Opinião

Alta sazonal: a Primavera chegou - Depressão Sazonal

Atualizado: 
30/03/2026 - 10:19
“Já estou melhor, doutora.”. “Acho que afinal não era nada.”. “Vamos ver se preciso mesmo de continuar, acho que não.” E desaparecem. Desaparecem da consulta, esquecem-se da medicação — que agora “já não faz diferença nenhuma”. Não porque estejam bem — mas porque o cérebro saiu do modo de emergência.

O sol chegou e com ele o humor mais leve, mais energia, menos cansaço, maior produtividade. Voltam a rir, a trabalhar melhor, a achar que exageraram. E fazem o que qualquer pessoa faria: concluem que afinal não tinham nada de grave.

Mas o padrão esse ficou intacto. A vulnerabilidade permanece. O próximo Outono já está escrito.

Eu digo muitas vezes em consulta: melhorar não é o mesmo que estar tratado. E esta é uma das armadilhas mais típicas da depressão sazonal.

Na saúde mental precisamos de ser sérios, sim, mas sem perder a leveza e o humor. É assim que gosto de trabalhar. E por isso, às vezes, digo aos meus doentes — meio a brincar, meio a sério: o frio não é só psicológico.

Mas, na realidade, este ditado deixa muito a desejar. O que pesa não é tanto o frio em si, mas a ausência de luz solar. São os dias curtos e cinzentos que nos mexem mais com a cabeça. A luz é determinante para manter o nosso relógio biológico alinhado e para regular a produção de serotonina — uma molécula central na regulação do humor. Quando a luz aparece mais tarde e desaparece mais cedo, o cérebro ressente-se. E em algumas pessoas, a depressão sazonal ganha terreno.

Mas a história não acaba aqui. A ciência tem vindo a acrescentar novas peças a este puzzle. Hoje sabemos que o sistema imunitário também entra em jogo. A chamada teoria imuno-sazonal sugere que, no Inverno, o organismo activa mais intensamente a resposta inflamatória — a resposta Th1. É a nossa equipa de combate: combate vírus, bactérias, protege-nos. Mas fá-lo à custa de energia. E, no cérebro, este “modo de defesa” traduz-se em lentidão, fadiga extrema, menor motivação, vontade de hibernar.

É como se o corpo dissesse: pára, recolhe-te, poupa energia, concentra-te em sobreviver.

Isto é útil para atravessar o Inverno do ponto de vista biológico. Mas, em cérebros mais sensíveis, pode manifestar-se como depressão.

E depois há o efeito colateral óbvio: o frio fecha portas. Menos convívio, menos movimento, mais isolamento. Ou seja, juntam-se dois factores perigosos — maior vulnerabilidade biológica e menos estratégias protectoras activas. O terreno fica fértil para a doença aparecer

Mas então chega a Primavera. E o sol e o calor. A falsa sensação de “cura” gera uma confusão entre melhoria sazonal e remissão da doença. Há uma enorme dificuldade, característica desta doença, em perceber a diferença entre estar melhor e estar tratado

“Já passou”: a frase mais perigosa da história que hoje vos conto. Porque não passou.

O erro que se repete todos os anos. Até ao próximo Outono que, esse, já está escrito.

Autor: 
Maria Moreno - médica Psiquiatra na Cognilab @mariamoreno.medicapsiquiatra
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.