Somos todos responsáveis…

Adesão à terapêutica

A não adesão do paciente ao regime terapêutico prescrito é um flagelo mundial de saúde pública. Atinge a taxa de 50% nos países desenvolvidos. Na ausência de “receitas” eficazes, é preciso persistir numa combinação de estratégias educativas e de mudanças comportamentais.

 

Os ganhos em saúde para o utente exigem regimes de tratamentos efetivos e a sua adesão, sendo que a adesão (também denominada de Concordância ou Cumprimento) à terapêutica é um dos 4 pilares da denominada adesão ao regime terapêutico, são eles:

 

  • Tomar os medicamentos/fármacos de forma apropriada;
  • Agendamento de consultas de cuidados de saúde e comparecer às mesmas;
  • Fazer mudanças no estilo de vida, incluindo na dieta, exercício, cessação do tabagismo e gestão do stress;
  • Autogestão de outros comportamentos que melhoram a saúde e os resultados dos cuidados. (Continuum de Saúde).

Nos países desenvolvidos, a taxa de não-adesão ao regime terapêutico nos doentes crónicos (Diabetes; Doenças Cardiovasculares, Demências, etc…), com múltipla medicação farmacológica é, em média, de 50%, sendo mais alta nos países em desenvolvimento (OMS 2003).

Numa investigação quantitativa acerca desta problemática, realizada por DiMatteo 2004), verificou que em média 24,8% dos utentes não aderem às recomendações por motivos muito variados, sendo que no caso dos utentes do foro psiquiátrico, as taxas médias de não-adesão encontradas são ainda mais elevadas, entre 37 e 42% (Cramer & Rosenbeck 1998).

Estima-se que entre 11 a 17% dos episódios urgências, consultas e internamentos se devam a incorrecção ou não-adesão ao regime terapêutico.

Podemos assim facilmente concluir que a não-adesão ao regime terapêutico é um “problema mundial de magnitude impressionante”, mesmo um flagelo mundial de Saúde Publica! (OMS, 2003)

São várias as implicações da não-adesão ao tratamento, sendo as mais significativas:

  • O aumento da morbilidade e mortalidade;
  • Redução da qualidade de vida;
  • Insatisfação dos utentes, das suas famílias e dos prestadores de cuidados;
  • Complicações médicas e psicológicas da doença;
  • Probabilidade de desenvolvimento de resistência aos fármacos;
  • Desperdício de recursos de cuidados de saúde e o desgaste da confiança do público nos sistemas de saúde.

Factores que influenciam a adesão ao regime terapêutico

A adesão é influenciada por vários factores. Estes incluem:

  • Baixo estatuto socioeconómico;
  • Analfabetismo e baixo nível educacional;
  • Desemprego;
  • Distância dos centros de tratamento;
  • Custo elevado do transporte ou da medicação;
  • As características da doença;
  • Fatores relacionados com a terapêutica: complexidade e duração do tratamento, efeitos secundários;
  • Crenças culturais acerca da doença e do tratamento.

Alguns destes fatores estão relacionados com o doente e com a medicação, enquanto outros estão relacionados com os profissionais de saúde. Por exemplo, o baixo estatuto socioeconómico é um factor relacionado com o doente, que inibe a adesão, enquanto os efeitos secundários de um regime farmacológico estão relacionados com a medicação. Dada esta interacção complexa de factores a afectar a adesão, os doentes precisam de ser apoiados e não culpabilizados.

Melhorar a adesão o que significa?
Uma melhor adesão está relacionada com a segurança do doente, traduz­‑se em melhores resultados de saúde e diminui os custos com os cuidados de saúde. Eficiência, quer para o SNS, quer para o utente.

A boa adesão melhora a efetividade das intervenções, promove a saúde e melhora a qualidade de vida e a esperança de vida dos doentes.

Não há uma forma única de promover a adesão aos regimes de tratamento. Para melhorar a adesão, têm de combinar-se várias estratégias educativas e comportamentais.

- As estratégias comportamentais incluem os lembretes e o reforço do comportamento do doente. Além disso, os prestadores de cuidados de saúde (profissionais de saúde) podem investigar as preferências dos doentes, simplificando os regimes de dosagem, etc.

- As estratégias educativas, que melhoram a adesão entre as pessoas com doenças crónicas, incluem a redução do número de medicamentos e da frequência das doses, o facultar de informação acerca dos efeitos secundários esperados e a motivação das pessoas para as alterações no estilo de vida causadas pela terapêutica.

É muito importante educar os doentes acerca das suas doenças crónicas, benefícios do tratamento e complicações associadas à não-adesão. A educação é necessária para a autogestão, uma vez que a maioria dos cuidados prestados para doenças crónicas exigem que os doentes estejam envolvidos no seu próprio autocuidado.

A educação é uma estratégia importante para melhorar a adesão, mas os doentes não precisam só de ser informados, mas também de ser motivados e encorajados a aderir ao tratamento e aos objectivos relacionados com o estilo de vida.

É necessária uma abordagem multidisciplinar para tratar as doenças crónicas e melhorar a adesão. A família, a comunidade e as organizações de doentes são parceiros-chave na promoção da adesão. Precisam de ser envolvidos de forma activa no plano de cuidados e nos resultados esperados dos cuidados.

