O Cancro na perspetiva que não se vê: Dor, Resiliência e Cuidado Emocional

As reações vão da negação ao “modo resolução de problemas ativado”, passando, muitas vezes, por longos períodos de dissociação e confusão. Porquê a mim? Porquê aos meus? Questionamos a medicina, a fé, a bondade e as certezas. Repetimos credos e crenças, agarramo-nos ao visível e invisível, e o caminho dá luta a quem tem e a quem acompanha. Não há fórmulas certas; depois da zanga, é preciso aceitar. Não normalizar nem entrar em falsos otimismos, mas aceitar a inevitabilidade da luta e a necessidade de resiliência e suporte, num caminho sinuoso, mas sempre com os olhos postos numa esperança incerta sobre um desfecho esperado, mas nem sempre encontrado.
A Incidência do Cancro em Portugal
O cancro é uma realidade para cada vez mais pessoas, não só em Portugal, mas no mundo inteiro. O impacto que esta doença tem a nível físico, psicológico e social, tanto para o doente como para a sua família e amigos pode ser avassalador. Atualmente, percebe-se que os fatores emocionais e comportamentais podem ser fundamentais para o início, progressão e prognóstico da doença.
Segundo dados divulgados pela Liga Portuguesa Contra o Cancro e publicados pelo The Global Cancer Observatory (GCO) em 2024, no ano de 2022 foram registados 69.567 novos casos de cancro em Portugal (31.702 mulheres e 37.865 homens), dos quais foram registadas 33.762 mortes (14.252 mulheres e 19.510 homens), o que corresponde a quase 50% dos casos. Apesar dos evidentes avanços na medicina e na ciência, segundo dados da OCDE, prevê-se que haja um aumento de 20% na incidência do cancro até 2040.
Com base nos mesmos dados relativos ao ano de 2022, no caso das mulheres, as três principais localizações tumorais são: a mama (com 8.954 casos e mortalidade de, cerca de um terço dos mesmos), colorretal (com 4.438 e mortalidade de cerca de metade dos casos, 2.141 pessoas) e o pulmão, traqueia e brônquios (com 1.902 casos e respetiva mortalidade de 1.391 desses casos).
No caso dos homens, por sua vez, as três principais localizações tumorais são: a próstata (com 7.529 casos e mortalidade de 2.083 dos mesmos), colorretal (com 6.092 e mortalidade de 2.668 dos casos) e o pulmão, traqueia e brônquios (com 4.253 casos e uma mortalidade bastante elevada: 3.686 desses casos).
Para estes números podem contribuir fatores como alguns associados ao processo de envelhecimento, predisposição genética, epigenética (como o nosso corpo “liga” e “desliga” genes ou ajusta o volume com que eles se expressam) e/ou fatores contextuais, como hábitos alimentares e de atividade física deficitários), exposição a determinados químicos/substâncias, álcool e tabaco, entre outros. Por outro lado, temos também fatores protetores como a adoção de um estilo de vida equilibrado (alimentação, exercício físico, exposição ao stress, entre outros) análises e exames regulares, diagnóstico e intervenção precoce.
O Impacto no Doente, na Família e nas Relações Interpessoais
O cancro é uma doença que desorganiza e impacta uma série de dimensões da vida da pessoa e de quem o rodeia. Dados recentes indicam que mais de metade dos doentes oncológicos manifestam sofrimento emocional significativo, o que parece ter um impacto direto nos sintomas e efeitos secundários inerentes aos tratamentos. Adicionalmente, mais de um quarto dos mesmos (cerca de 25 a 30%) têm sintomas psicopatológicos com relevância clínica (e.g. perturbações de ansiedade, depressivas e de adaptação).
