos respiratórios são dos grupos mais vulneráveis devendo, por isso, redobrar os cuidados no Inverno. Para compreender como o frio afeta estes doentes, o Altas da Saúde esteve à conversa com pneumologista António Carvalheira Santos, que assinalou as medidas essenciais para evitar agudizações infeciosas.

Porque é que as doenças respiratórias pioram no Inverno?

O frio é um irritante brônquico e, por isso, facilitador do agravamento das doenças respiratórias crónicas. A composição química do muco (expetoração e muco nasal) são mucopolissacáridos, que tem uma estrutura em rede composta por proteínas e glúcidos (açúcares). Este muco tem como finalidade a fixação dos irritantes que invadem o aparelho respiratório para serem expulsos. Acontece que os vírus e as bactérias ficam retidos no muco e, devido à sua composição – proteínas, glúcidos (açúcares) – e à temperatura do organismo, estão criadas as condições para a sua multiplicação com desenvolvimento das doenças infeciosas respiratórias virais e bacterianas. Outro efeito do frio é que provoca vasoconstrição com o consequente menor aporte dos leucócitos, glóbulos brancos, às áreas agredidas e por isso uma diminuição na capacidade de defesa das vias aéreas.

Quais as principais doenças respiratórias que se agravam com o tempo frio?

As doenças infeciosas com envolvimento das vias aéreas superiores e inferiores, virais e bacterianas, com particular relevância para as Pneumonias são mais relevantes no tempo frio, pelo referido anteriormente.

As agudizações infeciosas são fator de agravamento das doenças respiratórias crónicas, nomeadamente a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), a Asma brônquica, as Fibroses pulmonares e as Bronquiectasias, mas também outras menos frequentes como a Fibrose quística, a Hipertensão pulmonar de várias causas, a Síndroma de apneia obstrutiva do sono, as Doenças neuromusculares e as Doenças deformativas da parede torácica que conduzem a insuficiência respiratória e implicam muitas vezes a necessidade de utilização de oxigénio e mesmo de ventilação mecânica para que os doentes tenham uma boa qualidade de vida.

Como podemos prevenir o seu agravamento?

A adesão à terapêutica brônquica, que deve ser efetuada conforme a prescrição e a limpeza das vias aéreas são cuidados essenciais para não facilitar o aparecimento de infeções respiratórias, principal factor na prevenção do agravamento das doenças respiratórias crónicas.

A Reabilitação Respiratória, como componente integrante do plano de tratamento no doente sintomático é muito importante na prevenção e melhoria efetiva destes doentes.

Que outros cuidados são essenciais no âmbito da prevenção? 

São imprescindíveis os cuidados de proteção da via aérea, antes de tudo evitar o fumo do tabaco, mas ainda as medidas de proteção do frio, sempre que possível o afastamento de locais com grande afluência de pessoas e de contacto mais estreito, a limpeza brônquica e das fossas nasais e atividade física protegida.

Qual a importância da vacinação para estes doentes?

A vacinação é proteção. Por isso estes doentes devem ser vacinados com a vacina da Pneumonia e, anualmente no Outono, com a vacina da gripe, como forma de prevenção destas doenças infeciosas, mais prevalentes nos meses de Inverno.

Em que consiste a Reabilitação Respiratória e quais os seus benefícios?

A Reabilitação Respiratória é uma componente fundamental no tratamento do doente respiratório crónico. Tem sido alvo de particular atenção pelos investigadores nos últimos 10 anos e é atualmente apontada como uma intervenção de 1ª linha no tratamento da DPOC, bem como em outras doenças respiratórias crónicas, propiciando diminuição dos sintomas, melhoria na funcionalidade, capacidade de exercício e qualidade de vida e na autonomia da gestão da doença.

Os principais benefícios da reabilitação respiratória são a redução dos sintomas respiratórios de fadiga e dispneia, a reversão da ansiedade e depressão associados à doença respiratória, a melhoria da tolerância ao exercício com aumento da resistência ao esforço, a melhoria na habilidade para a realização das atividades da vida diária, a redução das agudizações, a redução do número de consultas não programadas e recurso ao Serviço de Urgência, a redução do número de dias de hospitalizações, a diminuição dos custos diretos e indiretos relacionados com a saúde e uma melhor integração familiar e social.

Onde pode ser realizada?

A Reabilitação Respiratória deverá ter o suporte técnico de uma equipa interdisciplinar composta por médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e terapeutas ocupacionais.

Hoje, em Portugal, só um pequeno número de doentes respiratórios crónicos é privilegiado ao terem acesso a um tratamento global com Programa de Reabilitação incluído. Torna-se, pois, premente a abertura de Centros de Reabilitação Respiratória de proximidade, que possam dar respostas às necessidades do país.

O exemplo do AIR CARE CENTRE, Centro de Reabilitação Respiratória da Linde Saúde tem de ser multiplicado para chegar a um número significativo de doentes respiratórios crónicos com os evidentes benefícios daí decorrentes.

Qual a duração do tratamento? Deve este tratamento ser encarado como uma forma de prevenção? Neste caso, qual o melhor período do ano para se dar início à Reabilitação Respiratória?

O Programa de Reabilitação é individualizado face às necessidades diferentes de cada doente e também a sua duração. Este assenta em três pilares: controlo clínico, ensino e treino de exercício. O exercício deve fazer parte integrante do plano terapêutico do doente com doença respiratória crónica sintomática. Não há, por isso, um período para começar, mas a Reabilitação Respiratória é fundamental para habilitar o doente respiratório crónico a gerir adequadamente a sua doença, nomeadamente nos meses de maior prevalência de agudizações, no inverno.

Que outros conselhos gostaria de deixar no âmbito deste tema?

A Direção Geral de Saúde aponta para a necessidade de expandir a espirometria (função pulmonar) à população para avaliação funcional respiratória e a reabilitação respiratória de proximidade abarcando os doentes respiratórios crónicos sintomáticos, que dela necessitem.

As medidas de higiene das vias aéreas, a vacinação da Gripe e Pneumonias, a correta adesão à terapêutica e a reabilitação respiratória propiciam controlo da sua doença respiratória crónica e qualidade para a vida diária.

Autor: 
Sofia Esteves dos Santos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Foto: 
Hill+Knowlton Strategies Portugal