A melhoria da adesão irá exigir a cooperação contínua entre os profissionais de saúde, investigadores, responsáveis pelas políticas, famílias e, mais importante que tudo, o doente.

Reconciliação terapêutica
A reconciliação da terapêutica é reconhecida como uma solução importante para a segurança do doente, em especial para a prevenção de erros de medicação. Permite evitar, entre outras situações, sobreposições e interações de medicamentos resultantes de informações incompletas ou mal comunicadas aquando da transição de cuidados do doente (admissão ao hospital, transferências dentro do hospital, alta).

A Reconciliação Terapêutica é um processo que consiste na identificação da lista mais precisa de todos os medicamentos que um doente está a tomar e que deve tomar - incluindo o nome, dosagem, frequência, via finalidade e a duração - e usar essa lista para fornecer/prescrever medicamentos correctos aos doentes em qualquer lugar dentro do sistema de saúde.

No momento da Admissão, um profissional de saúde (Enfermeiro) obtém a Melhor História de Medicação Possível (MHMP). A MHMP é a lista mais precisa da medicação que o doente deve estar a tomar e inclui os medicamentos que o doente está efetivamente a tomar no momento imediatamente anterior à admissão. Esta lista deve ser claramente documentada e atualizada durante o internamento se existir mais informação disponível.

O conhecimento sistematizado da medicação total de cada doente é um contributo indispensável para a segurança do doente, atendendo ao facto de a população portuguesa ser cada vez mais idosa, maioritariamente polimedicada e sujeita a transferências frequentes de tipologia de cuidados de saúde.

A importância da enfermagem…
Enquanto prestadores de cuidados de saúde em quem as pessoas confiam no contínuo de cuidados, os enfermeiros encontram-se numa posição única e privilegiada para avaliar, diagnosticar, intervir e avaliar resultados nas questões relacionadas com a adesão ao regime terapêutico.

No que à Enfermagem diz respeito, a adesão ao regime terapêutico significa ainda “tornar o doente mais autónomo no seu autocuidado”.

Compreendendo o doente e a sua família o enfermeiro pode, diariamente, renovar a vontade dos sujeitos em se auto cuidarem. Para isso é necessário encontrar respostas dinâmicas e avançar com muita perseverança.

São os enfermeiros que garantem a proximidade e continuidade de cuidados aos cidadãos, (Cuidados de Saúde Diferenciados, Cuidados de Saúde na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e Cuidados de Saúde Primários).

São igualmente os enfermeiros, em colaboração com outros prestadores de cuidados de saúde, numa abordagem multidisciplinar, que desempenham um papel importante na optimização da adesão ao tratamento ao nível do indivíduo, da família, da comunidade e do sistema de saúde.

Neste contexto, a figura do enfermeiro de família ou enfermeiro de referência é uma realidade que permite, não só o acompanhamento do doente, como o seu encaminhamento para os restantes profissionais e recursos existentes na comunidade.

Por outro lado, continua a ser necessária mais investigação para aumentar a compreensão dos profissionais de saúde relativamente ao problema complexo e multidimensional da não-adesão ao regime terapêutico.

As intervenções dirigidas aos determinantes de não-adesão precisam de ser avaliadas quanto aos respetivos efeitos e possibilidade de generalização. As intervenções baseadas na investigação (a Prática Baseada na Evidência) podem ser colocadas em prática com o objetivo de melhorar os resultados de cuidados de saúde, e a qualidade dos cuidados de saúde em todo o mundo.

Bibliografia:
Cramer JA & Rosenbeck R (1998). Compliance with medication regimens for mental and physical disorders. Psychiatric Services, 49, 196-201.
DiMatteo MR (2004). Variations in patients’ adherence to medical recommendations: A quantitative review of 50 years of research. Medical Care, 42 (3),200-209.
International Council of Nurses (2001). International Classification for Nursing Practice – Beta 2 Version. Geneva, Switzerland: International Council of Nurses.
International Council of Nurses (2005). International Classification for Nursing Practice – Version 1.0. Geneva, Switzerland: International Council of Nurses.
International Council of Nurses (2008). Guidelines for ICNP® Catalogue Development.
Geneva, Switzerland: International Council of Nurses.
Ordem dos Enfermeiros (2009). Estabelecer parcerias com os indivíduos e as famílias para promover a adesão ao tratamento – Catálogo da Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (Cipe ®). Genebra, Suíça.
International Council of Nurses, World Health Organization (2003). Adherence to long term therapies: Evidence for action. Geneva, Switzerland, World Health Organization.
www.emro.who.int/ncd/Publications/adherence_report.pdf

Nota Biográfica:
Hélder Abel Chaves Ferreira Lourenço nasceu em 1969.
Iniciou a atividade de enfermeiro em Janeiro de 1992 no Hospital Distrital de Lamego. Desde 1995 exerce no Hospital São Teotónio de Viseu (Centro Hospitalar Tondela-Viseua. E.P.E.).
É Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica desde 2001. Em 2012 é um dos três enfermeiros em Portugal a obter o grau de Sexólogo Clínico, pela Sociedade Portuguesa de Sexologia.
Desde janeiro de 2012 é Presidente do Conselho de Enfermagem Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros.
É secretário e tesoureiro da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Saúde Mental (SPESM).

Hélder Lourenço - Enfermeiro Especialista em Psiquiatria e Saúde Mental e Sexólogo Clínico
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro e/ou Farmacêutico.
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