O artigo publicado por Marzorati et al, em 2025, que teve como objetivo resumir sistematicamente os fatores psicológicos e sociais associados positiva ou negativamente à qualidade de vida de pacientes com cancro em tratamento, com base nos estudos de dezoito revisões sistemáticas publicadas entre 2012 e 2023 em plataformas de investigação científica de referência, concluiu que os principais fatores psicológicos com impacto na qualidade de vida do doente são a depressão, as estratégias de coping (formas que usamos para lidar com stress, dor emocional, ameaça, mudança ou dificuldades), a ansiedade e o sofrimento psicológico. Por outro lado, no que respeita aos fatores sociais, o suporte social tem um peso preponderante: quando o doente tem uma boa rede de apoio social, isso tem uma influência positiva na sua qualidade de vida, e ao invés, quando existe um apoio social reduzido e comprometimento do funcionamento social (interações e limitações de papéis), isso parece estar associado a um prejuízo da qualidade de vida e bem-estar geral.
Não obstante, no que respeita ao impacto do cancro nos cuidadores, a revisão integrada levada a cabo por Sarika Ratish em 2025, que sintetizou a literatura existente sobre este assunto em plataformas cientificamente validadas, e incluiu 15 estudos publicados entre 2010 e 2024, pretendeu compreender quais os fatores que contribuem para o stress significativo que estes frequentemente vivenciam e que tem impacto na sua saúde mental e física. Os principais stressores identificados incluem sobrecarga emocional, dificuldades financeiras, restrições de tempo e falta de apoio social. Os efeitos do stress do cuidador foram associados à diminuição da qualidade de vida, problemas de saúde mental (e.g. depressão e ansiedade), e também mostraram ter um impacto negativo na sua saúde física.
De facto, os cuidadores (incluindo os profissionais de saúde) confrontam-se com imensas exigências físicas e emocionais. Cuidar do doente oncológico pressupõe a prestação de cuidados de forma humanística e compassiva, e isto pode levar à experiência de fadiga por compaixão, que é uma consequência de auxiliar (ou do desejo de auxiliar) alguém em sofrimento. Por outro lado, também existem sentimentos positivos de satisfação por compaixão, que representa o contentamento com o seu papel de cuidador.
Compreende-se, hoje, que as intervenções ao nível psicológico e social devem ser uma parte integrante dos cuidados médicos prestados ao doente, e que as mesmas devem estender-se ao seu núcleo familiar e interpessoal.
Estratégias de Intervenção e Ajustamento
No cuidador
À semelhança do que acontece nos vários domínios de intervenção em saúde mental, não há estratégias universais, isto é, que sirvam a todos. No entanto, podemos sempre ter em mente algumas linhas orientadoras que facilitem a gestão emocional e o impacto da doença no doente e nos seus cuidadores.
No caso dos cuidadores, em primeiro lugar, e considerando a já referida fadiga por compaixão como consequência natural da compaixão pela pessoa cuidada, o autocuidado e a autocompaixão são fundamentais para o seu bem-estar. Kristin Neff é uma autora de referência nesta área que tem uma plataforma onde disponibiliza alguns exercícios de autocompaixão, de forma gratuita, que podem ser um excelente recurso para o cuidador da pessoa com doença oncológica, e até para o próprio doente (estes exercícios – por exemplo, a pausa compassiva e o exercício de cuidar do cuidador – e outros recursos importantes podem ser diretamente consultados em https://self-compassion.org/).
Além disso, as intervenções direcionadas para o desenvolvimento de competências (por exemplo, através da psicoeducação), sobretudo no que se refere a ter informação fidedigna e ajustada, aumentam a perceção de controlo por parte dos cuidadores e diminuem alguns sintomas psicopatológicos que possam advir do papel de cuidador.
Não obstante, por muita que seja a necessidade de ajudar a pessoa cuidada, é fundamental não relativizar o problema nem entrar em “falsos otimismos”, validando e criando espaço para as emoções negativas. Frases como “tens de ter força”, “agarra-te ao que tens de bom” e “tudo acontece por uma razão, vais ver que tu consegues”, apesar de ter uma boa intencionalidade implícita, muitas vezes, têm o efeito contrário e soam a incompreensão por parte do doente.
