Entrevista a Raíssa Santos, professora universitária e especialista em Psicologia Clínica e da Saúde

«Precisamos de tornar os cuidados psicológicos mais acessíveis, próximos e cientificamente robustos»

Atualizado: 
03/11/2026 - 14:43
A crescente visibilidade da saúde mental trouxe novos desafios à Psicologia, desde a compreensão do sofrimento psicológico às mudanças nas relações, na identidade e nos comportamentos aditivos. Em entrevista ao Atlas da Saúde, Raíssa Santos, professora universitária, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicoterapia, defende uma maior articulação entre investigação e prática clínica, o reforço da prevenção e da intervenção precoce e o acesso a cuidados psicológicos de qualidade, baseados na evidência científica.

1. O que vos motivou a organizar este primeiro seminário dedicado à saúde mental e aos novos desafios da Psicologia?

A ideia surgiu da vontade de criar, no ISMAT, um espaço de encontro entre a academia, a prática profissional e a produção científica na área da Psicologia. A parceria com a PACTOR fez particularmente sentido porque nos permite trazer até à nossa comunidade académica autores e especialistas que têm contribuído para pensar e divulgar temas muito atuais da Psicologia.

Mais do que organizar um conjunto de conferências, quisemos promover um espaço de diálogo. Por isso, estruturámos o seminário em torno de três grandes eixos — o sofrimento psicológico na vida adulta; a identidade, as relações, a sexualidade e o bem-estar; e as dependências, o narcisismo e outros desafios emergentes. São áreas distintas, mas que refletem questões com que os psicólogos se confrontam atualmente e que merecem ser discutidas a partir de diferentes perspetivas.

 

2. Que importância assume esta iniciativa para a comunidade de profissionais e especialistas em Psicologia e que impacto poderá ter na comunidade em geral?

Creio que uma das riquezas deste seminário está precisamente na possibilidade de colocar em diálogo pessoas com percursos e áreas de especialização diferentes. Temos psicólogos clínicos, psicoterapeutas, docentes e investigadores, com trabalho nas áreas da saúde, sexualidade, luto, justiça, dependências e psicoterapia. Essa diversidade permite-nos olhar para fenómenos complexos a partir de diferentes ângulos.

Para os nossos estudantes, existe ainda uma dimensão que valorizamos muito: a possibilidade de contactarem diretamente com autores e profissionais cujo trabalho conhecem através dos livros, da investigação ou da própria formação académica. A Universidade não deve ser apenas um lugar de transmissão de conhecimento; deve proporcionar oportunidades de discussão, questionamento e construção desse conhecimento.

E há também um impacto que esperamos que ultrapasse a academia. Quanto mais qualificada for a discussão pública sobre Psicologia e saúde mental, maior será a nossa capacidade coletiva para reconhecer o sofrimento psicológico, combater o estigma e distinguir informação cientificamente fundamentada de discursos simplistas ou sem sustentação científica.

 

3. No evento foram abordados temas como sofrimento psicológico na vida adulta, a identidade, a sexualidade e as dependências. Que desafios considera mais urgentes na prática psicológica atual e que justificam uma reflexão conjunta entre especialistas?

Uma das opções que fizemos na construção do programa foi precisamente não reduzir os desafios atuais da Psicologia à psicopatologia. Falamos de sofrimento psicológico, mas falamos também de identidade, relações, sexualidade, luto, dependências e narcisismo. Isto traduz uma conceção mais ampla daquilo que é hoje a intervenção psicológica.

Um dos grandes desafios é conseguirmos compreender o sofrimento humano sem o simplificar. Nem todo o sofrimento corresponde a uma perturbação psicológica, mas isso não significa que não possa ser intenso ou exigir ajuda. Por outro lado, também precisamos de reconhecer precocemente situações em que existe efetivamente psicopatologia e em que é necessária uma intervenção especializada.

Há ainda fenómenos que assumem novas expressões no contexto contemporâneo. A forma como construímos relações e identidade, como vivemos a sexualidade, a influência das redes sociais, os comportamentos aditivos ou algumas formas de procura de validação e reconhecimento são exemplos disso. Não significa necessariamente que sejam fenómenos inteiramente novos; muitas vezes, são novas manifestações de necessidades e vulnerabilidades humanas que já conhecíamos. É precisamente por isso que o diálogo entre especialistas e a investigação são tão importantes.

 

4. Um dos objetivos do seminário é aproximar o conhecimento científico da prática psicológica. Como pode esta articulação contribuir para melhorar as respostas às necessidades de saúde mental da população?

Esta articulação é essencial e é também uma responsabilidade particular das instituições de ensino superior. Não devemos formar profissionais apenas para conhecer teorias ou técnicas; devemos formar psicólogos capazes de questionar, avaliar criticamente a evidência e atualizar continuamente a sua prática.

Ao mesmo tempo, a relação deve funcionar nos dois sentidos. A investigação deve informar a prática, mas a prática também deve colocar questões à investigação. São os problemas encontrados nos contextos clínicos e na comunidade que muitas vezes nos mostram aquilo que ainda precisamos de compreender melhor.

É também importante esclarecer que uma prática baseada na evidência não significa aplicar protocolos de forma rígida. Implica articular a melhor evidência científica disponível com a competência clínica do profissional e com as características, valores, preferências e contexto da pessoa. Quando conseguimos fazer essa integração, temos maior probabilidade de oferecer intervenções simultaneamente rigorosas, individualizadas e clinicamente relevantes.

 

5. A saúde mental tem vindo a ganhar maior visibilidade pública, mas continuam a existir desafios no acesso aos cuidados e na resposta ao sofrimento psicológico. Quais são hoje as principais lacunas na intervenção psicológica em Portugal e que mudanças considera prioritárias?

Temos hoje muito mais discurso público sobre saúde mental, o que é indiscutivelmente positivo. Mas existe uma diferença importante entre falar de saúde mental e conseguir aceder, em tempo útil, a cuidados psicológicos de qualidade.

Uma das principais lacunas continua a ser precisamente a acessibilidade. É necessário reforçar a presença dos psicólogos nos serviços públicos, particularmente nos Cuidados de Saúde Primários, mas também melhorar a articulação entre saúde, educação, instituições sociais e comunidade. A resposta não pode começar apenas quando os problemas atingem níveis elevados de gravidade.

Precisamos, por isso, de investir mais na prevenção e na intervenção precoce e, simultaneamente, garantir respostas especializadas para quem delas necessita. E acrescentaria uma outra dimensão que considero fundamental: não basta aumentar a quantidade da resposta; é necessário garantir a sua qualidade. Num contexto em que existe uma enorme oferta de conteúdos, aconselhamento e até de supostas intervenções psicológicas, nem sempre sustentadas cientificamente, é essencial assegurar que as pessoas têm acesso a profissionais qualificados e a intervenções baseadas na evidência.

No fundo, precisamos de tornar os cuidados psicológicos mais acessíveis, mas também mais próximos, mais precoces e cientificamente mais robustos.

Fonte: 
Taylor365
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.