Tabaco nos animais de companhia

- De que forma o fumo afeta cães e gatos?
O organismo dos animais de companhia não está adaptado para processar a carga tóxica associada ao fumo do tabaco. A exposição pode acontecer por via respiratória, pelo contacto com resíduos que se acumulam em superfícies e, no caso dos gatos, também pela ingestão durante a higiene diária. Ao contrário do que muitos cuidadores pensam, abrir uma janela ou fumar noutra divisão não elimina o risco, porque os compostos químicos ficam retidos em tecidos, tapetes e mobiliário, podendo manter-se no ambiente durante longos períodos. Nos cães, a exposição prolongada está relacionada com alterações respiratórias crónicas e com maior probabilidade de tumores nasais e pulmonares. Nos gatos, o problema estende-se também à absorção oral de substâncias cancerígenas depositadas no pelo.
- Quais os sinais de alerta mais comuns?
Os sinais mais frequentes incluem tosse seca ou com expetoração, espirros repetidos, respiração ofegante ou ruidosa, corrimento nasal, olhos vermelhos ou com secreção, perda de apetite, emagrecimento progressivo e menor resistência ao esforço. Nos gatos, lesões ou úlceras na cavidade oral também podem ser um sinal importante. Muitas vezes estes sintomas são atribuídos a outras causas, e a exposição ao fumo acaba por não ser considerada, o que pode atrasar o diagnóstico.
- Porque os gatos são considerados um grupo de maior risco?
A maior vulnerabilidade dos gatos resulta de vários fatores comportamentais e fisiológicos. Os seus hábitos de autolimpeza fazem com que entrem em contacto direto com compostos tóxicos acumulados no pelo ao longo do dia. Além disso, passam muito tempo deitados em superfícies onde os resíduos do fumo tendem a depositar-se. A literatura científica associa esta exposição a linfoma, com risco que aumenta de forma proporcional ao tempo de exposição, e a carcinoma de células escamosas, sobretudo na cavidade oral.
- O que dizem os estudos científicos mais recentes relativamente a este tema?
A investigação mais recente tem aprofundado os mecanismos ligados a esta exposição. Um estudo de 2024 publicado no The Veterinary Journal identificou o fumo passivo como o principal fator de risco modificável para cancro da bexiga em Scottish Terriers, tendo a cotinina urinária sido utilizada como biomarcador da exposição. Trabalhos anteriores da Universidade de Glasgow documentaram alterações celulares mensuráveis em animais expostos e confirmaram a acumulação de nicotina no pelo mesmo em situações em que os cuidadores fumavam apenas no exterior. Em 2023, um estudo publicado em Veterinary Sciences avaliou os níveis de cotinina em cadelas gestantes e nos seus recém-nascidos, sugerindo que a exposição pré-natal ao fumo também pode ter impacto na saúde dos animais.
- Que medidas os cuidadores podem adotar para proteger os seus animais?
A medida com maior impacto continua a ser eliminar totalmente o fumo no interior da casa. Fumar no exterior reduz a exposição, mas não a elimina por completo, já que os resíduos podem regressar ao ambiente através da roupa, das mãos e de outros objetos. Por isso, lavar as mãos e trocar de roupa após fumar são gestos simples que ajudam a diminuir o risco. A limpeza regular de superfícies, camas e brinquedos do animal também contribui para reduzir a presença de fumo terciário. Do ponto de vista clínico, é importante que o cuidador informe o médico-veterinário sobre os hábitos tabágicos do agregado, uma vez que esse contexto pode ser relevante para uma avaliação mais completa e para a deteção precoce de alterações associadas.
