Um convite a olhar a psicose com novos olhos

Quando falamos de psicose, é difícil desfazer-nos do estigma. Este texto é um convite a que adote uma postura de abertura, não-julgamento e até curiosidade, e se distancie de todas as ideias, que através dos medias, dos “diz que disse” ou outra qualquer fonte se foram enraizando e turvando a sua visão acerca da psicose. Aceita?
A psicose não é loucura, não é maldade, nem tão pouco criminalidade. É, sim, uma perceção distorcida da realidade e uma experiência sensorial distinta: acreditar no que os outros não acreditam, ver o que os outros não veem ou ouvir quem não está, de facto, lá. Consegue imaginar o quão assustadora e solitária pode ser esta experiência? O quão difícil pode ser sentir-se seguro e apaziguado?
A ciência é clara: a psicose é multifatorial. Ou seja, pode surgir com a conjugação de vários fatores, sejam eles a lotaria genética, que nenhum de nós escolheu, o stress, a privação de sono, experiências traumáticas ou o consumo de substâncias, por exemplo. Sabemos também que alguns destes fatores não são modificáveis. No entanto, há outros mais controláveis e que sabemos que podem melhorar o prognóstico de pessoas com psicose, tornando o seu caminho, por vezes longo e marcado por experiências difíceis, menos exigente – os fatores protetores.
Cada um de nós, a qualquer momento, pode “despir-se” do estigma, do medo ou do desconhecimento e ser um fator protetor para todos aqueles que vivenciam sintomas psicóticos (presentes em quadros como a esquizofrenia, bipolaridade ou no decurso de consumo de substâncias), ajudando-os, como desejaríamos a qualquer ser humano, a viver uma vida que vale a pena ser vivida. E como?
O primeiro passo poderá ser o de reconhecer que a pessoa com psicose pode experienciar o mundo de forma diferente, mas tem necessidades comuns a todos os seres humanos. Tem a necessidade de ser ouvida, de ser acolhida e não-julgada, a de ser compreendida e valorizada e a de estar em segurança. Mas quando o estigma ocupa um papel central surge também a necessidade de ser vista como realmente é: igual. Alguém munido de sonhos, objetivos e ambições; alguém capaz e resiliente; alguém que também acorda de manhã para trabalhar e dá um beijo de boa noite aos filhos ao deitar.
Há que reconhecer as nossas próprias ideias pré-concebidas e o estigma que também carregamos e procurar estar informado, de acordo com a evidência científica, consultando informação fidedigna e, em cada oportunidade, ajudar a difundi-la. Somos também nós um agente da mudança.
Ser fator protetor para a psicose é oferecer estabilidade, acolhimento e apoio, ajudando a pessoa a regular-se — emocionalmente, biologicamente, mas também, e não menos importante, socialmente.
O livro “Estar Presente”, da autoria de psicólogas clínicas e da saúde, e editado pela PACTOR, aborda temas essenciais como o saber cuidar e o papel do cuidador, emoções, sistemas de regulação emocional, bases do cuidado e regulação emocional, aplicados a diversas temáticas, nomeadamente experiências psicóticas.
