Opinião

Memória genética: o que é?

Atualizado: 
17/11/2025 - 10:17
Há algo de misterioso em saber que não começamos do zero. O que em nós parece não ter explicação, mas insiste em repetir-se? Trazemos connosco uma história que não temos memória o que não nos permita evocá-la, mas que se manifesta no corpo, nos sonhos, nas repetições da vida. A memória genética é esse fio invisível que liga o que fomos ao que somos: um eco antigo que o corpo escuta mesmo quando a mente procura calar.

O corpo sabe de coisas que a mente desconhece. Será que algumas emoções que sentimos não são totalmente nossas? A ciência chama-lhe epigenética: o estudo de como as experiências de vida deixam marcas químicas no ADN, influenciando a forma como os genes se expressam, sem alterar a sequência genética. Em 2013, um estudo da Universidade de Emory mostrou que ratos expostos a um cheiro associado a um choque elétrico tiveram filhos e netos que também reagiam com medo ao mesmo odor, sem nunca o terem experienciado. Em humanos, a investigação de Rachel Yehuda (Mount Sinai, 2015) encontrou alterações epigenéticas em descendentes de sobreviventes do Holocausto, nos genes ligados ao stresse e ao cortisol. A vida parece escrever nas margens da biologia: herdamos não apenas genes, mas tonalidades emocionais, modos de reagir, silêncios aprendidos antes de nascermos. Há, em cada um de nós, a memória de uma sobrevivência antiga.

 

“Da minha infância não me lembro de nada.”

“O meu corpo reage antes de eu perceber porquê.”

“Tenho a sensação de já ter vivido isto noutro lugar.”

 

Talvez o corpo se recorde do que a mente não pode lembrar. Podem existir sintomas que são formas antigas de falar. A psicossomática reflete que o corpo é o palco onde o invisível se torna visível: nas dores sem causa médica, nas insónias que guardam medo, nas alergias ou sintomas que surgem quando a alma não tem voz. Estudos na neurobiologia do trauma (Bessel van der Kolk, 2014) revelam que experiências traumáticas alteram a forma como o corpo regula as emoções e armazena as memórias. O sintoma torna-se então uma linguagem: um pedido de legenda. O que nos dói sem razão aparente poderá ser uma história à espera de ser escutada e traduzida?

A ciência é prudente. Confirma a transmissão de marcas epigenéticas, mas não fala de memórias conscientes. Ainda assim, a psicanálise há muito reconhece essa herança invisível - os segredos, as culpas e os medos familiares que atravessam gerações. Como dizia Françoise Dolto, “o que não é simbolizado numa geração é vivido na seguinte.” Entre a epigenética e o inconsciente relacional parece existir uma mesma linguagem: a do indizível que procura forma. Quantas vezes o corpo fala quando as palavras não chegam?

Talvez o futuro da compreensão humana esteja em unir o que antes parecia separado: a biologia e a emoção, o gene e a história, o corpo e a consciência. A memória genética poderá revelar até que ponto o nosso comportamento é moldado não apenas pelas experiências que vivemos, mas também pelas marcas emocionais e biológicas herdadas. Mostra-nos que cada pessoa é um ponto de encontro entre o passado e o presente — entre o que o ADN escreve e o que a vida pessoal reescreve.

O corpo é a nossa primeira casa, e a infância (a nossa e a dos antepassados) — mesmo quando não nos lembramos dela — é a casa a que voltamos sempre. Perceber essa herança pode transformar a forma como entendemos as emoções, os traumas e os padrões que se repetem. Ao reconhecer as histórias que o corpo traz consigo, abrimos espaço para uma psicologia mais integrada: aquela que acolhe tanto o que é vivido como o que é herdado. Escutar a memória genética e afetiva é aprender a ler o corpo como se lê um diário antigo: com respeito, paciência e curiosidade. Porque só quando reconhecemos o passado que vive em nós é que podemos ter a liberdade de escolher um futuro verdadeiramente novo. No futuro, talvez compreender e curar o humano passe por escutar essa memória silenciosa e transformar o que herdámos em consciência, para que o que antes era repetição se torne, finalmente, escolha.

Autor: 
Dra. Francisca Silva Ferreira - psicóloga clínica do Núcleo CASA no Porto
Nota: 
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