Opinião

Cancro da Cabeça e Pescoço: tabaco associado a 90% dos casos

O Cancro da Cabeça e Pescoço é o 8º cancro mais comum em Portugal. É mais prevalente no homem e nas idades de 60 a 70 anos. É um grupo heterogéneo que inclui as seguintes localizações: cavidade oral, orofaringe, hipofaringe, nasofaringe, laringe, seios perinasais, glândulas salivares e envolvimento das cadeias ganglionares cervicais por tumor primário oculto.

Os fatores de risco são maioritariamente comportamentais, o que torna esta doença evitável numa elevada percentagem de casos. O tabaco é o principal fator de risco: 90% dos doentes têm história de tabagismo e, comparativamente com os não fumadores, têm um risco 4 a 5 vezes superior de cancro na cavidade oral, orofaringe e hipofaringe e, no caso da laringe, 10 vezes. Este risco relaciona-se com a carga tabágica e reduz-se com a evicção.

A ingestão crónica de bebidas alcoólicas aumenta, de forma independente, o risco de cancro de cabeça e pescoço, com 1 a 4% de casos atribuídos, isoladamente, a este hábito. No entanto, a importância do seu consumo reside na atuação sinérgica com o tabaco, o que resulta num risco 35 vezes superior nos fumadores e bebedores pesados (mais de 2 maços de tabaco e de 4 bebidas por dia).

A infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV) é a causa de um subtipo específico de cancro da orofaringe. Comparativamente com os tumores HPV negativos, a mediana de idade de diagnóstico é mais jovem (50 anos). O principal fator de risco é o número de parceiros sexuais, em particular sexo oral.

A infeção pelo vírus Epstein-Barr (EBV) é o fator de risco mais importante do carcinoma da nasofaringe, mais comum nas áreas endémicas (Sul da China e Norte de África).

Outros fatores de risco são: mal adaptação crónica de próteses dentárias, má higiene oral e a imunossupressão, por exemplo nos indivíduos submetidos a transplante de órgão e nos doentes com infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH).

Os sintomas são muito variados e frequentemente negligenciados pelo doente o que está relacionado com o facto desta doença ocorrer, muitas vezes, em indivíduos debilitados e com pouco suporte social. O cancro da cavidade oral manifesta-se, habitualmente, por lesões (como ulcerações ou tumefações) que não curam durante semanas, dor e dificuldade na deglutição e ingestão de alimentos (disfagia). A disfagia é um sintoma comum dos vários tipos de cancro da cabeça em pescoço. Outros sintomas são a rouquidão (disfonia), dor de garganta (odinofagia) e/ou de ouvido persistente, tosse, dispneia e aparecimento de uma tumefação cervical.

O prognóstico depende do estadio da doença ao diagnóstico. O cancro da cabeça e pescoço geralmente inicia-se na mucosa e cresce por infiltração local. Com o tempo, ocorre invasão local, primeiro para o músculo e, depois, para o osso e estruturas nervosas, bem como disseminação linfática (invasão dos gânglios linfáticos). A metastização à distância ocorre tardiamente (10 a 12%), mais frequentemente para o pulmão e, em segundo lugar, para o osso.

A complexidade e variabilidade das opções terapêuticas exigem que a abordagem seja delineada, desde o início, por equipas multidisciplinares dedicadas e especializadas em centros com elevado número de casos. Nos estadios precoces (tumores pequenos, sem invasão de estruturas adjacentes e com nenhum ou pouco envolvimento ganglionar), com tratamento unimodal (seja cirúrgico ou radioterapia), é possível obter elevadas taxas de cura.

No que diz respeito à doença avançada, os progressos na terapêutica multimodal (radioterapia, cirurgia, quimioterapia, agentes biológicos e imunoterapia) também permitiram aumentar a sobrevivência. Com efeito, na última década a sobrevivência global aos 5 anos aumentou de 40 para 56%, quando analisados todas as localizações e estadios da doença. No entanto, sabemos que apenas 30% a 50% dos casos são diagnosticados em fase precoce, e que o aspeto morfológico e as várias funções vitais, como a respiração, a alimentação e a comunicação, são afetados com maior impacto nos casos avançados.

Torna-se, assim, premente a insistência da cessação dos hábitos nocivos e a implementação de programas de diagnóstico precoce, sobretudo nos doentes de maior risco.

Dra. Ana Joaquim - Oncologista no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia

Nota: 
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