O corpo não distingue um leão de um pensamento

O cérebro não está separado do corpo. Não somos um conjunto de gavetas bem divididas e organizadas.
Imaginemos que estamos a ser perseguido por um leão. A amígdala cerebral activa imediatamente o alarme. O sistema nervoso simpático entra em funcionamento. A adrenalina sobe. O cortisol é libertado. O coração bate mais rápida, a respiração acelera, os músculos ficam tensos e a atenção estreita-se.
Tudo isto acontece porque o cérebro acredita que precisa de nos manter vivos. Faz sentido.
Agora imaginemos que estams há três meses preocupados com dinheiro. Ou há dois anos numa relação que nos desgasta mais de dia para dia. Ou há cinco anos a dar o litro no trabalho apesar dos dois filhos pequenos em casa.
O problema é que o cérebro não foi desenhado para distinguir uma ameaça física de uma ameaça psicológica.
Para o organismo, perigo é perigo.
E quando acredita que existe perigo, acontece algo fascinante. O corpo começa a desligar funções secundárias.
Não porque estejam avariadas mas porque não são prioritárias.
Se estivermos a fugir de um leão não precisamos de investir energia em fertilidade. Não precisamos de optimizar a digestão. Não precisamos de reparar os tecidos. Não precisamos de regular o sistema imunitário ao pormenor para responder a estados inflamatórios persistentes.
Precisamos de sobreviver.
O problema é que muitas pessoas vivem anos neste estado. E quando o organismo passa demasiado tempo em modo sobrevivência, começam a surgir consequências biológicas mensuráveis.
O número de casais com problemas de infertilidade dispara. Falamos em síndrome do cólon irritável. Aumenta a inflamação basal crónica. Altera-se a comunicação entre o cérebro e o sistema imunitário. Há mais infecções e mais doenças auto-imunes. Há fadiga persistente sem motivo aparente, problemas de pele, sono, dores musculares.
Não porque "está tudo na cabeça". Mas porque o cérebro influencia profundamente aquilo que acontece no resto do organismo. E o organismo está a fazer exactamente aquilo para que foi programado.
A ideia mais importante talvez seja esta: o stress não se limita a mudar aquilo que sentimos, muda aquilo que o corpo faz.
E é precisamente por isso que a saúde mental deixou de ser apenas uma questão de sofrimento psicológico para passar a ser uma questão central de saúde física.
