Opinião

Quando a raça não encaixa no estilo de vida

Atualizado: 
29/06/2026 - 09:23
Numa altura em que as redes sociais influenciam cada vez mais as nossas escolhas, também a procura por determinadas raças de cães e gatos tem sido fortemente impulsionada por tendências digitais, imagens apelativas e conteúdos virais. O resultado é concreto: aumento de abandonos, práticas de criação irresponsáveis para responder à procura e animais em lares incompatíveis com as suas necessidades reais.

Embora estas plataformas possam ajudar a conhecer diferentes animais, raramente mostram a realidade completa. Um vídeo de poucos segundos dificilmente transmite as necessidades de exercício, estimulação mental, socialização ou acompanhamento médico-veterinário que determinadas raças exigem ao longo da vida.

Raças como o Bulldog Francês, o Dachshund ou o Border Collie têm ganho grande popularidade nos últimos anos. No entanto, para além da sua aparência ou personalidade, cada uma apresenta características específicas que devem ser consideradas antes da decisão. Um Border Collie necessita de elevados níveis de atividade física e mental para manter o equilíbrio comportamental. Um Bulldog Francês pode apresentar predisposição para dificuldades respiratórias associadas à sua conformação física. Já o Dachshund requer atenção particular à saúde da coluna vertebral devido à sua estrutura corporal característica.

Nos gatos, a situação não é muito diferente. O Scottish Fold, por exemplo, é conhecido pelas orelhas dobradas, uma característica que pode estar associada a alterações osteoarticulares. O Sphynx, frequentemente escolhido pela ausência de pelo, exige cuidados específicos com a pele, enquanto o Bengal se destaca pelos elevados níveis de energia e necessidade de estimulação.

Estas características não significam que determinadas raças sejam mais problemáticas do que outras. Significam apenas que possuem necessidades próprias que devem ser conhecidas e compreendidas pelos futuros cuidadores. Quando esta informação não é considerada, aumenta o risco de surgirem dificuldades de adaptação, problemas comportamentais e desafios relacionados com a saúde e o bem-estar do animal.

Na prática clínica, é relativamente comum observar situações em que as expectativas dos cuidadores não correspondem à realidade. Animais com necessidades de exercício superiores às esperadas, predisposições para determinadas doenças ou exigências específicas de cuidados podem representar um desafio para famílias que não estavam preparadas para essa realidade.

Por isso, antes de escolher uma raça, é fundamental procurar informação junto de fontes credíveis e recorrer ao aconselhamento de profissionais qualificados. Compreender antecipadamente as características físicas, comportamentais e clínicas de cada animal permite tomar decisões mais conscientes e evitar situações que comprometem o bem-estar do animal e a estabilidade da própria família.

A escolha de um animal de companhia deve ir muito além da aparência ou da popularidade do momento. Afinal, trata-se de uma decisão com impacto durante muitos anos, que deve assentar na compatibilidade entre as necessidades do animal e a realidade de quem o acolhe. Quando essa compatibilidade existe, aumentam significativamente as probabilidades de uma relação saudável, estável e benéfica para toda a família.

 

Autor: 
André Santos - médico veterinário do AniCura Restelo Hospital Veterinário
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.