Dependências são menos visíveis e exigem respostas centradas na pessoa

Durante a conferência foi ainda salientado que as dependências, sejam de substâncias ou comportamentais, apresentam hoje maior complexidade clínica e social e exigem respostas integradas. A discussão apontou para a articulação entre respostas clínicas, educativas e comunitárias, num contexto de maior exposição a riscos e de maior vulnerabilidade do desenvolvimento cognitivo e emocional, em particular na adolescência. A prevenção e a intervenção precoce surgem como dimensões centrais das respostas nacionais aos comportamentos aditivos e aos consumos nesta fase da vida.
Jogo online vs. offline: perfis mais jovens e adições mais invisíveis
Um dos momentos centrais da conferência ocorreu na mesa-redonda sobre intervenção psicológica, quando Pedro Hubert, do Instituto de Apoio ao Jogador, descreveu a evolução do perfil do jogador e as diferenças entre jogo online e offline. O especialista referiu que o jogo online tende a apresentar uma idade média mais baixa e perfis com maior capacidade de manter uma vida aparentemente funcional, o que aumenta a invisibilidade do problema e pode atrasar o pedido de ajuda.
Na discussão, foi também evidenciado que estas adições surgem em contextos menos óbvios, incluindo o desporto de alta competição. Esta realidade abre espaço a uma reflexão sobre fatores de risco, pressão e acesso facilitado a apostas, bem como sobre a importância da literacia para reconhecer sinais fora dos estereótipos habituais.
“Não é só a adição”: contexto, história de vida e família
A mesa-redonda, moderada por Mauro Paulino, docente da Universidade Europeia, reuniu ainda Rita Morais, da Recare – Tratamento, Suporte e Aconselhamento de Comportamentos Aditivos, e Carlos Filipe Saraiva, da Mind – Psicologia Clínica e Forense. Em comum, os intervenientes destacam uma mensagem central: o consumo raramente constitui um problema isolado.
Rita Morais salientou a importância de olhar a pessoa na sua complexidade – história de vida, contexto, relações e vulnerabilidades – e não apenas através do comportamento aditivo. Pedro Hubert reforçou a necessidade de compreender a dinâmica familiar, não só enquanto impacto da dependência, mas como parte integrante do processo de avaliação e intervenção, uma vez que a procura de apoio começa muitas vezes junto de familiares e cuidadores. Carlos Filipe Saraiva sintetizou esta perspetiva ao defender que o consumo surge frequentemente como “um conjunto de problemas” e que a resposta clínica precisa de integrar essa realidade.
A conferência destacou ainda a relevância de abordagens humanistas e baseadas na evidência, com foco na redução de riscos e na minimização de danos, bem como a necessidade de modelos flexíveis, capazes de responder a diferentes perfis e trajetórias.
O papel do psicólogo e os limites da intervenção
Ao longo das várias intervenções, os oradores sublinharam o papel do profissional e os limites do processo terapêutico. É destacada a importância da autenticidade e da relação terapêutica como fatores de confiança, num percurso em que o pedido de ajuda demora, muitas vezes, meses ou anos a acontecer. Em paralelo, é reforçada a ideia de que a intervenção tem limites definidos e que o desfecho depende também do comportamento e das decisões do indivíduo, num trabalho que exige consistência, humildade e acompanhamento continuado.
Com esta primeira edição, as Mind & Health Talks dinamizadas pela Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Europeia, pelo CIDESD-UEUROPEIA e pelo Fórum Saúde XXI afirmam-se como um espaço de reflexão e partilha sobre temas críticos de saúde e boas práticas aproximando academia, profissionais e sociedade.
