Recrutamento internacional: da burocracia à integração

Com o foco em manter a capacidade operacional e a qualidade dos cuidados ao utente, uma das soluções estratégicas poderá ser o recrutamento internacional, mesmo que não como resposta principal, por vários factores.
Atrair talento especializado, particularmente no sector da saúde, exige maior atratividade no que toca às condições e benefícios financeiros, maior agilidade nos processos, menor morosidade burocrática e investimento no factor integração.
Para as instituições de saúde e seus parceiros de recursos humanos, é essencial que haja uma evolução do actual modelo genericamente de contratação puramente transacional, para uma solução focada no acolhimento e numa estratégia integrada e humana.
Enquanto consultores de recursos humanos, especialistas na área da saúde, deparamo-nos muitas vezes com o impedimento de contratar profissionais com anos de experiência no seu sector, nos seus países de origem e outros, que estão em Portugal há já algum tempo, às vezes mais de um ano, sem terem ainda conseguido desenlaçar a burocracia processual a que estão obrigados para poderem exercer a sua actividade.
Este é um dos principais factores de dissuasão para profissionais estrangeiros. O reconhecimento de graus académicos, a inscrição nas Ordens profissionais e a obtenção de vistos pode arrastar-se por meses.
Para mitigar esta morosidade crónica em muitos dos nossos processos, poderão ser adotadas medidas como a criação de canais digitais unificados entre as universidades, a pré-validação de profissionais de países com matrizes formativas semelhantes, a promoção de cursos de língua portuguesa técnica e não técnica, e a promoção de um processo menos burocrático nas Ordens e com maior regularidade. E, mesmo qualquer uma destas medidas não sendo de implementação rápida ou simples, qualquer uma delas reduziria significativamente os prazos de espera dos profissionais que, querendo uma experiência profissional de curta ou longa duração, fariam com toda a certeza a diferença no serviço que é prestado à população.
Tão importante quanto o processo de equivalências e validação de competências técnicas e proficiência no idioma, é a tal estratégia integrada e humana que precisa de compreender a importância da integração destas pessoas num ecossistema em muitas coisas diferente do que lhes é conhecido. Mesmo que dominem a língua portuguesa que para muitos pode ser, e é, uma barreira, terão diversos desafios dinâmicos e culturais, que impactam directamente na execução das suas funções e responsabilidades profissionais, e não só.
Neste âmbito, poderão ser pensados programas de mentoria com profissionais locais ou não locais que estejam já perfeitamente integrados, e que tenham eles próprios ultrapassado os desafios inerentes a uma mudança de país e integração no mercado de trabalho neste sector; cursos ou formações focadas na comunicação com utentes, muitas vezes e tendencialmente mais seniores e; mais focado nos parceiros de recursos humanos e estado, trabalhar-se a empregabilidade do agregado familiar em parceria com a integração em escolas ou universidades dos elementos ainda dependentes da família destes profissionais.
O futuro da qualidade e capacidade de resposta do nosso sistema de saúde, seja no sector público ou privado, depende directamente da capacidade de transformar processos tradicionalmente burocráticos e focados no procedimento, em jornadas de acolhimento integradas, ágeis e verdadeiramente humanas.
