Desaparecimento de Pessoas com Demência

Enquadramento: demência, errância e desaparecimento
- O desaparecimento de Pessoas com Demência é um incidente frequente ao longo da doença e constitui uma das principais fontes de angústia para cuidadores formais e informais;
- Estima‑se que uma proporção relevante destes episódios requeira intervenção das forças de segurança, o que exige protocolos específicos de comunicação e busca;
- A literatura diferencia comportamentos de “wandering” (errância) de “missing incidents” (incidentes de desaparecimento), salientando que estes últimos podem ocorrer mesmo sem historial prévio de errância e envolvem maior risco de dano.
Padrões comportamentais relevantes para a busca
- Pessoas com Demência que desaparecem tendem a dirigir‑se para locais previamente significativos, como antigas residências, locais de trabalho ou espaços de lazer habituais, o que torna crucial recolher informação detalhada sobre a história de vida e rotinas;
- Frequentemente deslocam‑se a pé, são encontradas em curtas distâncias (cerca de 2–2,5 km) do ponto de desaparecimento, perto de caminhos/estradas e a caminhar em linha relativamente reta até encontrarem barreiras físicas naturais ou artificiais (vedações, mato denso, valas, carros abandonados);
- Podem isolar‑se em áreas naturais, não responder a quem as chama, não pedir ajuda, despir roupas e deixar poucas pistas físicas, sobretudo se houver delírios persecutórios ou medo de estar a serem repreendidas.
Prevenção: recomendações para cuidadores e profissionais
- Promover a literacia em demência e em risco de errância, discutindo desde o diagnóstico a possibilidade de desaparecimentos e estratégias de segurança, incluindo dispositivos tecnológicos e planos de “safe walking”;
- Conversar precocemente com a Pessoa com Demência sobre a utilização de dispositivos de geolocalização ou identificação, ponderando consentimento, privacidade e autonomia; a colocação posterior sem consentimento levanta questões ético‑legais que exigem reflexão interprofissional;
- Elaborar um Perfil individual da Pessoa com Demência, com fotografia atual, contactos, doenças, medicação, zonas de risco, locais significativos, padrões de mobilidade e historial de desaparecimentos, para ser entregue de imediato às autoridades em caso de incidente (modelo disponível pela Alzheimer Portugal);
- Garantir que a pessoa tem sempre identificação visível (documento, cartão, colar ou pulseira) e contactos de emergência; etiquetar a roupa com nome e telefone facilita a identificação se estiver sem documentos;
- Inscrever a pessoa em programas específicos como a pulseira “Estou Aqui Adultos” da PSP, dirigida a pessoas adultas vulneráveis (por idade ou patologia, como a doença de Alzheimer) que possam ficar desorientadas ou inconscientes na via pública;
- Informar vizinhos, comércio local e instituições da comunidade sobre a demência e tendência para errância, solicitando que contactem a família ou o 112 se virem a pessoa sozinha em situação suspeita.
Resposta imediata ao desaparecimento
- Se, após 10–20 minutos de procura nos locais habituais, a Pessoa com Demência não for encontrada, o desaparecimento deve ser reportado às forças de segurança (PSP ou GNR) sem atrasos, dado que o tempo é um fator crítico para o sucesso das buscas;
- A equipa de saúde deve reforçar junto dos cuidadores que não se deve esperar “que volte por si” nem minimizar o risco; a ativação precoce dos meios de segurança está associada a menor morbilidade e mortalidade;
- A busca inicial deve incidir sobre a área envolvente da residência ou último local onde foi vista, incluindo caminhos prováveis, paragens de transporte, zonas de vegetação densa, linhas de vedação, corpos de água, valas e estruturas onde se possa abrigar;
- Deve ser assegurado que alguém permanece em casa caso a pessoa regresse, enquanto outro cuidador se coordena com a PSP/GNR e mobiliza vizinhos e outros recursos comunitários.
Cooperação com PSP/GNR e uso de programas específicos
- Ao contactar a PSP ou a GNR, é fundamental fornecer rapidamente fotografia recente, descrição detalhada (roupa, postura, marcha), diagnóstico de demência, medicação, presença de comorbilidades (por exemplo, risco de queda, insuficiência cardíaca, diabetes) e locais onde é provável que se dirija;
- A entrega do Perfil individual previamente preparado agiliza o processo de registo, avaliação de risco e definição de perímetros de busca, permitindo às forças de segurança ativar protocolos específicos para pessoas vulneráveis;
- Sempre que a pessoa use a pulseira “Estou Aqui Adultos”, quem a encontrar deve ligar 112 e facultar o código alfanumérico gravado; a PSP aciona a força de segurança territorialmente competente e contacta os responsáveis registados, promovendo um reencontro célere e seguro;
- Os profissionais de saúde podem e devem divulgar ativamente este programa em consultas de demência, equipas de saúde familiar, unidades de cuidados na comunidade e instituições, integrando‑o nas estratégias de segurança para pessoas em risco de desorientação.
Papel dos profissionais de saúde
- Profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas) devem avaliar regularmente o risco de errância e desaparecimento, incluindo alterações comportamentais, padrão de deambulação, capacidade de orientação, uso de transporte e conflitos familiares;
- A intervenção inclui educação estruturada de cuidadores, elaboração de planos de segurança, prescrição/encaminhamento para programas de identificação e articulação com serviços sociais e associações de doentes como a Alzheimer Portugal;
- Após um desaparecimento, recomenda‑se uma consulta de follow‑up para rever causas precipitantes (rotinas, stress, discussões, alterações ambientais, sundowning), reforçar medidas de prevenção e monitorizar impacto psicológico em cuidadores, frequentemente marcado por culpa e medo;
- A documentação clínica deve registar todos os incidentes de desaparecimento, ações realizadas e recomendações dadas, permitindo continuidade de cuidados e eventual partilha de informação essencial com PSP/GNR em futuros episódios.
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