Opinião

Depressão Kristin - Portugal parou: (Re)conhecer o momento antes da queda

Atualizado: 
04/02/2026 - 08:54
Portugal parou. O impacto da Depressão Kristin fez-se sentir muito para além do vento e da chuva. Entrou na vida daquelas pessoas e de todos nós.

Mas hoje quero falar-vos de uma etapa decisiva – a que estamos a viver agora com o tempo a passar. Antes do colapso: o momento crítico que ninguém vê.

Este é o marco menos reconhecido quando falamos da saúde mental após um evento mau - aquele que antecede a queda.

Vamos até Leiria.

As pessoas estão de pé. Continuam a funcionar. E cumprem. Organizam, resolvem, limpam, reconstroem como podem. O corpo está cansado, mas aguenta. A mente está focada. Este é o modo sobrevivência. Mas os recursos já estão a ser gastos a crédito.

E isto é normal. Mas é transitório.

Na prática clínica, sei que esta fase é decisiva — não porque o sofrimento seja maior agora mas porque é aqui que se previne o colapso ou se torna possível amainar a queda. O problema não é cair. O problema é cair sem rede.

Isto é um padrão que reconhecemos bem da prática clínica. Não é exclusivo a catástrofes. Repete-se sempre que o cérebro entra em modo de sobrevivência.

O cérebro identifica uma ameaça e faz aquilo para que foi programado: reduz as suas prioridades a um mínimo. Dorme-se menos, sente-se menos, pensa-se menos no futuro. Há tarefas. Há prioridades. Não há espaço para parar.

Muitos dizem: “Até estou surpreendentemente bem.” Estão. Porque ainda estão em modo de emergência.

A pessoa a quem morre o pai que nem chora, trata de tudo. Organiza o funeral, resolve a papelada, até apoia quem está à volta. Aguenta. O sistema nervoso simpático está ativo. A adrenalina mantém o corpo de pé. O cortisol ajuda a ignorar sinais de exaustão. Funciona. Mas tem prazo. Algumas semanas depois, tudo colapsa. Não foi ali que tudo começou. Foi antes. Mas não havia espaço para sentir. Vem depois. Quando já não é preciso ser forte e se para.

O mesmo acontece com os sobreviventes de guerra ou de um campo de concentração. Enquanto estão presos ou isolados, sobrevivem. Adaptam-se. O colapso raramente acontece naquele momento. Acontece depois. Quando chegam a um lugar seguro. Quando está tudo bem e deixa de haver razão.

Pegamos nestes exemplos mas podíamos pensar em mil outros. O canário muda, tudo o resto fica igual. O perigo não “estar em esforço”. O perigo é achar que este esforço é sustentável.

Nada disto significa doença. Significa esforço contínuo. O foco não pode nem deve ser “medicalizar” nem “psicologizar” tudo mas também não podemos cair no erro comum — social e clínico - e exigir normalidade precoce: “Já passou”, “Agora é seguir em frente”, “Há quem esteja pior”. Estas frases não ajudam.

Temos uma só responsabilidade: temos de parar para reconhecer que esta população está em esforço, estar preparados para legitimar o cansaço e a exaustão após esta fase, garantir que ninguém fica sozinho após a fase (dita) crítica e identificar activamente quem é mais vulnerável. A receita, de resto, é sempre igual.

O que precisamos agora não é apressar a queda nem negá-la. É preparar terreno. Ainda não lá chegámos. Mas chegaremos.

 

Autor: 
Dra. Maria Moreno - médica Psiquiatra na CogniLab @mariamoreno.medicapsiquiatra
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.