Ser e estar presente é essencial, respeitando o espaço quando necessário. No fundo, transmitir segurança na relação é um elemento facilitador do processo é uma das melhores estratégias; sentir-se acompanhado no caminho e amado durante o processo é mais significativo do que ouvir “frases feitas” que podem, no limite, fazer o doente sentir-se mais pressionado a reagir de determinada forma.
No doente
Por sua vez, no caso do doente, ao longo do processo da doença, o apoio dos cuidadores e dos profissionais de saúde é fundamental para compreender e gerir as situações, emoções e pensamentos à medida que eles vão surgindo.
As intervenções psicoeducativas também se revelam fundamentais, na medida em que os impactos acontecem em múltiplos contextos, e que isto pode facilitar que o doente compreenda, faça uma gestão e integração de forma minimamente adaptativa dos pensamentos, sentimentos e emoções inerentes ao processo, desde o diagnóstico, passando pelo tratamento e, por fim, pelas consequências do mesmo (seja na readaptação à vida “normal” ou à gestão dos processos de luto antecipatório de si mesmo).
Além disso, o acompanhamento psicológico individual e, sempre que necessário, incluindo o contexto familiar/social, é estrutural a vários níveis: pode facilitar a adesão aos tratamentos, incentivar práticas diárias que facilitem os processos adaptativos e de bom prognóstico, melhorias na comunicação com a família, nas relações interpessoais e com os profissionais de saúde. Não obstante, este tipo de intervenção também pode facilitar a gestão da dor e do desconforto que acontecem como efeitos secundários dos tratamentos, a manutenção da qualidade de vida ao longo dos mesmos, adaptação ao luto da imagem corporal e o impacto na sua autoestima, e no fundo, à gestão ou diminuição do sofrimento psicológico/emocional. Também pode revelar-se preponderante haver um acompanhamento direcionado para a gestão do processo de luto e resoluções de fim de vida para o próprio doente, sempre que se revele necessário.
O apoio psicológico é fundamental em todas as etapas do cancro, não apenas para quem recebe o diagnóstico, mas também para familiares e amigos que acompanham de perto o impacto emocional da doença. O acompanhamento especializado permite trabalhar pensamentos, emoções e desafios associados ao diagnóstico, ao tratamento e à recuperação, assim como as dificuldades vividas pela rede de suporte.
Refs. Bibliográficas:
- Azad, M. A., Shariat, S., Farhadi, T., & Shahidi, L. (2018). The Prediction of Psychological Well-Being Based on Self-Compassion and Self-Esteem in Caregivers of People with Physical, Mental, and Multiple Disabilities in the Welfare Organization. Social Behaviour Research & Health, 2(1), 164–173.
- Liga Portuguesa Contra o Cancro. (2024, 11 de novembro). Incidência e mortalidade por cancro. https://www.ligacontracancro.pt/incidenciamortalidade/
- Marzorati, C., Voskanyan, V., Sala, D., Grasso, R. M., Borgogni, F., Pietrobon, R., van …, Heide, I., Engelaar, M., Bos, N., Caraceni, A. T. G., Couspel, N., Ferrer, M., Groenvold, S., Kaasa, S., Lombardo, C., Sirven, A., Vachon, H., Gilbert, A., Brunelli, C., & Apolone, G. (2025). Psychosocial factors associated with quality of life in cancer patients undergoing treatment: An umbrella review. Health and Quality of Life Outcomes, 23, 31. https://doi.org/10.1186/s12955-025-02357-z
- Ratish, S. (2025). Stress among caregivers of cancer patients: An integrated review. International Journal of Psychiatric Nursing, 11(1), 5-12. https://doi.org/10.37506/pb6grh65
- Teva Portugal. (s.d.). Cancro: Um guia para cuidadores. Teva Portugal. https://www.teva.pt/cuidadores/cancro/
