Opinião

Do ecrã ao consultório: o que nenhuma tecnologia consegue substituir

Atualizado: 
24/03/2026 - 08:36
Nunca tivemos tanto acesso a informação sobre saúde como hoje e, ainda assim, nunca foi tão importante entender que a informação digital não substitui o contacto humano. Perante um sintoma inesperado no animal, o impulso de muitos tutores já não é marcar uma consulta, mas procurar respostas online. Entre pesquisas no Google e ferramentas de inteligência artificial capazes de responder em segundos, a informação tornou-se imediata, mas nem sempre acompanha o ritmo certo do diagnóstico.

Este cenário cria o chamado “cuidador informado”, mais curioso e mais envolvido no bem-estar do seu animal de companhia.  O acesso à informação pode ser positivo e contribuir para uma maior literacia em saúde animal, mas torna-se problemático quando conteúdos sem base científica começam a influenciar decisões. Na prática veterinária, vemos cada vez mais animais a chegarem tarde porque a informação online minimizava a situação e, noutros casos, encontramos cuidadores alarmados sem fundamento. O problema não é a procura de informação, mas a ausência de enquadramento clínico, sobretudo numa área em que o tempo é determinante e muitas doenças começam com sinais discretos que exigem observação profissional.

Mais recentemente, este fenómeno ganhou uma nova dimensão com o desenvolvimento de funcionalidades médicas em ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT. Plataformas que respondem com clareza criam a sensação de um diagnóstico rápido e personalizado, mesmo sem avaliação presencial. Sistemas cada vez mais especializados conseguem analisar sintomas e sugerir hipóteses em segundos. No entanto, por mais avançada que seja a ferramenta, há algo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir: a componente humana do cuidado.

Um algoritmo pode analisar dados, mas não observa o animal quando entra na sala, não percebe a ansiedade do tutor nem capta pequenas alterações de comportamento que muitas vezes orientam o diagnóstico. A internet e a inteligência artificial não conhecem o animal, o seu histórico clínico nem o contexto em que vive. Não sentem o medo, não avaliam a dor ao toque e não oferecem conforto.

Na medicina - humana ou veterinária - o diagnóstico não se constrói apenas a partir de dados, mas de observação, relação e experiência clínica. Nenhum algoritmo substitui o exame físico, o olhar atento ou a capacidade de interpretar sinais no seu contexto real. O nosso papel enquanto médicos veterinários é esclarecer, contextualizar e devolver sentido clínico à informação, garantindo que a tecnologia complementa a avaliação, não a substitui.

Porque, no fim, o bem-estar de um animal constrói-se na relação de confiança entre quem cuida e quem tem o conhecimento para cuidar. Num tempo em que a informação chega cada vez mais depressa, o verdadeiro desafio talvez seja reaprender a distinguir entre saber mais e saber melhor. Porque, por mais avançada que seja a tecnologia, nenhuma máquina substituirá a presença, o cuidado e a relação que fazem parte do ato médico. Concluo dizendo que nenhum motor de busca pode substituir a observação dos nossos cinco sentidos, a análise do cérebro clínico e a empatia dos profissionais de carne e osso.

 

Autor: 
Susana Vítor - chief veterinarian e diretora clínica no AniCura Vasco de Gama Hospital Veterinário
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.