Opinião

A importância do ritmo cardíaco

Atualizado: 
15/06/2026 - 12:30
Assinalou-se ontem o Dia Mundial do Ritmo Cardíaco, um dia dedicado a sensibilizar a população para a importância de reconhecer alterações do ritmo cardíaco — as designadas arritmias. O ritmo cardíaco reflete a atividade elétrica do coração e pode apresentar-se alterado sob a forma de frequência cardíaca demasiado elevada ou baixa, ou ainda através de um padrão irregular.

As arritmias têm causas, manifestações e implicações clínicas muito diversas, sendo fundamental a sua documentação para garantir uma orientação diagnóstica e terapêutica adequadas. A evolução tecnológica na Cardiologia tem sido notável, sendo atualmente possível registar o ritmo através de dispositivos externos como smartwatchs, tornando possível a associação temporal entre sintomas e arritmias, fornecendo ao médico informação valiosa para a orientação do doente.

Contudo, muitas arritmias são assintomáticas e, em determinados grupos de risco, associam-se a um aumento significativo de morbilidade e mortalidade. Consequentemente, o seu rastreio oportunístico — por exemplo, durante consultas de rotina — ou mais alargado podem ser essenciais. Noutras condições de maior risco, são implantados dispositivos subcutâneos que monitorizam o ritmo cardíaco do doente de forma contínua por um período variável entre 3 e 4 anos sendo possível, através de um programa de monitorização remota, as equipas clínicas receberem alertas de arritmias, mesmo que assintomáticas, registados nas plataformas digitais associadas à unidade hospitalar.

A arritmia sustentada mais frequente com o envelhecimento é a fibrilhação auricular, estando estimada uma duplicação da sua prevalência nas próximas décadas em relação com o aumento da longevidade da população. Trata-se de um ritmo auricular desorganizado que, em alguns doentes, aumenta o risco de formação de coágulos capazes de migrar na circulação e causar eventos embólicos. Uma proporção significativa de doentes permanece sem sintomas, podendo a primeira manifestação da doença ser um acidente vascular cerebral (AVC). O diagnóstico é ainda mais desafiante porque a fibrilhação auricular pode ser paroxística, ou seja, intermitente, e facilmente ser subdiagnosticada. Neste campo, existem dois domínios fundamentais para reduzir o risco embólico: nos doentes com elevado risco deve ser feito um rastreio desta arritmia; neste sentido, e refletindo o paradigma atual da importância da decisão partilhada médico/doente, é primordial o ensino à população sobre a importância da palpação do pulso para uma deteção precoce da arritmia, sendo que esta iniciativa é amplamente promovida pelas sociedades científicas como a “European Heart Rhythm Association”; por outro lado, deve ser realizada uma investigação aprofundada de doentes com AVC de causa indeterminada, com o objetivo de identificar episódios de fibrilhação auricular frequentemente silenciosos e intermitentes, prevenindo novos eventos com impacto profundo na qualidade de vida dos doentes vítimas de um AVC de causa embólica.

O ritmo cardíaco é o compasso do nosso coração — e está ao alcance de todos avaliá-lo. Promover o seu (re)conhecimento é promover a saúde.

Autor: 
Dra. Silvia Ribeiro - cardiologista Sociedade Portuguesa Cardiologia
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.