Opinião

O fim dos silos: Comunicação integrada e o novo papel das relações públicas na Saúde

Atualizado: 
21/04/2026 - 08:31
Durante muito tempo, a comunicação foi tratada nas instituições de saúde como um instrumento periférico. Algo acionado quando era necessário divulgar resultados, responder a crises ou tornar visíveis projetos que já estavam estruturados. No entanto, à medida que os sistemas de saúde se tornaram mais complexos — e as sociedades mais informadas, exigentes e expostas a fluxos constantes de informação — tornou-se evidente que esta visão era insuficiente.

Hoje, a comunicação não pode ser apenas um canal. Precisa ser uma parte integrante da forma como as organizações pensam, decidem e se relacionam com o mundo.

Esta mudança tem implicações profundas para o setor da saúde. Hospitais, centros de investigação, escolas médicas e demais instituições na área da saúde continuam frequentemente organizados em estruturas separadas, cada uma com a sua lógica, linguagem e prioridades. Investigação, ensino, prática clínica e relação com a comunidade coexistem no mesmo ecossistema institucional, mas raramente dialogam de uma forma verdadeiramente integrada.

É precisamente neste ponto que a comunicação e, em particular, o trabalho dos profissionais de relações públicas, assume um papel estratégico. Desde os primeiros desenvolvimentos teóricos, as relações públicas foram pensadas não apenas como gestão da visibilidade e reputação das marcas, mas também (e sobretudo) como gestão de relações. Para Edward Bernays1, frequentemente considerado um dos pais das relações públicas, o trabalho destes profissionais consistia em interpretar a sociedade para as organizações e interpretar as organizações para a sociedade. Esta dupla tradução continua a ser central, mas nunca foi tão necessária como no atual contexto da saúde.

Num ambiente onde o conhecimento científico cresce exponencialmente e onde a desinformação circula com igual velocidade, a mediação entre ciência, instituições e cidadãos tornou-se um verdadeiro desafio de interesse público. A comunicação deixou de ser apenas uma questão de reputação e passou a ser uma questão de confiança.

Esta dimensão foi aprofundada por James E. Grunig2, cuja teoria da comunicação bidirecional simétrica propõe que as organizações mais eficazes são aquelas que não comunicam apenas para informar, mas também para ouvir, adaptar-se e construir relações que perdurem com os seus públicos. Aplicada ao setor da saúde, esta ideia implica uma mudança cultural significativa: a comunicação não pode limitar-se a transmitir conhecimento científico, deve criar espaços de diálogo entre profissionais, instituições e comunidades.

Quando esse diálogo não existe, surgem os silos. A investigação produz conhecimento precioso que permanece dentro da academia. Os serviços clínicos desenvolvem práticas inovadoras que raramente são compreendidas fora do seu contexto. As instituições procuram aproximar-se da comunidade, mas muitas vezes fazem-no através de iniciativas isoladas e pouco articuladas.

O resultado é um paradoxo frequente no setor da saúde contemporâneo: existe mais conhecimento científico do que nunca, mas esse conhecimento nem sempre se traduz em impacto social.

É precisamente aqui que o papel das relações públicas se transforma. O profissional de comunicação deixa de ser apenas um gestor de mensagens para se tornar um arquiteto de relações institucionais. A sua função não é apenas amplificar o que a organização faz, mas ajudar a ligar diferentes dimensões da sua atividade: ciência, prática clínica, ensino e comunidade. Talvez por isso a comunicação em saúde seja, antes de mais, um exercício de tradução. Tradução entre ciência e sociedade, entre instituições e cidadãos, entre conhecimento técnico e experiência humana. É nesse espaço de mediação — muitas vezes invisível — que o trabalho de relações públicas revela a sua verdadeira importância.

Esta visão aproxima-se da ideia defendida por Rex Harlow3, que descreveu as relações públicas como uma função de gestão responsável por estabelecer e manter linhas de comunicação, compreensão e cooperação entre uma organização e os seus públicos. Numa instituição de saúde, essa cooperação assume uma importância particular: a qualidade dos cuidados depende muitas vezes da capacidade de transformar conhecimento em comportamentos, recomendações clínicas em adesão terapêutica e investigação científica em políticas de saúde.

Nesse sentido, a comunicação integrada não é apenas uma questão organizacional, é também uma questão de saúde pública.

As escolas médicas oferecem um exemplo particularmente interessante deste potencial. Ao ter pilares de investigação, ensino, formação ao longo do ciclo de carreira de profissionais de saúde e crescente envolvimento com a prática clínica e com a comunidade, estas instituições têm condições únicas para construir pontes entre diferentes esferas do sistema de saúde. Quando a comunicação está integrada desde o início dos projetos — e não apenas no momento da divulgação — torna-se possível criar iniciativas que nascem já orientadas para o impacto social.

A extensão à comunidade deixa de ser apenas um conjunto de atividades paralelas à missão da academia. Passa a ser um espaço onde ciência, prática clínica e comunicação se juntam para produzir algo maior: literacia em saúde, prevenção de doença, capacitação e uma relação mais próxima entre instituições de saúde e a sociedade.

Neste cenário, o profissional de relações públicas ocupa uma posição muitas vezes invisível, mas decisiva. É quem ajuda a traduzir linguagens entre mundos diferentes: o rigor científico da investigação, a urgência prática da clínica, as prioridades institucionais da gestão e as expectativas reais da comunidade. É quem transforma conhecimento em narrativas compreensíveis e relevantes para a sociedade.

Num tempo em que a confiança nas instituições se tornou um recurso escasso e em que a informação circula com uma velocidade sem precedentes, esta capacidade de mediação tornou-se uma das competências mais estratégicas dentro das organizações de saúde. Talvez por isso o verdadeiro desafio do futuro será garantir que o conhecimento circula entre disciplinas, instituições e pessoas. Garantir que as organizações deixam de funcionar em silos e passam a operar como ecossistemas de colaboração. E, nesse processo, a comunicação, muitas vezes vista como um elemento acessório, revela-se afinal como uma das infraestruturas invisíveis que sustentam o funcionamento de um ecossistema deveras complexo.

 

1Bernays, E. (1923). Crystallizing Public Opinion. New York: Boni & Liveright

2Grunig, J. E. (1992). Excellence in Public Relations and Communication Management. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum.

3Harlow, R. F. (1976). Building a Public Relations Definition. Public Relations Review, 2(4), 34–42.

 

Autor: 
Mariana Nóbrega - M.Sc. in Public Relations e Coordenadora do Serviço à Comunidade da NOVA Medical School
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.