Opinião

Uma criança de dois anos, um terapeuta morto e muitas perguntas sem resposta

Atualizado: 
19/06/2026 - 07:36
Há notícias que nos chocam pela violência. Outras perturbam-nos porque colocam em causa certezas que julgávamos sólidas. O caso recente ocorrido em Espanha, onde um terapeuta da fala foi morto pelo pai de uma criança de dois anos após suspeitas de abuso, pertence claramente à segunda categoria.

Escrevo estas linhas consciente de que a investigação ainda decorre e de que seria irresponsável retirar conclusões definitivas. Não pretendo absolver nem condenar ninguém. Contudo, há algo que me parece impossível ignorar: independentemente da verdade que vier a ser apurada pelos tribunais, este caso obriga-nos a refletir sobre a forma como protegemos as crianças mais vulneráveis e, simultaneamente, os profissionais que trabalham com elas.

Ao longo da minha vida tive contacto próximo com terapeutas da fala, quer enquanto pessoa com deficiência auditiva, quer enquanto dirigente associativo. Conheço a dedicação, o profissionalismo e a competência de muitos destes profissionais. Sei o papel fundamental que desempenham na reabilitação, na comunicação e na inclusão de milhares de pessoas.

Talvez por isso mesmo me recuse a cair em dois extremos igualmente perigosos: a condenação automática de um profissional apenas porque foi acusado ou, em sentido contrário, a crença ingénua de que a confiança basta para garantir a segurança de todos.

Uma criança de dois anos não possui os mecanismos de proteção de uma criança mais velha. Não consegue relatar acontecimentos complexos, contextualizar situações ou testemunhar de forma consistente. Quando uma intervenção terapêutica ocorre entre um único adulto e uma criança desta idade, sem testemunhas, sem supervisão e sem mecanismos de transparência adequados, cria-se inevitavelmente uma zona cinzenta.

Essa zona cinzenta é perigosa para todos.

É perigosa para a criança, porque pode ficar exposta a riscos que ninguém consegue confirmar ou desmentir de forma objetiva. Mas também é perigosa para o profissional, cuja reputação pode ser destruída por uma suspeita, um mal-entendido ou uma interpretação errada de uma situação clínica legítima.

A verdade é que este caso nos confronta com uma pergunta desconfortável: será aceitável que uma criança de dois anos permaneça sozinha durante longos períodos com um único adulto, sem qualquer mecanismo adicional de proteção ou supervisão?

Nos hospitais, onde grande parte da terapia da fala também é realizada, existe normalmente um ecossistema de proteção natural: profissionais a circular, auxiliares, rececionistas, outros utentes, equipas multidisciplinares. Já em muitos gabinetes privados, o cenário é diferente. Por vezes existe apenas o terapeuta e a criança.

Não estou a sugerir que exista perigo em cada gabinete. Estou a afirmar algo diferente: os sistemas devem ser desenhados para prevenir riscos, não para reagir depois das tragédias.

Por isso, talvez tenha chegado o momento de discutir seriamente medidas como gabinetes com visibilidade parcial para zonas comuns, protocolos específicos para crianças muito pequenas, possibilidade de observação parental, presença obrigatória de um segundo adulto em situações de higiene ou vulnerabilidade acrescida e orientações nacionais claras para estes contextos.

Alguns argumentarão que estas medidas representam custos adicionais. É verdade. Mas também têm custos as acusações infundadas, a perda de confiança das famílias e, sobretudo, as situações em que as salvaguardas se revelam insuficientes.

Aquilo que mais me impressiona neste caso não é apenas a tragédia humana. É a quantidade de perguntas que continuam sem resposta. E quando um caso deixa tantas dúvidas, talvez o verdadeiro problema não esteja apenas nas pessoas envolvidas, mas também nos procedimentos que permitiram que tudo acontecesse sem testemunhas, sem transparência e sem certezas.

A proteção das crianças e a proteção dos profissionais não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário: reforçam-se mutuamente. Quanto mais transparente for um sistema, mais segura estará a criança e mais protegido estará o profissional inocente.

Independentemente da conclusão judicial deste processo, uma coisa parece-me evidente: não podemos continuar a discutir apenas quem tinha razão naquele momento. Devemos também perguntar-nos como evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.

Porque quando uma criança de dois anos entra numa sala de terapia, a confiança é importante. Mas a transparência é indispensável.
 

Autor: 
António Ricardo Antunes Miranda - Presidente e Sócio Fundador da OUVIR – Associação Portuguesa de Portadores de Próteses e Implantes Auditivos
Nota: 
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.